domingo, 26 de julho de 2015

Meditação bíblica, domingo, 26 de julho 2015

             A partir desse domingo, por vários domingos, a liturgia latina interrompe a leitura semanal do evangelho de Marcos e incorpora o capítulo 6 do evangelho de João. Começa com o texto de hoje que conta a história que Jesus teria repartido comida no deserto para uma multidão... O texto é contado por todos os quatro evangelistas, cada um com seu jeito e alguns contaram até duas vezes. Por que tantas narrativas do mesmo fato? Por que a partilha é o projeto fundamental de Jesus? Por que ele retoma a tradição do deserto e dá um novo maná. A Igreja e mesmo o evangelho de João associou esse texto com a eucaristia, mas acho incrível que espiritualizam o texto para ele lembrar a eucaristia, no lugar de compreender que a eucaristia tem de ser principalmente e antes de tudo partilha - como nesse texto está claro... 
                Por muito tempo, se acreditava que se tratava de uma "multiplicação" mágica de pães e peixes. Nos anos 80, a exegese mais engajada nos ajudou a compreender que nenhum texto usa o termo multiplicação e de fato tudo aponta em outra direção. Primeiramente, Jesus envolve os discípulos. Não é um ação isolada. Em segundo lugar, é quando um deles diz: "Aí tem um rapaz que tem cinco pães e dois peixes. Mas, o que é isso para tanta gente?" Jesus que tinha rejeitado a proposta de comprar - do comércio - diz imediatamente: repartam... E ao repartir aquilo que parecia muito pouco deu para todo mundo e ainda sobrou... 
               O problema é que até hoje na vida, muitas vezes, a gente acha que tem tão pouco que não adianta colocar em comum. É importante crer que vale a pena e colocar os cinco pães e dois peixes que temos e que somos à disposição de Jesus e de todos. Aí o milagre se faz. 


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Conversa, sexta feira, 24 de julho 2015

            Durante dois dias, participei do encontro nacional da Rede Celebra de animação litúrgica que completa no Brasil seus 20 anos de atividade. E tudo começou por uma carta que, em 1995, enviei a alguns assessores propondo fazermos uma articulação que devolvesse às comunidades a capacidade de celebrar de modo profundo e, ao mesmo tempo, livre e a partir da realidade da vida e das lutas do povo. Uma equipe, a mesma que tinha feito comigo o Ofício Divino das Comunidades, se entusiasmou com essa tarefa e assumiu isso até melhor e mais do que eu. 
          Agora 20 anos depois, com escolas de formação litúrgica popular espalhadas por todo o Brasil, a Rede Celebra se reúne em Brasilia. Quase 90 pessoas, a maioria leigas e muitos jovens. Participei ontem e hoje do mutirão de fazer a memória desses anos e não pude ficar para participar do planejamento para daqui adiante. Mas, o clima é bom e nos anima a prosseguir o caminho. 

terça-feira, 21 de julho de 2015

Conversa, terça feira, 21 de julho 2015

               Hoje em Paris, intelectuais de vários países fazem o que estão chamando de "Cúpula das Consciências". O convite foi feito a partir de uma pergunta: "Por que se importar???". E o tema é o compromisso de toda a humanidade com as mudanças climáticas. Esse encontro de hoje é preparatório ao encontro das pessoas sem poder durante a Cúpula da ONU sobre mudanças climáticas que acontecerá em dezembro desse ano em Paris. 
                 Acho importante o fato de que nessa luta se ressalte a mudança de consciência. Sem essa transformação interior de cada ser humano, dificilmente se conseguirá transformar a sociedade para um estilo de vida mais sustentável. Não gosto do pessoal que diz "mudando o interior de cada um se muda o mundo" porque, infelizmente, não é verdade. O mundo atual tem estruturas (o sistema) que vão além das pessoas. São Paulo dizia na carta aos romanos: "Eu não faço o bem que eu quero. Faço o mal que eu não quero. E se mesmo sem querer, eu faço o mal, já não sou eu que o faço. É o mal que habita em mim" (Rm 7). É o que os evangelhos dizem ao chamar Jesus de "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo", isso é, a iniquidade de um sistema que vai além das pessoas. Mas, é claro que as pessoas são fundamentais e há uma dialética nisso. Não se pode separar. Pessoalmente, eu participo de um grupo de pesquisa e reflexão sobre o novo paradigma ecológico e as mudanças que esse paradigma traz para o mundo. E nesse grupo de pensadores e assessores de movimentos sociais, talvez eu seja o único sem nenhuma especialização em Sociologia ou Ciências Sociais e que participa do grupo tentando aprofundar o que chamamos de "espiritualidade ecológica" que é justamente essa cultura nova (ou a mais antiga de todas) de uma relação de comunhão entre o ser humano e a natureza. 
                

sábado, 18 de julho de 2015

Meditação bíblica para o domingo, 19 de julho 2015

             O evangelho lido nas comunidades nesse 16o domingo do tempo comum (ano B) se liga com a passagem proclamada no domingo passado. Jesus tinha enviado os seus discípulos e discípulas dois a dois.... (Mc 6, 7- 13). Agora nesse domingo, o evangelho de Marcos mostra que eles (e elas) voltam da missão e contam a Jesus o que viram, ouviram e o que fizeram nas aldeias da Galileia por onde foram dois a dois (Marcos 6, 30 - 34). 
               Jesus lhes propõe irem juntos a um lugar deserto para refazerem as forças. Mas, Jesus fracassou em seu projeto de fazer um retiro com os apóstolos. O povo pobre correu das aldeias antes deles e quando chegaram do outro lado do lago da Galileia, já encontraram a multidão. E o evangelho conclui dizendo: Ao ver aquele povão, Jesus fica profundamente comovido. O termo grego usado fala que suas entranhas se mexem de um amor uterino - amor que uma mãe tem pelo filho que está no útero - e continua o evangelho porque eles (o povo) eram como "ovelhas sem pastor". 
              Depois de anos nos quais o que caraterizou a Igreja foi sua organização sacramental e sua estrutura jurídica, temos um papa que dá sinal e fala de que o que deve marcar a Igreja é a pastoralidade, isso é, a capacidade e o jeito de ser pastor. Esse jeito de Jesus, esse amor maternal que se solidariza com quem precisa. 
             Essa compaixão divina se manifestou com as pessoas - gente doente que vinha pedir cura, gente triste que vinha pedir consolo - gente perdida que vinha pedir orientação - mas, Jesus também se compadeceu do povo como povo - coletivo - e se solidarizou com a multidão dos marginalizados. Tomou partido pelos pequenos, como nós e toda a Igreja, somos chamados a fazer. 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Conversa, sexta feira, 17 de julho de 2015

         Acabo de chegar de um bairro bem popular (UR 7 na Várzea), onde, junto com irmãos e irmãs de várias tradições espirituais, participei de uma reunião extraordinária do Fórum Diálogos para a Diversidade Religiosa, organismo do Ministério Público de Pernambuco. Fizemos essa reunião especial e em um bairro de periferia para nos solidarizarmos e levarmos nosso apoio fraterno a uma casa de Candomblé que sofreu um ataque (jogaram na porta uma bomba de fabricação caseira) de crentes pentecostais fundamentalistas. E o babalorixá foi ameaçado de morte. 
            Chegamos pelas duas da tarde. Éramos umas 15 pessoas, sendo duas da Polícia Militar de Pernambuco, uma pastora anglicana, uma budista, dois representantes de outras casas de Candomblé, uma professora da Rede Pública responsável pelo ensino religioso não confessional e alguns jovens. O encontro foi principalmente o momento de escutar o desabafo e a narrativa do pai de santo sobre o que está sofrendo na casa, que é uma casa pobre de bairro, sede de um Candomblé. 
               Saí de lá às 17 horas, contente por ter dado esse sinal do amor divino aos irmãos de outra tradição espiritual, mas triste, antes de tudo, por ser o único padre católico que foi para esse encontro, e em segundo lugar, porque a ideia que aquelas pessoas de Candomblé estão recebendo do evangelho é muito negativa. Eles dizem que os tais crentes que os acusam gritam no meio da rua que o Deus da Bíblia é vingativo contra seus inimigos e que quem adora os demônios deve ser perseguido... 
                  Sugeri que cada pessoa ali presente representante de uma Igreja ou religião peça ao líder de sua comunidade religiosa que escreva e publique uma carta condenando qualquer perseguição a outras religiões e em nome de Deus. E peça que as pessoas de boa vontade se solidarizem com todos/as os/as que sofrem pela sua fé. 



quinta-feira, 16 de julho de 2015

Conversa, quinta feira, 16 de julho 2015

         Hoje, na tradição católica, é festa de Nossa Senhora do Carmo e como ela é padroeira da cidade do Recife, aqui onde moro é feriado e festa na Igreja do Carmo. 
        Como ocorre, frequentemente, em julho, por todo o litoral do Nordeste, as chuvas não foram avisadas de que, hoje, é dia de festa e os católicos desejariam fazer uma procissão pelas ruas centrais da cidade. Na minha fantasia suspeito de que lá no céu, Deus Pai chamou o Filho e o Espírito Santo e conversou com eles:
       - Eu não tenho como convencer os católicos de que eles não são mais donos da cidade. 
         Já que se trata de uma Igreja Cristã, Jesus tomou as dores e tentou argumentar a favor do pessoal:
        - O que vale, meu Pai, é o espírito. Olhe a fé e a piedade com que as pessoas simples pagam promessas e rezam nessa festa... E sabem, chegam a dar do que não têm e perdem até emprego para seguir a procissão. Como vamos dizer a eles que a nós esse tipo de culto não agrada e a nós isso tudo parece meio inútil?
          O Espírito Santo interveio:
          - O povo pobre, até eu consigo chegar, entrar e eles entram em transe diante do altar de Nossa Senhora do Carmo, como os fieis do Candomblé entrariam diante de Oxum. E se deixam mover pelo amor. A eles, eu até consigo inspirar e renovar.... mesmo com todo o aparato pesado das celebrações que eu não sei quem inventou. Acho que do nosso lado, não estava... 
        O Pai ajudou a clarear:
        - Esse tipo de missa solene barroca usa as palavras e textos da liturgia renovada pelo Concílio Vaticano II que você, Espírito Santo, inspirou. No entanto, seguem a liturgia do Concílio por puro legalismo e seguem a letra, mas não o seu espírito. Pegam textos e gestos, mas fazem isso sem abrir mão das pompas medievais e do clericanismo instalado na Igreja na época em que ela se via mais como corte de faraós ou imperadores romanos do que como uma comunidade igualitária de discípulos e discípulas de Jesus. E muitos dos padres, bispos e agentes de pastoral nem percebem essa contradição entre as palavras que seriam expressões de amor, doação e serviço e os gestos que eles adoram de antigas cortes imperiais. O que fazer? 
      O Espírito respondeu:
     - Não tenho a menor ideia. Como vocês sabem, depois de muito tempo, lá em Roma, o bispo começou a me acolher e se deixar impulsionar pelo que eu posso lhe soprar. Mas, ele está pagando por isso um preço muito alto e só pode ir até certo ponto... Por mais que a gente tente, a maioria dos bispos e padres católicos só prestam atenção a papa quando ele é reacionário. Quando ele é a favor do povo pobre e defende uma Igreja servidora dos movimentos sociais, ignoram totalmente o que ele diz. 
      Jesus que já se dava por vencido tentou ainda conciliar:
      - Mas, justamente, uma festa assim popular é do gosto do povo pobre e por isso tem de ser do gosto do meu Pai e nós temos que aceitar, mesmo que seja como dar um pente de presente para quem é careca... 
      O Pai todo amor respondeu:
      - É verdade. Eu não tenho dificuldade com as devoções populares, mesmo se elas são medievais e são cheias de sincretismo. Pouco importa. O problema maior é com os pastores... 
       O Espírito se dispôs  a ajudar:
      - Tudo bem. Vou me encher de sua paciência amorosa e vou tentar soprar de novo para padres e agentes de pastoral. O que devo ajudá-los a descobrir?
      Então, com um sorriso de ternura, o Pai desabafou:
     - Lembre a essa gente boa que as procissões eram feitas na época em que a Igreja queria demonstrar ao mundo o seu poder e seu prestígio. Diga que eu não quero que eles usem meu nome para parar o trânsito do centro nervoso da cidade, sair nas ruas junto com a banda da Polícia Militar (a mesma que nas periferias é vista como responsável por muitas violências injustas) e reunir autoridades que nesse dia são sempre muito piedosas e até se oferecem para carregar o andor da santa, se os padres deixarem.
        Jesus aproveitou a dica e continuou:
        - Diga a eles que minha mãe sempre foi e quis ser uma camponesa pobre da Galileia e nunca foi rainha de nada. Por favor, não a coroem, como se isso fosse honrá-la e fazê-la feliz... 
        O Pai riu e completou:
       - Certo. Se puder, até lembre a eles que essas imagens que eles usam na festa e na procissão vem de modelos do século XV e XVI que eram senhoras das cortesãs das monarquias europeias e depois que serviam de modelo para a Virgem Maria iam tiranizar suas escravas estrangeiras ou plebeias. 
          Jesus que, como sempre, olha as coisas pelo lado mais positivo, reagiu:
        - Mas, vejam. Se vocês dizem isso, vão acabar com a devoção a Nossa Senhora do Carmo com seu escapulário e o costume do pessoal usar um pedacinho da roupa de monja que ela usa... 
         O Espírito tentou conciliar:
      - Não. Nossa Senhora do Carmo é uma devoção nascida a partir do monte Carmelo e de uma ordem de eremitas pobres e que não tem nada a ver com o fausto das basílicas de hoje. Quem sabe se a gente ajuda os devotos do Carmo a retomarem uma devoção que vê Maria como profetiza na mesma linha do profeta Elias, o primeiro que viveu no Monte Carmelo. 
           Jesus pensou que era coisa demais para dizer, para corrigir e para pedir de mudanças. Dificilmente, mesmo o Espírito Santo iria conseguir. Mesmo assim, reiterou:
          - Se puder, encontre um jeito de revelar para os padres e religiosos/as que esses cultos de massa e esses cânticos barrocos acabam celebrando mais a glória dos eclesiásticos do que a mim e à minha mãe. Recorde a eles a minha palavra: "O Pai é espírito e verdade e seus adoradores devem adorá-los em espírito e verdade". 
          O Espírito Santo voou para Recife e o Pai sorriu para Jesus:
          - Mesmo assim, nós os amamos e neles e nelas fazemos nossa morada. 


    

Artigo semanal, quarta feira, 16 de julho de 2015

A Cruz, entre a parada gay e a Igreja


Na recente Parada Gay de São Paulo, no domingo 07 de junho, a atriz Viviane Bebeloni, transexual, desfilou presa a uma cruz. Ela afirmou que fazia isso como forma de protesto pelo que a população GLBT sofre de preconceitos e exclusão social. Desde que isso aconteceu, o assunto tem sido comentado nos meios de comunicação e por pessoas  de alguns segmentos religiosos. Uma nota assinada por bispos católicos de São Paulo condena o fato e protesta veementemente. Chega a pedir que a autoridade pública intervenha contra esse tipo de evento. Segundo eles, a parada gay teria desrespeitado a religião católica, ao usar o seu símbolo mais importante: a cruz. No dia seguinte, independente da nota dos bispos, circulavam pela internet ameaças de morte à atriz. Chegaram a divulgar a imagem de um travesti morto e de braços abertos como em cruz, afirmando ser Viviane e que aquilo teria sido castigo de Deus. É pena que ainda haja cristãos que possam pensar tal coisa de um Deus que é só amor e misericórdia. De fato, a tal fotografia espalhada na rede era de um travesti cearense, encontrado morto em abril de 2014. Viviane tem sido ameaçada de morte por telefone, mas está viva.
Na própria Igreja, mesmo sem vir a público, outros ministros e a maioria dos agentes das pastorais sociais pensam diferentemente. O padre Júlio Lancellotti, que trabalha com os sofredores de rua em São Paulo, declarou que ficou emocionado, ao ver pela televisão, a cena da atriz pregada na cruz. Ele viu ali o próprio Cristo crucificado. Outros lamentaram ironicamente que os bispos que assinaram a nota tenham esquecido de pedir a assinatura de políticos e pastores neopentecostais conhecidos por suas posições rancorosas e fundamentalistas, já que defendem o mesmo tipo de pensamento e postura. 
A justiça exige, ao menos, o direito de defesa a quem é acusado, antes de condená-lo sem escutar. De fato, a atriz em questão, declarou na televisão que se prendeu a uma cruz “para representar a dor e a humilhação que os homossexuais e população LGBT sofrem todos os dias” (declaração na internet e na TV Bee). Espiritualmente,  quando um fato pode ter ao menos duas interpretações (uma favorável e outra negativa), um cristão deveria sempre optar pela mais ecumênica e amorosa.
Sem dúvida, os bispos que assinaram a nota querem defender a fé cristã e os símbolos do Cristianismo. Apesar das aparências, certamente eles não se sentem donos dos símbolos sagrados da fé. Sabem que a Cruz é símbolo de todo o Cristianismo. Em São Paulo, ortodoxos e cristãos de Igrejas evangélicas históricas, todos usam a cruz. No entanto, sabem que um símbolo da fé não é grife ou marca comercial patenteada por alguma empresa. Se fosse assim, em breve, qualquer pessoa para usar uma cruz no pescoço teria de pedir permissão ao bispo.  
É importante não esquecer que, antes de ser um símbolo cristão, a cruz foi um instrumento de terrorismo político do Império Romano. Antes e depois de Jesus muitos milhares de pessoas foram torturadas por meio da cruz. E até hoje, em alguns lugares do mundo, o chamado pau de arara, instrumento de tortura usado pelos órgãos de repressão da ditadura militar brasileira, é uma espécie de cruz.  Não podemos esquecer esse fato, sob pena de passar a ideia de que só Jesus morreu na cruz, quando de fato ele foi morto como muitos outros que ousaram enfrentar o império. Império que hoje mostra seu poder aterrorizante de vários modos no mundo, contra os migrantes pobres e nas ameaças contra a pobre Grécia.
Os bispos que assinaram a nota contra o uso da cruz na parada gay são pastores esclarecidos. O povo de Deus tem direito de esperar deles que não ajam por preconceito contra transexuais e nem por homofobia. Ainda há pessoas de fé e mesmo bispos que, infelizmente, separam o sagrado do profano. Assim, se escandalizam pelo fato de um transexual ter se identificado com Jesus na cruz para expressar a opressão que sofre todos os dias. Nesses dias, cristãos tradicionais criticaram o fato de que, na Bolívia, o presidente Evo Morales tenha presenteado o papa com um crucifixo, cuja cruz é formada por uma foice e uma enxada. Viram nesse fato uma politização da cruz. No entanto, não sentiam nenhum desrespeito à cruz quando generais da ditadura militar usavam a cruz em suas cerimônias de posse. Até pouco tempo, salas de tribunal e o Congresso Nacional tinham uma cruz na parede. Será que Jesus não se sente mais ofendido com certos julgamentos que temos presenciado no Judiciário brasileiro ou com um Congresso que legisla tantas vezes contra os pobres do que com um transexual que tenta chamar atenção para a sua dor? E a cruz continua pregada nas paredes de bancos que ganham 400% de lucro ao ano e exploram de várias formas os pobres.

Esse tipo de conflito nos faz compreender melhor porque Jesus foi condenado pelo pretório (poder político) e pelo sinédrio (poder religioso do seu tempo). Conforme os evangelhos, ele foi acusado de “blasfemar contra o templo”. O templo era o símbolo mais importante do Judaísmo da época e ele o desrespeitou. Ele afirmou: “Podem destruir esse templo e eu o reedificarei em três dias” O evangelho diz que “ele falava, não da construção de pedra, mas do templo do seu corpo” (João 2, 13 – 21). Sem dúvida, esses bispos são discípulos de Jesus e devem concordar com ele que, de fato, o transexual em questão, é como pessoa, um símbolo muito mais sagrado para a Igreja do que a cruz.