terça-feira, 1 de setembro de 2015

Artigo semanal, terça feira, 01 de setembro 2015

Hoje é o dia da Criação



Em um gesto ecumênico e de preocupação com a crise ecológica que o mundo atravessa, o papa Francisco assumiu uma iniciativa das Igrejas orientais (Ortodoxas) e decidiu que, a cada ano, o 1o  de setembro seja comemorado como o dia anual de oração e cuidado com a criação. Finalmente, temos uma celebração que une a Igreja Católica Latina e as Igrejas Orientais. Cristãos de vários continentes celebram juntos o dom da criação. 
De acordo com a ciência atual, não há mais sentido em se falar de uma criação, como evento único e completo que Deus teria realizado no começo de tudo. A partir de dados observacionais, o astrônomo norte-americano Edwin P. Hubble (1889 – 1953) introduziu na ciência o conceito do universo permanentemente em expansão. Talvez, no século XX, essa foi a maior descoberta feita pela Cosmologia. Conforme o a Ciência, o Cosmos não somente está incompleto, como em um processo de evolução que, nos tempos atuais, parece estar se acelerando. Isso significa que se, de fato, existe divindade criadora, ela está ainda e sempre em atuação. Não criou uma vez por todas e depois abandonou a criação à própria sorte. Mesmo as pessoas de Ciência que creem em Deus, o contemplam como incorporado ao universo. O Espírito Divino seria como a alma do corpo que é a natureza. Tudo não é deus, mas Deus está em tudo. Crer que Deus está presente e atua na evolução do universo é apostar que o mundo tem futuro e é nossa responsabilidade testemunhar isso. Em sua carta sobre o cuidado com a terra, como casa comum, o papa Francisco esclarece: “Na tradição judaico-cristã, dizer que a natureza é criação divina tem a ver com um projeto de amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e um significado próprios” (n. 76). “Há uma mensagem de cada criatura na harmonia de toda criação” (n. 84).
Quem gosta de Cinema se recorda que, no filme “2001, Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick (1968), havia um monolito misterioso que emitia um som e atraía os seres humanos a novos horizontes do universo. Era uma parábola do que alguns cientistas chamaram de “a melodia secreta do cosmos”. É tarefa da ciência decifrar essa mensagem vinda do universo. Ela é complexa. Pelo que dizem as pessoas que estudam, quando há uma nova descoberta da ciência, surgem outras questões mais novas e, cada vez mais desafiadoras. Neste contexto, a primeira pergunta é o que o universo nos diz sobre nossas vidas e nosso destino, temas que antes perguntávamos à fé e às diversas religiões. 
Atualmente, os cientistas sabem da existência de bilhões de galáxias. Somente a nossa galáxia, cujo diâmetro alcança mais ou menos 300 mil anos luz, pode contar 200 bilhões de estrelas que giram em torno do seu centro. Em um pequeno planeta, localizado na orla de uma dessas cem bilhões de galáxias, cada uma delas com mais de dez bilhões de estrelas, há cerca de apenas duzentos mil anos, vive a humanidade.
Basta isso para concluirmos: não somos o centro de tudo. A terra e a natureza não existem em função do ser humano.  Elas têm sua autonomia e sua mensagem própria. Por outro lado, não estamos aqui por acaso. Temos uma função importante. Fazemos parte da criação divina  para ser como seus representantes no cuidado com todas as criaturas. Na relação com a natureza, não podemos ser como pessoas que vão ver um filme, não por causa do filme em si e sim por causa do ator principal que, no caso, seria Deus. Ele próprio nos pede: “prestem atenção ao filme e não ao artista!”. A natureza, com sua autonomia e suas propriedades, contém como uma nova revelação amorosa para nós, homens e mulheres do século XXI.
Nesse 1o de setembro que a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas celebrarão a nossa relação com a natureza, descubra que diariamente é dia da criação e nós fazemos parte dessa ação amorosa do Espírito. Ouça as novas revelações vindas do universo e se sinta mais intensamente chamado/a ao compromisso ético e libertador que essas revelações apontam. Quem crê em Deus, sabe que se aventurar neste caminho é deixar-se conduzir pelo Espírito que "sopra onde quer. Ouve-se a sua voz, mas não se sabe de onde vem, para onde vai" (Jo 3, 8).

Para quem é cristão/ã, ele sussurra um nome que, como mestre, nos conduz ao amor maior: Jesus de Nazaré. Mas, também traz à humanidade outros nomes de pessoas, entidades e espíritos que são sinônimos de amor e de paz, nas mais diferentes religiões e culturas. Nenhum mortal pode amordaçar a ventania ou frear a liberdade do Espírito.  Os caminhos religiosos, se conseguem sê-lo, podem apenas ser parábolas de amor. Será que as ciências contemporâneas poderão também, um dia, ter a humildade de se assumir como outras parábolas de irmandade universal? Se sim, elas se constituirão mais ainda como novas revelações do amor que fecunda o universo. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Conversa, segunda feira, 31 de agosto 2015

         No sábado, voltei de Salta, no noroeste da Argentina diretamente para Cachoeiro do Itapemirim, ES, onde assessorei um encontro estadual do movimento Fé e Política. Trabalhei todo o domingo e viajei de volta ao Recife hoje de manhã, cansado e gripado. De fato, é difícil saber a medida das coisas. E nem quero pensar em tudo o que tenho para fazer nessa semana antes de embarcar para a Europa para uma missão de duas semanas (no próximo domingo). 
                 Sobre o encontro de Salta, o encontro foi bom, embora ainda muito preso ao academicismo. Mas, querer o que, se a promoção era de duas universidades de Salta? Impressionou-me o fato de que o tema dos 50 anos do Concílio Vaticano II tenha interessado a tanta gente (quase 300 pessoas inscritas) e sendo a maioria jovens estudantes e professores. Principalmente a constituição sobre a Igreja no mundo de hoje tem trechos e pontos citados nesse encontro que tive de reconhecer serem bem atuais... 
                  O encontro de fé e política também era um encontro de muita gente de base. Não sei quantos. Era em uma quadra coberta de um colégio e estava mais ou menos cheia. Pediram-me para falar sobre o paradigma do Bem Viver indígena e a juventude. Não tinha como naquela quadra usar nem slides tipo Power Point nem som mecânico. Tive mesmo de falar diretamente à assembleia. E fiquei feliz de ver que todos ficaram contentes. Fé e Política ainda dá uma impressão de dualismo. Fé na Política fica parecendo que cremos na política. Não expressa o que queremos. Fé Política também parece reduzir. O movimento Fé e Política tem já mais de 25 anos e está espalhado por todo o Brasil. Junta cristãos de várias Igrejas, inseridos no trabalho político de base e também no trabalho parlamentar. É suprapartidário, embora só tem gente de partidos considerados de esquerda (PT, PSOL, PCdoB, etc) e muitos sem partido... Talvez atualmente a maioria...
            A questão de como se articula a vida e a expressão da fé com o compromisso social e político do cristão ainda estamos aprofundando e não é fácil fazer disso uma boa síntese. De todo modo, o importante é a prática.... 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Conversa, quinta feira, 27 de agosto 2015

        Desde ontem, depois de uma longa e cansativa viagem, estou em Salta, no extremo norte da Argentina para participar e falar em um Congresso da Universidade de Salta sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II e os caminhos das Igrejas na América Latina. 
         É um encontro grande. Mais de 300 participantes, entre professores, alunos e gente de Igrejas. Um congresso com vinte assessores, importantes, alguns inclusive vindos da Europa, uma teóloga e Raul Bettancourt da Alemanha (eu o conhecia de outros encontros) e o congresso faz um diálogo entre Teologia e Filosofia.  
          Comecei minha fala sobre o Concílio e o caminho ecumênico das Igrejas recordando que hoje é aniversário do falecimento de Dom Helder Camara. Todos o conhecem de nome e o admiram, como uma pessoa viva e que continua a motivar e a propor caminhos novos. 
          À tarde, me entristeceu muito ver um índio Koba dessa região se apresentar como bispo evangélico e dizer que em 1931 o seu povo procurou os missionários cristãos, porque ou se convertiam ou eram massacrados. Os cristãos salvaram suas vidas, mas acabaram com a cultura indígena. Hoje, eles são evangélicos. Os mais velhos têm 50 anos, o que significa que toda a geração dos mais velhos morreram (como???) e os atuais não sabem nada, mas nada mesmo de suas histórias originais, de suas crenças e valores. Nada. E ele está muito agradecido aos missionários.... 
           Uma vergonha!!!

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Conversa, segunda feira, 24 de agosto 2015

          Nessa data, 24 de agosto de 1572, ocorreu a tristemente famosa Noite de São Bartolomeu. Em Paris e outras cidades da França, os católicos se organizaram e massacraram milhares de evangélicos  (huguenotes). Morreram familias inteiras, homens, mulheres e crianças. Pelo crime de serem evangélicos. 
              É terrível saber que alguns dias depois, quando soube da notícia, em Roma, o papa fez um culto de ação de graças - um Te Deum - pela vitória contra os protestantes... 
             Mais lamentável ainda pensar que ainda hoje tem cristãos que continuam com essa visão de uma fé guerreira e cruel com os que pensam diferente. No mundo todo, religiosos se digladiam... Mas, eu sofro mais quando fico sabendo que são cristãos que fazem a perseguição. Quando eles são vítimas, é triste, mas é digno e é como dizia o marechal Rondom nas aldeias indígenas: "Antes morrer do que matar". 
             Para mim, o mais duro é que por trás de tudo isso existe uma teologia e uma espiritualidade que fundamentam essa forma de crer e viver. E é preciso mudar isso. Transformar essa forma desumana de crer para uma espiritualidade ecumênica e amorosa. 

domingo, 23 de agosto de 2015

Meditação bíblica, domingo, 23 de agosto 2015

            Hoje é o domingo após uma semana tumultuada no Brasil. No domingo passado, manifestações contra o governo, lideradas pela direita e pela elite rancorosa do Brasil, embora muita gente foi à rua sem saber muito por que ia. Conversei dois minutos com um motorista de taxi e ele me disse no final: "De fato, nunca tinha pensado no que você está me dizendo". E eu disse simplesmente que o problema maior é do sistema - da ordem política que temos de mudar e não de uma pessoa que seria a Dilma ou outro presidente qualquer. Mostrei que não estou de acordo com Dilma e seu governo em muitos pontos (política agrária, política ecológica, etc), mas justamente nesses pontos, a oposição não toca porque, nisso, faria bem pior do que o governo atual. Na quinta feira, foi surpreendente em todo o Brasil a quantidade de gente que foi à rua contra a tentativa de golpe e para apoiar a democracia, mesmo pessoas e grupos com críticas à presidente. 
          Nessa semana, o primeiro ministro da Grécia teve de se demitir, diante do cinismo cruel da Alemanha e dos bancos europeus que querem reduzir esse país à escravidão. Há uma crise mundial e uma crise das religiões. Na quarta feira, fui a Brasilia para falar na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados sobre a diversidade religiosa. E o pastor Eurico me chamou de radical e me disse que eu defendia os terroristas islâmicos.               
           A celebração do 21o domingo comum do ano B é centrada no evangelho em que, depois de concluir seu discurso em Cafarnaum, Jesus nota que muitos dos seus discípulos voltam atrás e não querem mais segui-lo. E lhe dizem: "Essa palavra (o discurso na sinagoga de Cafarnaum sobre o pão da vida) é muito dura (em grego sklerosis). Quem pode suportar isso? E Jesus lhes diz: Se vocês se escandalizam com isso, como vão enfrentar quando me verem na cruz? Mas, respeita a decisão de cada um e simplesmente pergunta ao círculo mais íntimo, aos doze: "Vocês também querem ir embora?". E Pedro responde em nome de todos: "A quem iremos, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna". É como se ele dissesse: Querer ir embora, até queremos. Mas, para onde? A quem procurar? . Não temos alternativa. Só tu tens palavras de vida eterna. 
          Os exegetas chamam esse momento da vida de Jesus de crise galilaica (porque ocorreu na Galileia). Uma crise não só de conflito com a sociedade dominante e a religião do templo e da sinagoga, mas mesmo uma crise interna no seu grupo. A questão que, hoje, esse evangelho nos coloca é até que ponto a própria Igreja, o próprio clero, o Vaticano e nós mesmos optamos por seguir Jesus como ele é e com sua proposta profética ou tentamos diluir sua profecia com água e açúcar tornando a religião mais palatável? 
            A todo momento, eu mesmo tenho de me colocar essa pergunta fundamental: Eu fico com ele ou fico com a lógica que não é dele e as opções que me acomodam ao mundo?             
         

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Conversa, Quinta feira, 20 de agosto 2015

            Ontem, fui convidado para falar na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados sobre o problema da Diversidade Religiosa no Brasil e a Laicidade do Estado. 
             Ontem, o ambiente de Brasília era de manifestação dos trabalhadores contra as medidas de ajuste fiscal que penalizam os mais pobres. A frente da Câmara estava totalmente tomada por milhares de manifestantes e o tumulto era enorme. Difícil até de entrar. O  auditório número 09 do Anexo da Câmara estava lotado. Além de alguns deputados amigos (Luiz Couto, Jean Wyllys e outros), a maioria me pareceu ser constituída da chamada "bancada evangélica" e para exigir liberdade para a pregação cristã e não tanto atenção a direitos humanos e diversidade.             
                 Em meio à fala de vários pastores, eis a minha palavra: 

Brasília, tarde de 19 de agosto de 2015

Para mim é uma grande honra poder falar aqui nessa Comissão e devo dizer que essa já deve ser a terceira vez que falo nesse auditório. Sempre a serviço dos direitos humanos e da missão que todos nós temos de fortalecer o diálogo e o entendimento entre as diversas tradições espirituais e religiosas. Nesse sentido, quem me conhece sabe que venho aqui como religioso e com o desejo de, como religioso, cumprir uma missão de cidadania e colaborar para um país no qual a justiça exista para todos os cidadãos e as religiões colaborem para que o mundo seja mais amoroso. Desde jovem, é buscando essa meta que trabalho no diálogo com várias Igrejas e outras religiões. Sou feliz em ser cristão de tradição católica, mas Deus me livre de que todo o Brasil fosse católico. Estou convencido de que a diversidade de confissões dentro do Cristianismo, como no âmbito inter-religioso é uma graça divina que nos enriquece a todos.
Tenho consciência de que essa forma de pensar não é da maioria dos cristãos nas diversas Igrejas e nem da maioria dos católicos ou dos seus pastores.
Antes de mim, falou o Dr. Uziel, presidente dos juristas evangélicos e afirmou que o Cristianismo é a religião mais perseguida no mundo e que há muitos Estados que perseguem os cristãos. Penso que a maioria das perseguições religiosas não são cometidas por Estados e sim por outras religiões que, quando se instalam no poder, se servem dos Estados. Por isso, é fundamental o Estado laico e que ajude as religiões a se entenderem. O professor Uziel dizia que o Cristianismo tem sido a religião mais perseguida, mas, de fato, o Cristianismo foi a religião que, em toda a história, mais provocou violência e guerras no mundo.
Há mais de cem anos, em 1910, pastores evangélicos que tinham missão na Ásia se reuniram em Edimburgo na Escócia para falar sobre suas missões. E ali eles se puseram de acordo que “a divisão das Igrejas cristãs é contra a vontade de Cristo, é um contra-testemunho do evangelho e por isso é um obstáculo à missão.” Essa convicção se tornou a base da fundação do Conselho Mundial de Igrejas que a partir de 1948 é uma fraternidade de Igrejas irmãs (evangélicas e ortodoxas) e hoje reúne 349 Igrejas no mundo. A Igreja Católica demorou mais de 50 anos para compreender aquilo que os pastores tinham dito em Edimburgo em 1910. Mas, finalmente, em 1964 retomou essa mesma palavra em um documento do Concílio Vaticano II sobre a relação com as outras Igrejas: o Decreto sobre Ecumenismo[1].
Infelizmente, mesmo depois de tanto tempo, tanto católicos como evangélicos e pentecostais continuam tratando sua fé como se fosse tema de competição comercial entre a Coca Cola e a Pepsi Cola. E muitas Igrejas ainda tentam garantir para si privilégios no lugar de se colocarem a serviço da construção de um mundo mais justo e de paz. Durante séculos, a Igreja Católica perseguiu hereges, condenou quaisquer dissidências como se fossem feitas ao próprio Deus. Infelizmente, hoje, grupos que no passado foram perseguidos em nome da fé e da Bíblia, fazem a mesma coisa com outros grupos religiosos, como as religiões de matriz afrodescendente. Que coisa terrível e triste que da Igreja Católica medieval esses grupos que se afirmam cristãos herdaram o que ela tinha de pior e mais anti-evangélico: a sua desumanidade. Herdaram da velha forma de ser Igreja as cruzadas e inquisições repressivas e odiosas.
O Brasil foi conquistado pelo império português da épica colonial, legitimado por um Catolicismo guerreiro que queria se impor e pregava um Deus intolerante e cruel com quem não estava de acordo com o papa e os bispos católicos. Agora, o nome de Deus continua usado para legitimar atos de racismo, de preconceito cultural e de exclusivismo religioso. Pobre de Deus.
Milhões de negros foram trazidos da África para a América. Foram proibidos de falar os seus idiomas e adorar a Deus de acordo com as suas culturas originais. Suas religiões foram demonizadas e condenadas pela Igreja Católica que os obrigava a serem batizados e a se dizerem cristãos. Depois de séculos dessa iniquidade, praticada em nome de Deus, ainda há cristãos que não reconhecem o direito das comunidades negras adorarem a Deus em suas religiões próprias.  
Se eu tivesse amigos que apresentassem de mim uma imagem como alguns padres e pastores apresentam de Deus, um Deus cruel, violento, arrogante, intolerante e homofóbico, eu os consideraria meus inimigos e não meus amigos. De todo modo, sem dúvida, não é o Deus que Jesus chamava de Abba, Paizinho e dizia que ele faz nascer o sol sobre os bons e os maus e faz chover sobre justos e injustos.
Pastores que fazem muita questão de acusar as religiões negras de idolátricas não percebem que ao usar o nome de Deus para interesses corporativistas do seu grupo religioso, cometem uma idolatria ainda mais perniciosa. Um pastor da Igreja do século VI dizia: não adoram deuses falsos. Adoram o Deus verdadeiro de uma maneira falsa porque o convertem em um ídolo cruel e desumano. 
Aliás, a atitude preconceituosa e exclusivista desses grupos que se dizem cristãos me lembra uma palavra do Dr. Martinho Lutero, iniciador da Reforma Protestante. Ele afirmava: “Deus prefere o insulto e a blasfêmia de quem é justo aos aleluias e ao louvor de quem comete injustiças”. 
Pelo fato da realidade brasileira ser assim, temos um fato estranho. Normalmente, deveriam ser as Igrejas cristãs a pedir ao Estado brasileiro que respeite e zele pela liberdade religiosa de todos e pelo direito de exercerem a sua fé em um país laico e em uma sociedade pluralista. Infelizmente, criamos uma situação na qual é o Estado que deve exigir das Igrejas que sejam mais coerentes com os princípios de sua fé - Deus salva a toda humanidade e de graça – e não porque sejam dessa ou daquela Igreja. É o Estado que deve proteger os direitos dos mais fracos e impedir que terreiros de Candomblé continuem a ser invadidos ou ameaçados e uma criança como Keilane no Rio nunca mais precise ter medo de sair de casa, porque jamais ninguém tentará apedrejá-la por causa de sua fé. Nenhuma mãe de Santo terá mais um infarto, como a Mãe Gilda, teve, em Salvador, ao  ver o seu templo desrespeitado por irmãos que se diziam cristãos.
O Brasil inteiro espera dessa Comissão de Defesa dos Direitos Humanos que assuma essa bandeira da defesa da laicidade do Brasil que não significa ateísmo e nem a redução da fé aos espaços privados de cada indivíduo, mas sim o respeito e a convivência plural em uma sociedade cuja meta seja a paz e a justiça e não a imposição de alguma tradição religiosa. Em 1943, em uma prisão nazista, já condenado à morte pelo próprio Hitler, o pastor evangélico Dietrich Bonhoeffer propôs que os cristãos adotassem como modo de viver a sua fé a convivência com a laicidade e o respeito à diversidade cultural e religiosa. Ele dizia: “Devemos viver em Deus e com Deus, mas como se Deus não existisse”.
Estou convencido de que era uma tradução atual para a palavra de Jesus à mulher samaritana que lhe perguntava qual era a religião correta dos judeus ou dos samaritanos. Onde deveria adorar a Deus, no monte Garizim ou no templo de Jerusalém. Jesus respondeu: “Nem nesse monte, nem em Jerusalém. Vocês adoram quem vocês não conhecem.  Deus é espírito e seus adoradores devem adorá-lo em espírito e em verdade” (Jo 4, 23).
Um rapaz disse a Dom Pedro Casaldáliga:
-       Eu sou ateu.
Pedro retrucou: De que Deus?





[1] - Cf. DECRETO UNITATIS REDINTEGRATIO, CONCILIO VATICANO II, novembro 1964.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Conversa, segunda feira, 17 de agosto 2015

          É preocupante ver a onda de ódio e violência que toma conta do Brasil, mesmo em manifestações aparentemente pacíficas como as que ontem aconteceram em todos os Estados brasileiros e com uma multidão de milhares de pessoas. A preocupação vem da violência simbólica que os meios de comunicação e os partidos de oposição foram capazes de suscitar no meio do povo, principalmente de muita gente simples que mal sabem o que pensar de tudo isso e vão às ruas porque virou moda bater no PT como provocador de todos os males brasileiros. 
          É claro que essa direita raivosa se coloca contra o governo, não pelos muitos erros de Lula e Dilma, erros que se repetem e se aprofundam cada vez mais já que o poder é autista e só escuta o próprio eco de sua voz. A direita não vai às ruas porque o governo não faz reforma agrária, nem porque tem uma política péssima com relação à Ecologia. Nem porque está apertando mais os trabalhadores e aposentados, enquanto deixa muitos milionários quase sem pagar impostos. Ao contrário, eles estão contra o governo pelos poucos acertos que o governo realizou, como diminuir os juros exorbitantes dos bancos (no ano passado) e continuar com as políticas sociais que não são estruturais, mas de todo modo aliviam a vida do povo pobre. 
          O governo está ainda com a ilusão de que superará essa crise procurando empresários e buscando apoio na Rede Globo e em outros inimigos. Continua ignorando solenemente os movimentos sociais e a presidente não tem vergonha de governar na direção contrária a tudo o que tinha prometido na campanha do ano passado. E a única alternativa - articulação dos movimentos sociais e organização das bases críticas em uma proposta mais libertadora, ainda não parece possível. A Reforma Política nunca andará com esse congresso. Vamos ter de lutar muito e muito ainda. ..