terça-feira, 21 de outubro de 2014

Conversa, terça feira, 21 de outubro 2014

               Sorrivoli é um lugarejo vizinho à cidade de Cezenna, perto de Rimini, quase no litoral do mar Adriático. Aqui, tem sua casa original o cineasta Roberto Begnini com o qual me encontrei uma vez e me agradeceu uma carta que eu havia escrito aos artistas italianos. Durante a segunda guerra, Sorrívoli foi bombardeada e a Igreja paroquial foi destruída. Depois da guerra, uma família rica deu o seu castelo para ser a sede da paróquia. O atual pároco se chama Pasquale. Ele fez no Castelo uma comunidade de artistas e intelectuais que vêm de vários lugares para encontros, reuniões, reflexões e celebrações. (Begnini é um deles que sempre que pode aparece). Já vim aqui várias vezes e conheço uma boa parte do grupo. 
          Hoje, estou aqui, acabei de chegar (depois de uma viagem de mais de seis horas) para apresentar o meu novo livro "Evangelho e Instituição". De um lado, teria a tendência de pensar que esse tipo de assunto (sobre a Igreja como instituição e o Evangelho) poderia não interessar a muitos deles, mas descubro que, ao contrário, interessa muito. Pediram-me esse tema. Aceitei, mas contanto que não precise dar conferência. Puxo o assunto de forma provocativa e aí dialogamos. É meu penúltimo compromisso nessa minha passagem na Itália. Amanhã vou a Verona onde tenho amigos, posso descansar um pouco e só na quinta à noite, tenho uma palestra. Na sexta, retomo minha viagem de volta a Recife. 

domingo, 19 de outubro de 2014

Conversa, domingo, 19 de outubro 2014

              Pinerolo é uma cidade de uns 30 mil habitantes, como tantas do interior do Brasil. Fica no norte da Itália, já olhando os Alpes que, nessa região, dividem a Itália (do lado de cá) e a França (do lado de lá). Mais ou menos perto do famoso Monte Branco. Pinerolo tem um centro de dois ou três séculos e alguns bairros feitos recentemente. Aqui em uma paróquia do centro tem um padre que todo ano vai passar um mês no sertão da Bahia - Cícero Dantas - uma região paupérrima, quente e seca - vai com um grupo de jovens para fazer voluntariado e servir ao pessoal do lugar. 
               Aqui com um grupo bíblico que tem gente de 70 e tem jovens (uns cinco ou seis) na casa dos 20, estou concluindo um comentário ao evangelho de Marcos em forma de diálogo. Muito enriquecedor para mim que sempre aprendo muito das questões que eles colocam. 
              Na sexta feira, ante-ontem, como tinha contado aqui visitei e almocei em uma comunidade muito diferente das que conhecia até aqui. Chegamos (eu e Antonio Vermigli) em um prédio de periferia de cidade. Um lugar chamado Fidenza, perto de Parma. 
          Um prédio de apartamentos de quatro andares e longo. Moderno, de bom gosto, todos os apartamentos de terraço e dando para o sul de onde vem o sol da manhã e o vento. 
               Ali fomos recebidos por um senhor (Mauro) que nos contou: "Aqui vivem 15 famílias que, desde uns 12 anos, decidiram viver em comunidade. Compraram o terreno juntos e juntos construíram os apartamentos. Todos têm a mesma configuração e todos dão para o terraço que é uma área comum. Embaixo (no piso térreo) ficam a sala comum de refeições, cozinha, depósito, dispensa, sala de eletricidade, uma central de eletricidade. Têm energia solar e aquecimento de água sem pagar nada. Eletricidade praticamente gratuita, etc... Das 15 famílias, cinco escolheram ter toda a economia em comum (menos propriedade de imóveis por respeito aos filhos e questões de herança). Mas, o que ganham em salário põem em comum e é administrado por uma pessoa de fora. E cada um pega da caixa comum o que precisa. Só se o gasto exceder a certa soma (por exemplo, alguém quer comprar um carro) aí precisa ver se a caixa tem dinheiro e se todos autorizam. Mas, para os gastos simples do mês, são livres".
        Perguntei: - E a motivação que levou vocês a isso foi ou é religiosa?
        Ele: - Não. A comunidade é totalmente leiga. Alguns vêm de tradição cristã e de fato a fé nos ajudou a optar por isso. Mas, de nossa parte. Outros vêm de opção social e política. A comunidade não é de caráter religioso e nem se fala nisso... 
       - E os filhos de cada família, entram nessa opção dos pais?
      Ele: É livre. Alguns sim. Outros não. Quando crianças são criados juntos e isso de todo modo é bom e positivo e educa muito. Quando crescem, têm toda liberdade de cada um tomar o seu rumo. 
        - E como administram as diferenças e conflitos que aparecem?
       Ele: Temos uma reunião semanal das cinco famílias que põem tudo em comum e temos um facilitador que não é chefe nem coordenador, nem manda em nada, mas é encarregado de nos ajudar nas relações, no diálogo que é sempre um desafio... E temos também a assembleia de todos - das 15 famílias - agora 13 - que também tem alguém para ajudar na coordenação. Normalmente, não há problemas. As vantagens e ganhos são imensamente maiores do que as dificuldades. 
       De fato, ele nos mostrou todas as coisas comuns e fomos para o almoço comum embaixo - no piso térreo. Havia umas 30 pessoas, com alguns adolescentes e duas ou três crianças. O ambiente me pareceu o melhor possível. 
       Nunca tinha conhecido uma experiência assim. Como sempre conheci comunidades religiosas e essas estão em crise grave, fiquei impressionado de conhecer uma não religiosa, livre e feliz. 


sábado, 18 de outubro de 2014

Meditação bíblica para o domingo, 19 de outubro 2014

    Cheguei a Pinerolo, perto de Turim, no norte da Italia. Aqui, nesse final de semana, trabalharei com um grupo bíblico daqui a conclusão do comentário ecumênico ao evangelho de Marcos que desde o ano passado estou escrevendo com esse grupo. Ontem foi um dia fatigante e por outro lado muito bom. Depois, contarei. Agora lhes deixo com um comentário sobre as leituras bíblicas desse domingo feito por um padre francês e distribuído via internet pelo Centro Alceu Amoroso Lima. Desculpem não mandar um comentário mais pessoal meu porque não tenho nenhum tempo de fazer isso agora. Por outro lado, concordo com esse comentário que li: 


Domingo, 19 de Outubro de 2014: 29º Domingo do Tempo Comum - Ano A

Dize-nos o que pensas: «Meu Reino não é deste mundo», dirá Jesus um dia. Não há para ele nenhuma ambigüidade entre o poder dos reis e a humildade dos servidores, entre as posses dos ricos e a pobreza dos pequenos, entre a sabedoria dos sábios e a procura dos que buscam a Deus. Sede cidadãos do mundo, diz, mas não esqueçais que sois cidadãos do Reino.

Textos deste Domingo

Uma armadilha sutil
A resposta de Jesus aos fariseus parece à primeira vista uma pirueta verbal, destinada a desarmar a arapuca que tramaram contra ele. A armadilha é evidente: se responde que Deus aceita que se pague o imposto, vai se por contra todos os que resistem à ocupação romana, ativos ou não. Vai se passar por uma espécie de «colaborador». Se, ao contrário, responder que não se deve pagar o imposto, os seus adversários irão imediatamente a Pilatos, para denunciá-lo. Jesus, na realidade, irá aproveitar-se desta armadilha para revelar uma verdade fundamental. É em nome da fé e do «verdadeiro caminho de Deus» que os fariseus pedem que ele se pronuncie. Em outras palavras, pagar ou não pagar o imposto ao imperador seria um problema que se resolveria a partir do culto prestado a Deus; seria, portanto, uma questão de fé. A armadilha é sutil porque, em certo sentido, tudo o que temos de fazer e de viver deve se realizar na fé; tudo diz respeito a Deus. De fato, tudo o que é verdadeiramente humano é ao mesmo tempo divino, uma vez que ser homem consiste em ser imagem e semelhança de Deus. Nada escapa a este Ser que é o fundamento de tudo o que existe. Por isso, pagar ou não pagar o imposto tem algo a ver com Deus. Mas o que significa, então, a resposta de Jesus que parece distinguir um domínio que é divino e um domínio que é simplesmente humano? Isto nos lembra outra resposta, dada a alguém que lhe pedia para fazer com que o irmão repartisse a sua herança (Lc 12,13): «Quem me estabeleceu juiz ou árbitro da vossa partilha?»

O permitido e o proibido
O que, então, Jesus quer dizer? É importante dar a esta questão a resposta certa, pois ela é que comanda a nossa atitude para com a sociedade «laica», no bom sentido da palavra. E, também, o valor que podemos reconhecer nas escolhas feitas por tantos homens e mulheres sem qualquer referência religiosa. Digamos que livremente é que o homem deve aceitar se construir à imagem de Deus. As Escrituras não nos fornecem nenhuma lista do que é «permitido». Ao contrário, somente do que é «proibido»: as 10 palavras (Decálogo) que, depois de nos terem dito que a nossa verdade consiste em amar, enumeram os limites além dos quais não há amor possível. Já foi dito que estas proibições podem se resumir no «Não matarás», que ocupa o centro da lista. Entendendo-se que matar o outro começa quando o desprezamos, quando não o levamos em conta, quando o reduzimos ao silêncio ou ao estado de objeto utilizável na «produção». Tendo dito isto, notemos que Deus não nos prescreve como amar. Cabe a nós inventá-lo: «Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade. Escolhe, pois, a vida, para que vivas» (Dt 30,15 e 19). Mas onde está a felicidade? Onde, a infelicidade? Cabe a nós decidir. Pois, não comemos o fruto da árvore do bem e do mal? Deus não nos prescreve; não se pronuncia em termos do que seja permitido e proibido. Seria bom se, um dia, a Igreja imitasse esta maneira divina de se comportar.

Deus e César
Ao pedir que os fariseus identificassem a efígie de César na moeda que usavam todos os dias, Jesus quer que tomem consciência da lógica das suas vidas: se não querem pagar o imposto, que se recusem também a fazer as compras com estas moedas. E ainda, da mesma forma, que renunciem a se fazerem pagar com esta moeda estrangeira. Somos assim convidados a tomar as nossas decisões não em virtude de uma suposta vontade de Deus, mas segundo a lógica, a que estiver ao nosso alcance, de tudo o que temos de viver. Sob a condição, é claro, de que estas decisões provenham da nossa escolha fundamental, de ter no amor a nossa linha de conduta. Isto evidentemente é o que deve dominar o nosso discernimento a respeito das condutas a manter. Com isto dito, podemos tomar consciência de que «dar a César o que é de César» é o melhor meio de «dar a Deus o que é de Deus». De fato, através dos outros é que Deus vem nos encontrar e, também, através dos outros é que nós O encontramos. Mas cheguemos até o fim: quanto mais os outros nos são estranhos e estrangeiros, mais eles nos trazem a presença daquele que é o «Todo Outro». Notemos, no entanto, que os fariseus não perguntam se é permitido ou proibido pagar um imposto injusto, mas simplesmente pagar o imposto. O que aqui está em causa não é o justo ou o injusto, mas a imagem que se faz de Deus: em vez de um Deus que prevê e prescreve todas as nossas condutas, somos convidados a descobrir um Deus que nos convoca à liberdade.

Marcel Domergue, jesuíta (tradução livre de www.croire.com pelos irmãos Lara)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Conversa, sexta feira, 17 de outubro 2014

        O tempo continua chuvoso e meio escuro perto da cadeia dos Apeninos que corta a Itália de lado a lado. Ontem à noite, voltei para casa à meia noite depois de um encontro com umas 200 pessoas em Viareggio. O tema era "O caminho para a paz, justiça e defesa da natureza", temas ou propostas do Conselho Mundial de Igrejas para todos os cristãos (católicos, protestantes e ortodoxos). 
        O debate foi vivo e profundo, mas era um barulho enorme e voltei muito cansado. 
         Daqui há pouco deixarei a Casa da Solidariedade em Quarrata, perto de Florença na Toscana e viajarei ao norte da Itália. Perto de Parma, visitarei e devo falar em uma aldeia ecológica que produz alimentos biológicos e as pessoas ali vivem uma vida comunitária. Depois, contarei como é, já que ainda não conheço. 
 De lá me levam a Parma onde terei pelas 15 horas um encontro sobre "como passar do medo à esperança" no ponto de vista da inserção no mundo atual. Não sei porque, mas pensam que eu tenho uma liberdade interior que me dá alguma experiência para falar disso. Não sei. Procuro ser sincero e dizer o que sinto e penso. 
Depois me levam a Modena - uns 50 km e ali participarei de uma vigilia noturna sobre a missão da Igreja. Modena é a Igreja local italiana que tinha uma relação muito profunda com a diocese de Goiás (na época em que Dom Tomás era bispo de Goiás). Aqui vive ainda o padre Francisco Cavazzutti, cego, ferido pelo tiro de um pistoleiro a serviço do latifúndio em Mossâmedes (1987). Espero encontrá-lo. Imaginem depois desse itinerário de hoje o meu cansaço, tanto em falar uma língua diferente da minha natural, como pelo fato de serem vários assuntos e eu me obrigo a ser profundo e ainda por cima estou com uma alergia nasal forte (provavelmente pela mudança de clima). Tomara que não vire resfriado. 
      O bom é encontrar pessoas boas, sentir que as estou animando e me sentir confirmado por elas nesse caminho da paz, justiça e defesa da natureza. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Conversa, quinta feira, 16 de outubro 2014

         Hoje estou na região da Toscana. Embora o tempo esteja chuvoso e instável, essas colinas cheias de videiras e de oliveiras, sempre abrigando algum castelo medieval ou algum antigo refúgio de eremitas famosos nos encanta tanto pela história como simplesmente pela beleza do verde e  pelo testemunho de que nossa civilização não precisa caminhar sempre na direção das empreiteiras, construtoras de grandes edifícios e verticalização de nossas cidades. Existe mais humanidade em outro rumo. 
          Ontem, aqui em Quarrata, perto de Florença, tive um dia mais tranquilo. Passei o dia estudando. Estou lendo um livro de Vito Mancuso, italiano, filósofo e doutor em Teologia que atualmente faz muito sucesso em todo o mundo (mesmo no Brasil). 
           Há pouco tempo, uma família amiga perdeu sua mãe em um acidente de automóvel. Uma tragédia. Sofrimento imenso. Uma das filhas tem um filhinho de seis anos que pergunta pela avó e quer saber o que acontece quando a pessoa morre. O que responder? "Virou uma estrela". "Foi para o céu para junto de Deus" são respostas comuns do pessoal mais ligado à fé. Mas, mesmo sem fé, como dizer a uma criança:  acabou e foi enterrada? Descobri que esse problema não é só para crianças. Mesmo os adultos perguntam que sentido tem a vida se ela é tão frágil, tão incerta e em um segundo pode acabar. O que é a alma? Existe mesmo? É imortal? O que existe depois da morte? 
        Temos de ser humildes e confessar que não somos donos/as desses assuntos, mas tenho procurado estudar as tradições antigas tanto das religiões negras e indígenas, como da Bíblia e também ler autores atuais e o que pode dizer sobre isso a filosofia atual. Justamente, Vitor Mancuso, filósofo e teólogo, escreveu: "A alma e o seu destino". É um livro grande em italiano, difícil de ler porque tem muitas citações. Mas estou tentando resumir e em português. 
Depois, reparto-o com voces. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Conversa, quarta feira, 15 de outubro de 2014


Carta aos irmãos e irmãs com os/as quais caminho nas estradas da vida 


               Nesses dias, estou passando pela Itália para lançar um livro novo que saiu aqui ("Evangelho e Instituição" - diálogo com a teologia do nosso mestre José Comblin e concluir em diálogo com um grupo bíblico italiano um comentário ecumênico ao evangelho de Marcos. Aceitei essa vinda sem calcular que precisaria estar no Brasil nesses dias e por isso sofro e me sinto em falta com o povo brasileiro. Embora eu pudesse fazer pouca coisa no meio dessa guerra insana e cruel contra as conquistas que, por causa do governo do PT e através da luta popular, os movimentos sociais e o povo conquistaram nesses doze anos, de todo modo, me sentiria mais junto de vocês nessa luta. 
                 Como já disse em outro escrito, minha avaliação do resultado das eleições de 05 de outubro (da qual participei ativamente) é que precisamos com urgência retomar os instrumentos de formação permanente das bases e poder suscitar de novo minorias abraâmicas em meio ao deserto social e político em que vivemos. E no dia 26 (eu voltarei ao Brasil para votar), votemos na Dilma, mesmo que criticamente, para logo depois retomar a luta pela reforma política e para abrir um canal permanente de diálogo entre o governo e os movimentos sociais. É preciso que o nosso voto no segundo turno das eleições, o nosso voto seja expressão de nosso compromisso com as lutas do povo, sobretudo com os mais pobres. Voltar a um governo do PSDB com sua política elitista e contra os empobrecidos é trair o caminho já feito com tantas dificuldades. 
                  Transcrevo aqui um grande trecho da carta-manifesto da irmã Eurides Oliveira, texto que me foi enviado pelo amigo Reginaldo Veloso:   
              "O Papa Francisco afirma: “Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão. A política é uma das formas mais elevadas da caridade. Uma fé autêntica – que nunca é cômoda nem individualista – comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela”[ii]
            Leonardo Boff parafraseia essa afirmação, dizendo, que a Política com “P” maiúsculo, comprometida com um modelo de sociedade voltado para a inclusão, a participação e a justiça social é uma das formas mais altas de amor social.   
             O Resultado do primeiro turno das eleições coloca-nos diante de uma hora histórico-politica decisiva.  Não obstante a necessidade de uma leitura mais ampla do resultado das urnas, o que temos em curso é uma grande investida da direita conservadora do país, uma articulação de forças da elite oligárquica e patrimonialista, detentora do poder econômico e apoiada pelas mídias globais para retornar ao poder. Uma disputa não apenas de dois candidatos opositores, ou entre siglas partidárias, mas de dois Projetos de Sociedade. 
           Aécio Neves representa o projeto do triunfo do capital sobre as pessoas, do retorno à “ditadura do mercado financeiro”, através das privatizações, da independência do banco central, do caminho livre para o narcotráfico e consequentemente do acirramento das desigualdades, da repressão aos movimentos sociais e do abortamento de todas as mudanças sociais e estruturais em curso. A volta a uma história que experimentamos recentemente, com o presidente Fernando Henrique Cardoso: desemprego, altos índices de inflação, fome, endividamento publico, privatizações, apagões, deixando abaixo da linha da pobreza mais 30 milhões de pessoas. Uma massa sobrante, à margem das condições mínimas de vida.  Lembram? 
          Dilma Rousseff, representa a continuidade e o aprimoramento do  projeto de crescimento econômico e social voltado para as classes populares, comprometido com a superação das desigualdades e a soberania nacional. Nos últimos 12 anos como afirma Leonardo Boff: “Não podemos negar que milhões  de pessoas viram suas aspirações atendidas e que hoje o rumo do Brasil é outro. Pode não ser do agrado das classes dominantes que foram derrotadas. De um Estado neoliberal e privatista que se alinhava ao neoliberalismo dominante, passamos a um Estado republicano, Estado que coloca a res publica, a coisa pública, o social no foco de sua ação, Daí a centralidade que o governo Lula-Dilma deu aos milhões que estavam secularmente à margem e que foram – são 36 milhões – inseridos na sociedade organizada[iii]e com melhorias concretas em suas vidas cotidianas.Nosso voto, agora pode decidir pela continuidade ou ruptura deste caminho.
        Como nos afirma o historiador Oscar Beozzo“A questão de fundo em nossa sociedade é a do direito dos pequenos à vida sempre ameaçada pela abissal desigualdade de acesso aos meios de vida e pelas exíguas oportunidades abertas às grandes maiorias do andar debaixo”. A elite brasileira incomodada com as politicas de ascensão social e econômica dos mais pobres, através das políticas democráticas e dos programas sociais como o Bolsa Família, o  ProUni, o PRONATEC, Luz para todos, Minha Casa Minha Vida, o Mais Médicos e outros quevisam a assegurar direitos cidadãos, ampliar a democratização da sociedade, combater privilégios dos grandes grupos econômicos, têm  recorrido aos meios mais espúrios para descaracterizar o governo Dilma e retornar ao poder.
           (...) E nesta conjuntura político-eleitoral, se queremos ser fiéis à nossa missão de defender a vida e a dignidade humana, de contribuir para um país mais justo e solidário, não resta dúvida, nosso compromisso se expressa pela nossa opção politica pela da vida do povo,“contra as tramóias da direita”[iv] , e afavor da consolidação do projeto democrático popular, pelo nosso VOTO EM DILMA 13, que corresponde ao:
            (...)  E para concluir reporto-me a Hannah Arendt para lembrar a todas e todos nós que “o poder só é efetivo enquanto a palavra e o ato não se divorciam. Quando as palavras não são vazias e os atos não são brutais. Quando as palavras não são empregadas para velar intenções, mas para revelar realidades, e os  atos não são usados para violar e destruir, mas para criar novas realidades.”[v]
            Esse poder está agora em nossas mãos. Cabe a nós exercê-lo através do “voto ético”, consciente, livre e responsável, expressando nosso compromisso com a vida e a cidadania. Optando pelo projeto de desenvolvimento que nos permita, não obstante as dificuldades e limites, seguir superando as dificuldades, fazendo as mudanças necessárias e assim reinventando o Brasil que queremos:  economicamente justo, politicamente democrático, socialmente solidário, culturalmente plural e ecologicamente sustentável". 
              Em meus contatos com companheiros/as dos países vizinhos que compõem a nossa América Latina como pátria única bolivariana, sinto que todos/as esperam que os brasileiros não traiam o sonho de Bolívar e não votem por atrelar o Brasil ao imperialismo norte-americano como quer Aécio e o PSDB. Logo depois que soube que ganhou as eleições de domingo passado, Evo Morales dedicou sua vitória ao comandante Chávez e a Fidel Castro. Depois declarou que se, no Brasil, houvesse um recuo político à direita, seria muito difícil manter na América Latina os organismos internacionais latino-americanos que garantem nossa soberania. Isso me faz com que, mesmo com todas as críticas que tenho ao governo do PT, peço pelo nosso compromisso de cidadãos latino-americanos, nos lembremos de todos os povos da grande pátria afrolatíndia e, mesmo sabendo que não será nenhum governo que fará a revolução de que precisamos (seremos nós dos movimentos sociais retomando o processo de educação das bases),  votemos em Dilma e peçamos votos para Dilma. 
                Deus nos ilumine e nos conduza nesse caminho. Um abraço do irmão Marcelo Barros
                    

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Conversa, terça feira, 14 de outubro 2014

          Ao lado da Piazza Argentina, no centro antigo de Roma, o palazzo Caetani era a casa dos Caetani. Essa família nobre dominou Roma durante muitos séculos. Dela vieram alguns papas, como em 1300 o famoso papa Bonifácio VIII. Naquele tempo, Pedro Celestino era um monge que foi escolhido como papa em 1294. Não aceitando o ambiente que encontrou, Celestino V renunciou ao papado para voltar a ser monge. Bonifácio VIII o sucedeu e para não ser incomodado por ele, o mandou prender e parece que também mandou matá-lo. 
       O palazzo Caetani é um prédio de alguns andares, hoje ocupado por residências alugadas à "Fundação Caetani" que até hoje administra os imóveis. A embaixada brasileira no Vaticano ocupa o primeiro andar, cheio de salas douradas e ricas em afrescos e toda ornada de quadros renascentistas. Ali, o embaixador Denis Fontes de Souza Pinto me acolheu com muita amizade para apresentar o meu novo livro "Evangelho e Instituição". 
             O embaixador deu as boas vindas a mim e aos convidados.  Depois, o amigo Rafaele Luisi, jornalista da Rádio Vaticano, apresentou o livro. Afirmou que o livro pode ser muito útil nesse momento em que as Igrejas locais precisam apoiar a proposta de reforma da Igreja feita pelo papa Francisco. E fez alguns comentários sobre o Sínodo dos Bispos que atualmente acontece no Vaticano e que ele, como jornalista, acompanha de dentro. Alberto, editor do livro (da editora Messaggero de Pádua) deu uma breve palavra dizendo a alegria da editora de publicar esse livro e confirmou que a editora só pode publicá-lo porque estamos em tempos do papa Francisco. Até março de 2013, a editora jamais aceitaria publicá-lo. E aí deram-me a palavra. 
        Comecei dizendo que se até pouco tempo alguém me dissesse que eu lançaria um livro meu na embaixada brasileira no Vaticano, eu nunca acreditaria. Agradeço agora isso ao embaixador Denis e a esse novo clima existente na Igreja. Sobre esse livro, devo esclarecer: 
       primeiramente: que eu o escrevi antes de tudo para mim mesmo. Eu precisava de meditar sobre esse assunto: como se relacionam em tensão profunda a força libertadora do Evangelho e a instituição eclesiástica, mas não só essa e sim toda instituição, inclusive a identidade de cada pessoa, como o ser padre, o ser monge e assim por diante... Como viver a nossa vocação a serviço da força libertadora do Evangelho. 
          segundo: Como Igreja quer dizer assembleia e assembleia é por vocação um espaço de debate e diálogo, é preciso suscitar esse diálogo. Na espiritualidade judaica, um rabino ensinou ao discípulo que, no monte Sinai, Deus deu a Moisés a sua lei não em uma única tábua de pedra, mas em duas. Sabem por que? Para mostrar que sobre cada assunto, existem ao menos duas interpretações possíveis e válidas. Na nossa Igreja, depois de um longo tempo de pensamento único, é importante retomar esse direito à pluralidade. E essa reflexão do livro quer ajudar nisso. 
        terceiro: faço isso com amor e por amor. E espero ser compreendido assim. 
          O pessoal reagiu com várias perguntas e conversamos por um bom tempo. Depois, no salão nobre da embaixada, o embaixador nos acolheu a todos para um coquetel de salgadinhos e refrescos. 
        Eu tinha pensado que talvez aquele ambiente medieval e refinado fosse o lugar menos indicado para um livro sobre a liberdade do Evangelho. De fato, a espontaneidade do grupo ali reunido foi tanta que o próprio lugar pareceu um sinal de que é possível respirar liberdade e amor na beleza da arte antiga e ser pobre e viver a comunhão da simplicidade, mesmo em meio a toda aquela riqueza.