sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Artigo semanal, sexta-feira, 30 de setembro 2016

Para uma espiritualidade política

          Para muitas pessoas que seguem caminhos espirituais, a Política nada tem a ver com a Espiritualidade. Pensam a fé como exclusiva relação com Deus e expressa nas devoções. A Política fica, então, restrita ao exercício do poder na sociedade. Quando se separa a espiritualidade da vida real, as eleições se reduzem a um ritual político, repetido a cada quatro anos, enquanto a espiritualidade é reduzida ao mundo religioso. Na realidade, a vida não é assim, fragmentada em compartimentos separados. O compromisso político vai muito além das eleições, assim como a Espiritualidade se expressa em todos os campos da vida e não só no religioso. Simone Weil, pensadora francesa da primeira metade do século XX, afirmava: "Conheço quem é de Deus não quando me fala de Deus e sim pelo modo de se relacionar com os outros".
  • Nos séculos passados, por não terem claro essa relação entre o compromisso ético da fé e a dimensão espiritual da Política, as próprias estruturas das Igrejas e religiões, assim como a maioria dos religiosos, deram aparência religiosa a guerras e violências indescritíveis. Na Índia, as religiões deram aparência espiritual ao sistema social das castas. Na África do Sul, durante séculos, cristãos protestantes justificaram o apartheid. No mundo inteiro, católicos e evangélicos legitimaram o Colonialismo. Foram coniventes com o racismo e com injustiças sociais. Até hoje, no Congresso brasileiro, um grupo de parlamentares se dizem evangélicos. Sem nenhuma preocupação com a Ética, sem compromisso com a justiça e menos ainda com o serviço ao povo, a maioria exerce o mandato para defender interesses de seus grupos religiosos ou, pior ainda, simplesmente enriquecer. Em nome de um Deus cruel, amigo apenas dos seus amigos e vingativo em relação aos demais, eles fortalecem as desigualdades sociais.
  • Para que isso nunca mais aconteça, temos de aprofundar  a dimensão política libertadora da espiritualidade. Quanto mais formos pessoas de oração e de profunda mística, mais a nossa busca espiritual se manifestará em nosso modo de exercer o compromisso político. O Concilio Vaticano II afirmava que Deus não quis nos salvar individualmente, mas nos unir em comunidade (Lumen Gentium 2). Por isso, a Política é uma arte sublime e importante. Todos nós fazemos Política o tempo todo. Política é como respiração. Sem respiração, morremos. Além da Política como exercício do poder, existe uma política de base que consiste na participação social em grupos e organizações que buscam transformar a sociedade.  Seja como parlamentar ou prefeito de um município, seja como militante político nas bases, o cidadão ou cidadã vive a Política como vocação pessoal. Como vocação, a Política é a mais nobre das atividades. Se for apenas para ganhar dinheiro ou para ter poder e prestígio, a Política se torna a profissão mais vil e vergonhosa.
  • Para votar nessas eleições com coerência espiritual é preciso ser dócil ao Espírito de Deus em nós e não seguir critérios de interesse pessoal, de família ou votar apenas por relação de amizade. Como diz uma campanha popular: “Voto não tem preço. Tem consequências”. O nosso voto pode ajudar a construir uma sociedade mais justa, ou pode, ao contrário, perpetuar os velhos vícios do sistema vigente. No Brasil, muitos políticos que pareciam éticos e coerentes, hoje revelam claramente ter trocado um projeto de país por um mero projeto de poder pessoal ou partidário. Entretanto, seja como for, todos os políticos e partidos não são iguais ou equivalentes. Mesmo se, em muitos casos, ainda somos obrigados a votar no menos pior, é importante discernir entre as diversas escolhas possíveis, a que nos parece ser a mais justa e adequada para o bem comum.
  •   Os Evangelhos contam que, ao entrar em Jerusalém, Jesus foi ao templo e ali, com um chicote em punho, expulsou os cambistas e vendedores de animais para os sacrifícios. Essa cena pode servir como símbolo para a vida de hoje. A Política como atividade espiritual pode ser vista como um novo templo divino, porque é o espaço formador da dignidade coletiva de um povo. Por isso, é preciso expulsar dela os vendedores que a aviltam. Hoje, o chicote com o qual podem ser expulsos da política os que a reduzem a um negócio de interesse e mercado só pode ser o voto consciente e ético de cada cidadão/ã.  O evangelho diz que devemos julgar as pessoas e partidos conforme a prática e pelos seus resultados. “Pelos frutos bons, vocês podem discernir que a árvore é boa, assim como pelos maus frutos, verão que uma árvore é má. Pelos frutos, vocês podem discernir se a árvore é boa ou má” (Mt 7, 18). 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Conversa, quarta-feira, 28 de setembro 2016

             Nesses dias, Montevidéu voltou aos dias de inverno quase antártico. Um frio úmido que faz mal. No entanto, o calor humano que encontro na casa de Diego Pereira e sua esposa Rosina com o seu filhinho Juan Pablo (4 anos), me faz ignorar o frio e viver a amizade como energia aquecedora. 
              Fiz o esforço de vir do Recife para o lançamento do primeiro livro de Diego: La fuerza transformadora de la esperanza. 
Antes de tudo porque quis apoiar e mostrar a importância do surgimento de teólogos novos, comprometidos com os pobres e inseridos na busca comum da Teologia da Libertação. Depois, porque para o mundo atual, esse tema da esperança é urgente e prioritário. Diego parte da laicidade da filosofia, mesmo se se trata da Filosofia personalista (cristã) de Gabriel Marcel e ali ele sublinha a importância da subjetividade, tema até hoje, pouco desenvolvido pela Teologia da Libertação que cuida muito mais do comunitário e do coletivo. Mas, pouco a pouco, o livro de Diego nos convoca para um grande mutirão de esperança no mundo atual. 
Na linha do que propõe Edgar Morin com sua ideia do “pensamento complexo”, aqui, Diego Pereira partilha conosco a sua síntese sobre a Filosofia personalista e comunitária, assim como a Teologia judaico-cristã contextual, ecumênica e pluralista na qual, ele se formou e que assume como a raiz e o tronco a partir dos quais modelou sua vida. É a partir dessa base que ele propõe a construção da esperança para a nossa sociedade e  a construção de uma vida feliz que os índios latino-americanos chamam de “bem viver” e o evangelho joanino situa como “vida em abundância” (Jo 10, 10). 
Nossa profunda gratidão a Diego Pereira por nos apontar o rumo e fazer de nós protagonistas importantes de uma linda parábola (mashal) de amor. Nessas páginas que condensam o seu pensamento e sua opção de vida, Diego mostra que a Teologia da Libertação está viva e operante no Uruguai e pode se alegrar de contar com gente jovem e muito capaz.
Para além dos meandros do saber racional, este livro nos convida a nos aventurar na busca de um mistério do qual muito se fala e, talvez, com facilidade demais, se tente definir. Entretanto, “como a ventania, sopra onde quer. Ouves a sua voz e não sabes de onde vem, nem para onde vai” (Jo 3, 7). Nenhum mortal pode amordaçar a ventania.  O mistério é uma intimidade só penetrável pela prática cotidiana de vida.


domingo, 25 de setembro de 2016

Meditação bíblica, domingo, 25 de setembro 2016

- O rico e o pobre Lázaro (Lc 16, 19 – 31).

É uma parábola própria do evangelho de Lucas e, sob certo ponto de vista, muito problemática. É preciso compreendê-la como um conto da religião popular da época. Só assim podemos aceitar essas imagens de um quase fatalismo que condena uns ao inferno eterno e sem remissão.
Essa mesma história foi encontrada na antiga literatura egípcia[1].  E também contos semelhantes estão em livros judaicos da época do final do primeiro testamento. Na tradição judaica, não havia essa imagem de duas moradas opostas e nem se pensava que o Sheol fosse lugar de tormentos. Era um estado de sombra, mas não tinha essa imagem de fogo. Isso vem dos apocalipses judaicos da época do final do primeiro testamento. O próprio fato de chamar Deus de pai Abraão parece vir de fontes muito antigas e da religião cananéia, mais do que da tradição bíblica. Para a religião judaica popular da época, Abraão (em hebraico Grande Pai) seria uma espécie de Orixá, uma representação de Deus. 
“Etimologicamente, o nome Abraão representava o próprio Deus: Abiran. É a esse deus ao qual os reis cananeus e também o patriarca Abraão adoravam” (Cf. Gn 14, 18)[2].
Como é freqüente nos contos de religião popular, seja qual for, (existem contos assim no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo), a perspectiva é de retribuição com prêmio ou castigo depois da morte ou aqui mesmo na terra. 
Graças a Deus, a fé na graça de Deus e da salvação universal que o evangelho de Lucas anuncia faz a gente superar essas parábolas de retribuição para uma compreensão da fé mais gratuita e de salvação. Como dizia o irmão Roger Schutz, prior de Taizé: “Deus só pode amar!”.
O contexto da parábola nesse capítulo do evangelho de Lucas adverte sobre os riscos da riqueza e propõe um apelo à conversão.  É somente isso que se deve colher dessa história e não uma doutrina sobre Deus ou sobre o além-morte ou sobre o inferno. Mas, esse contexto indica algo que no mundo atual se tornou ainda pior do que no mundo antigo: No Capitalismo, nesse sistema em que a vida humana é degradada ao nível do consumo (banquetes e roupas maravilhosas com as quais o rico se veste) não há salvação possível e a morte do pobre (morte provocada pelo sistema e na parábola o pobre morre antes do rico) é para o rico a morte de qualquer possibilidade de salvação. O evangelho conta isso com essas imagens de um abismo do qual ninguém pode passar de lá para cá.... De fato, esse inferno é o próprio mundo e a única diferença da parábola é que enquanto o pobre - a humanidade - migrantes e a massa de gente condenada à morte, enquanto ainda vive podemos sim transformar esse mundo... 



[1] - Cf. Un viaggio nell´aldilà, in Testi religiosi egiziani, Torino, UTET, 1970,pp. 542- 544. 
[2] - Cf.  MARCELO BARROS, A Revelação do Mistério Uno e Múltiplo, (Releitura macro-ecumênica do Nome divino em Ex 3), in Estudos Bíblicos 100, (2008), p. 38.