quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Conversa, quinta feira, 18 de dezembro de 2014

            Cada irmão que parte nos recorda que estamos todos a caminho. Ontem soube da partida de Dom Beda Pereira de Holanda, monge beneditino que foi meu colega de ordenação presbiteral, posteriormente foi abade do mosteiro em Olinda e nos últimos anos estava como prior no pequeno mosteiro de Fortaleza. Faleceu aos 76 de um câncer nos ossos que se propagou por outros órgãos e o levou depois de uma luta de anos e anos. Está agora no céu intercedendo por nós. 
               Nesses dias, parece meio irônico que eu esteja me preparando interiormente para essa celebração do Natal lendo o mais recente livro do Roger Leanners, um padre jesuíta austríaco de 90 anos e que publicou vários livros. Em português, tínhamos "Um outro Cristianismo é possível" e agora esse "Viver em Deus, sem Deus". 
Quem estudou teologia não estranha o título. Sabe que vem do teólogo alemão Bonhoeffer que já o adaptou de um jurista do século XVI: "Viver com Deus e em Deus, como se Deus não existisse". No século XVI, esse princípio permitiu a paz religiosa na qual nenhuma religião tinha direito de se impor. (em princípio, é claro. Na prática, a Igreja Católica sempre fez isso). No século XX, esse princípio conduziu ao que Bonhoeffer chamava de "um cristianismo adulto", que não recorre a Deus como tapa-buraco e nem como alguém de fora a intervir nos problemas do mundo. O pastor luterano Bonhoeffer propunha uma fé livre da religião (podia ser religiosa ou não, mas livre no sentido de não submissa) e uma interpretação da espiritualidade e da oração muito adulta e muito consciente. O livro do Roger Leanners é muito interessante, muito vivo. É claro que ele fala a partir da Europa e de uma visão de civilização moderna ocidental que tem diferenças da cultura nossa aqui na América Latina. De todo modo, vale a pena ler e conversar com ele. Depois, comentarei mais com vocês o que estou pensando dessa leitura. 
     

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Conversa, quarta feira, 17 de dezembro 2014

            Hoje, as comunidades cristãs antigas entram no que se chama "Semana Santa do Natal" com as grandes invocações pela vinda do Senhor (invocações que se chamam "antífonas Ó" porque começam todas chamando Jesus com a interjeição Ó. "ó sabedoria!, ó chave de Davi, ó raiz de Jessé, Ó Adonai e assim por diante. 
                Cada dia, pela manhã e à noite, estou rezando os ofícios desses dias com minha irmã Penha (claro que ofícios adaptados na linha do Ofício Divino das Comunidades). E procuro ler a fé a partir dos acontecimentos da vida. Nesse sentido, celebro um acontecimento que torna hoje um dia especial.
              Hoje, às 15 horas do horário de Brasília (12 h de Washington e 13 de Havana) acabou o tempo da guerra fria que durante mais de 50 anos isolou Cuba de todos os outros países ocidentais e foi responsável por tantos problemas. Nesse dia, o presidente dos EUA e o presidente de Cuba fizeram um acordo de restabelecer relações diplomáticas e acabar com o bloqueio de Cuba. O bloqueio econômico só o Congresso americano pode acabar e o Congresso é dominado pelos conservadores e não sabemos se o fará, mas de todo modo, estou em festa porque os EUA libertaram os três cubanos presos há tantos anos como espiões quando apenas estavam defendendo Cuba do terrorismo de grupos radicais que usam Miami como base. Cuba também soltou dois prisioneiros americanos. É um grande passo para a integração maior dos nossos países. Um sinal de que o Natal da paz é possível e nós temos de alcança-lo. 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Meditação bíblica para o domingo 14 de dezembro 2014

       Na tradição das Igrejas antigas, o 3o domingo do Advento que celebramos hoje é o domingo da Alegria. E o motivo da alegria messiânica é da proximidade de Deus. "O Senhor está perto!". Para nós que cremos que Deus está em nós, essa proximidade não é espacial. É de intensidade. Estamos mais em Deus e Deus em nós. E essa é a alegria do Natal. Na primeira leitura da missa desse domingo, ouvimos a vocação de um profeta discípulo de Isaías que começa dizendo: "O Espírito de Deus está em mim". Que beleza. E o Evangelho diz: João Batista veio como testemunha da luz para que todos cressem através dele. E quando perguntavam "quem és tu?" a primeira coisa que ele tinha de esclarecer era: "eu não sou o Cristo". Por que tinha de esclarecer isso? Por que parecia. Que vocação essa nossa de parecer tanto com Jesus que confunda as pessoas: será que não é ele? E João tem de clarear: eu vim adiante dele. João é testemunha da Palavra. Jesus é a Palavra. 
      Que esses dias antes do Natal nos ajudem a abrir o coração para nos tornarmos nós a presença do Cristo no mundo. Lembramos que ele nasceu em Belém para sermos nós hoje os presépios vivos de sua presença no mundo. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Conversa, sexta feira, 12 de dezembro 2014

          Hoje, em toda a América Latina, as comunidades católicas celebram a festa de Nossa Senhora de Guadalupe. Essa crença mistura a devoção a Maria, mãe de Jesus com a fé em Tonantzin, a deusa asteca que representa a mãe e protege os índios em suas aflições. Essa síntese foi importante na época da conquista (em que o Catolicismo se impôs como religião obrigatória e as religiões indígenas perseguidas). Hoje ainda, os índios continuam com suas crenças e devoções, agora sincretizadas no culto de Maria. A Igreja oficial não compreende e muitas vezes ignora ou até condena. 
          Para muita gente, a imagem dessa moça grávida que teria aparecido ao índio Juan Diego em 1530 é a imagem feminina de Deus e trouxe para os oprimidos uma esperança e força no meio de seus sofrimentos - força de resistência cultural e de unidade. 
             Nem sempre é fácil ver nas expressões de piedade indígena ou afrodescendente uma sabedoria profética, mas lemos no evangelho que Jesus disse: "Eu te agradeço, Pai, porque revelaste os teus segredos aos mais simples e pequeninos e os escondeste aos grandes e entendidos do mundo" (Mt 10, 25 ss).           

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Conversa, segunda feira, 08 de dezembro 2014

        Hoje, completo 49 anos do 08 de dezembro em que fiz minha primeira profissão (votos) de monge. Assim, entro na celebração do meu ano de jubileu (50 anos). Quanta coisa mudou desde então, dentro de mim e na minha relação com o mundo. Hoje, pela manhã,   algo dentro de mim me fez voltar ao velho mosteiro de Olinda. Como não tinha avisado ou preparado a visita - o mosteiro está com os telefones cortados - uma pane no sistema - não encontrei nenhum dos meus amigos - e achei o mosteiro o invólucro de sempre, mas "a borboleta voou". Gostei de ter ido até a Igreja e de ter reencontrado os lugares de minha primeira formação monástica, mas essa visita só me confirmou: o mosteiro no qual Deus me quer é o mundo: o mundo, como ele é. E como sinal divino nesse dia, recebi um convite para participar da próxima sessão do Fórum Mundial de Teologia e Libertação que se realizará durante o próximo encontro do Fórum Social Mundial em Túnis na Tunísia (África) em março. Se Deus me conservar o mínimo de saúde, irei. 
      Hoje celebro também o progresso no processo de integração da América do Sul como a imensa pátria grande sonhada por Bolívar. Nesses dias, foi inaugurada em Quito, no Equador, a sede da UNASUL (União das Nações da América do Sul). O edifício ganhou o nome de Nestor Kirtchen, em homenagem ao presidente argentino que foi o primeiro secretário geral da UNASUL. E em um encontro que houve agora, os presidentes dessa organização decidiram duas coisas: vão implementar a possibilidade de uma moeda comum latino-americana (será mais forte do que o dólar que está em crise) e junto com isso até o final desse ano (portanto dentro de um mês), sairá do papel e das idéias a fundação do Banco do Sul que terá como função coordenar a solidariedade econômica entre nossos povos. Um belo sonho que se realiza. Somos brasileiros, mas mais do que isso, somos latino-americanos.  

sábado, 6 de dezembro de 2014

Meditação bíblica para o domingo, 07 de dezembro 2014

             Nesse segundo domingo do Advento, as Igrejas que seguem o legionário litúrgico começam a proclamação do evangelho de Marcos - Mc 1, 1- 8. É o único dos quatro textos que chamamos de "evangelho" que tem ele mesmo esse título. Os outros não se chamam assim. Ao fazer isso, a comunidade que se colocou sob o nome de Marcos provoca uma subversão em relação à cultura romana. Gert Theissen diz que o evangelho de Marcos é na verdade um contra-evangelho que se opõe aos evangelhos conhecidos na época dos imperadores flavianos. E esse evangelho diz respeito a Jesus, filho de Deus e ao seu projeto de vida: o reino de Deus, o programa que Deus tem para o mundo. 
         De acordo com o evangelho, esse evangelho tem um começo. E esse começo é a profecia de João Batista no deserto. É muito importante perceber que o evangelho do anúncio do reino começa por uma profecia e essa se passa no deserto. O deserto é o lugar do enfrentamento com as dificuldades do caminho. A profecia é sempre assim: surge em lugar e momento de muitas dificuldades. 
        De um lado, diante desses problemas, o profeta recorda o Êxodo. Retoma a profecia de Isaias e Malaquias que dizem que o próprio Deus vai guiar o seu povo pelo deserto (para a terra prometida). As profecias que na época o povo interpretava como se referindo ao fim da história, o evangelho as interpreta trazendo para dentro da história. É outra subversão: É a própria história com sua dimensão social e política que serve de sinal do reino divino. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Conversa, sexta feira, 05 de dezembro 2014

        Encontro de retiro espiritual com o clero da diocese anglicana de Brasília. Um grupo de seis padres, duas presbíteras e um diácono. Pela manhã, a partir do evangelho do encontro de Jesus com a samaritana, conversamos sobre as sedes que temos hoje, como pessoas e como comunidade e como dizer hoje a Jesus: dá-me de beber. Mas, em primeiro lugar, como conseguir escutar o pedido de Jesus que é o primeiro a nos pedir, como pediu à mulher da Samaria: Dá-me de beber. 
        Depois de uma boa reflexão, um tempo de oração individual e finalmente uma partilha. À tarde, a partir das cartas do Apocalipse às Igrejas da Ásia (Apoc 2 e 3), meditar a carta que Jesus hoje diz a cada um de nós e à nossa Igreja. 
        O bispo adotou como livro de Advento para todos o meu livro mais recente: Evangelho e Instituição. Fico um pouco com vergonha de falar disso como se estivesse fazendo promoção de mim mesmo. Tanto que preferi não fazer o retiro a partir do livro. 
      O importante é que todos tenham gostado e que eu tenha sentido que saíram dessa meditação de hoje mais animados e fortalecidos para a luta do dia a dia.