sábado, 22 de novembro de 2014

Meditação bíblica para o domingo, 23 de novembro 2014


Hoje é o último domingo desse ano litúrgico. (No próximo domingo, já começaremos o 1o domingo do Advento do ano litúrgico de 2015). E desde a reforma litúrgica feita depois do Concílio, a Igreja Católica dedica esse último domingo do ano à festa de Cristo Rei. Essa festa foi criada pelo papa Pio XI em 1925, portanto é recente. Nem tem cem anos. E foi criada em um contexto no qual depois de ter perdido os territórios do reino pontifício (na época de Pio IX  e da unificação da Itália), o papa Pio XI fazia com o Estado italiano o acordo que lhe deu direito de ter o Vaticano como estado soberano. (reino simbólico). E como sempre, o jeito de reafirmar o poder da Igreja e o seu direito a dominar o mundo é falar do reino de Cristo. 
Eu esperava que a reforma litúrgica do Concílio abolisse essa festa ou mudasse totalmente essa linguagem. Isso não aconteceu. De todo modo, os textos bíblicos da liturgia falam de Deus como pastor - isso é aquele que toma conta das ovelhas e conduz o rebanho para onde tem pasto (comida abundante) e vida. Ter Deus como alguém que nos conduz - eu estou mantendo aqui a linguagem tradicional de Deus como pessoa, mas podemos pensar concretamente que ele se manifesta como energia amorosa dentro de nós. E aí sim, tem sentido dar graças a Deus pelo fato de que podemos ser movidos por essa energia e por crer (ter confiança) de que ela toma conta de nossas vidas. O evangelho lido nas celebrações desse domingo é Mateus 25, 31 a 46 que comumente é conhecido como parábola do juízo final. Transcrevo aqui o que sobre ela escrevi no livro "Conversa com Mateus": 

– A perspectiva do encontro é para hoje (Mt 25, 31- 46).

Parece que a comunidade de Mateus é teimosa. Muitos continuavam perguntando: “Quando acontecerá a vinda do Senhor?”. Mateus conta uma parábola diferente de todas as outras. Uma parábola que é uma espécie de visão futura da vinda do Filho do Homem. É futura e até a tradição cristã a chama de “juízo final”. Mas, de fato, o que, nessa história, o Filho do Homem vai dizer aos eleitos é que não adianta a pessoa esperar aquele dia final para encontrá-lo. Ou reconhecemos que ele estava do nosso lado, cada vez que encontramos uma pessoa necessitada, ou não seremos no último dia reconhecidos por ele. Portanto: a data do julgamento e da vinda do Filho do Homem é hoje. Temos um encontro com o Filho do Homem cada vez que passarmos por perto de uma pessoa que precise de nós. O decisivo vai ser o encontro banal de cada momento.
“O texto de Mateus 25 que descreve o juízo final é desconcertante e questionador, pois identifica Jesus com os pobres e convoca a reconhecer o rosto de Jesus no rosto dos pobres. (...) Essa passagem do evangelho é fundamental para compreendermos a relação de Jesus com os pobres e, consequentemente, a relação dos seguidores de Jesus, com os pobres. (...) Todo gesto em direção ao outro, de aproximação aos mais pobres, decide a proximidade ou a distância que a pessoa em questão tem de Deus”[1].
O quinto discurso de Jesus em Mateus se conclui com uma parábola sobre o julgamento de Deus. Este julgamento divino atinge a todas as nações (ethné). “Todas as nações serão reunidas diante dele”. É um julgamento universal. Abrange a todos os seres humanos, independente de religião e de cultura. “Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas das cabras”. 
É uma imagem comum no estilo de vida da época palestina, portanto da época de Jesus e talvez ainda na região da Síria da comunidade de Mateus: o rebanho era misturado de ovelhas e cabras.  Para nós, hoje, é uma linguagem estranha e inadequada porque compara as pessoas com ovelhas ou cabritos, mas é um jeito de falar comum nos apocalipses judaicos daquela época. 
O julgamento é um discernimento e separa as ovelhas das cabras. Conforme o mesmo evangelho, João Batista tinha dito que ele separará o trigo e a palha (Mt 3, 12). Jesus tinha dito que, no final dos tempos, Deus separará o trigo do joio (13, 24- 30) e ainda os tipos de peixes diferentes que vêm na rede (13, 47- 50). Este discernimento ou separação vai determinar a sorte de uns e de outros.
A primeira instrução de Jesus chama os pobres e sofredores de “bem-aventurados, ou felizes” (ou “prá frente”). Agora os chama de benditos. Na primeira palavra do discurso da montanha, eram proclamados “felizes” os pobres e pequeninos. Agora, são proclamados “benditos” os que socorreram os pequeninos em nome do Senhor. Há uma profunda ligação entre os dois discursos: o primeiro das bem-aventuranças e esse da bênção da vida eterna. É importante perceber que, por duas vezes, o texto se referirá aos bem-aventurados ou benditos como justos (Cf. os versos 37 e 46). Então, o fundamental não é se as pessoas são religiosas ou não e sim se são justas e fazedoras da justiça. Trata-se da justiça do reino (Mt 6, 33), justiça que o primeiro testamento ligava ao amor solidário e uterino de Deus.
Seremos julgados pelo amor que, cada dia, dedicamos aos irmãos e irmãs.  Kabir, místico muçulmano da Idade Média, afirmava: “Quem é a pessoa santa?  Toda pessoa que tem consciência do sofrimento dos outros seres humanos e com eles se solidariza”. No século XX, o rabino Abraam Heschell escreveu: "Cada judeu ou judia que vive a sua fé é arquiteto de mundos ocultos. Cada pessoa piedosa é, em parte, o Messias”.
O evangelho de Mateus herda a linguagem dos apocalipses judaicos quando fala em castigo eterno e vida eterna. Se os dois termos se opõem, o castigo é simplesmente o não viver plenamente. No 2o livro de Macabeus, se diz: “Para ti não haverá ressurreição para a vida” (2 Mc 7, 14)[2].  
A comunidade dos discípulos que no discurso sobre a Igreja (cap. 18) foi chamada a acolher em seu meio os pequeninos, agora é julgada pela solidariedade concreta para com este pequenino. A Igreja é chamada a ser uma comunidade unida, mas deve viver para fora de si mesma. Suas preocupações não podem ser apenas internas, com sua própria estrutura. Sua missão é testemunhar a vinda do reino e organizar a caridade solidária para com todos. 
 Dom Oscar Romero, bispo salvadorenho assassinado em 1980, afirmava: “Existe um critério para saber se Deus está próximo ou distante de nós. Toda pessoa que se preocupa com a fome, a nudez do pobre, do desaparecido, do torturado, do prisioneiro, de todos os que sofrem, está próximo de Deus”[3].   
Um místico norte-americano de uma Igreja evangélica escreveu: “Por que deveria eu desejar a visão de Deus mais do que tenho no dia de hoje? Vejo algo de Deus a cada hora das vinte e quatro e a cada momento. Vejo Deus no rosto dos homens e mulheres que encontro, e em meu próprio rosto no espelho. Encontro cartas de Deus caídas nas ruas e cada uma delas tem a assinatura do nome de Deus” (Walt Whitman-  quacker - século XIX)


[1] - VERA IVANISE BOMBONATO, Jesus e a opção pelos pobres, in PEDRO RIBEIRO DE OLIVEIRA, organizador, Opção pelos pobres no século XXI, São Paulo, Paulinas, 2011, p. 141.
[2] -  Esse parágrafo foi praticamente transcrito do comentário de SANDRO GALAZZI, Mateus, (uma leitura a partir dos pequenos), Comentário Bíblico Latino-americano, Novo Testamento, São Paulo, Fonte Editora, 2012,  no comentário ao cap. 25 do evangelho (no texto impresso e colhido na internet p. 289).
[3] - DOM OSCAR ROMERO, Discurso de 5 de fevereiro de 1978, citado por VERA IVANISE BOMBONATO, idem, p. 142.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Conversa, quinta feira, 20 de novembro 2014


   É muito difícil a gente ver uma pessoa amiga se autodepreciando, se punindo a si mesma por algo que não adianta punir-se e não se poder fazer nada. 
     De todo modo, por mais que eu seja obrigado a respeitar os limites e neuroses do outro, não posso deixar a pessoa se destruir. E existem situações na vida que parecem paralisias. A pessoa não parece ter condições de se mover. E a impressão é de que nada dá certo, como se não existissem alternativas. E isso é contagioso. Se não tomarmos cuidado, esse negativismo agarra como uma meleca no nosso ser e nos puxa para baixo. 
   Há muito tempo, eu vi na minha família uma situação bem semelhante. A casa dos avós era um aglomerado de filhas descasadas, netos para criar e pessoas que não cresceram o suficiente para se tornar autônomas. Economicamente, tudo pesava nas costas de uma só e que era pobre. Tentei ajudar. Parecia-me que a melhor sugestão era tirar o casal de avós daquela situação que os adoecia. Mas, eles mesmos reagiam explicando que isso era impossível por isso e por aquilo. Então, eu propunha dividir a casa em duas - Impossível também. Nada dava certo. Nenhuma alternativa era possível. Um dia, o velho morreu e pouco tempo depois ela seguiu. Em quinze dias, a casa foi esvaziada, todas as pessoas encontraram outro lugar e tudo se resolveu... Foi preciso o pai e a mãe morrerem para a família se reequilibrar. Que coisa terrível! 
Será que a fé não ajudaria a pessoa a se comprometer consigo mesma em não se deixar estacionar e permanecer acomodada em si mesma e em situações assim, como um carro enterrado na lama? Como ajudar a ver que mesmo se toda solução tiver seus limites, é melhor errar tentando e procurando o novo do que não buscar mais nada. 
E como desentupir o espírito de alguém para o diálogo, quando a pessoa não se propõe a isso? 
Hoje celebramos a luta pela libertação do povo negro. Peço a Deus que nos dê sempre a força de nos libertarmos de nós mesmos e de nossos próprios condicionamentos. 



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Artigo semanal, quarta feira, 19 de novembro 2014

Desafios do Brasil negro


    Conforme as estatísticas, depois da Nigéria, o Brasil é o país que tem a mais numerosa população afro-descendente do mundo. É mais negro do que muitos países africanos. No Brasil, a população afro-descendente chega a ser quase 60% dos brasileiros, mas continua a ter menos acesso do que os brancos às universidades, aos trabalhos liberais e à plena participação na cidadania social. Basta lembrar que, nos últimos 30 anos, o Brasil registrou mais de dois milhões e meio de mortes por causas externas, sendo que 82% eram homens e destes mais de 60% negros ou afro-descendentes. Conforme a ONU, na Bahia, onde mais de 80% da população é negra, para cada assassinato de um rapaz branco entre 15 e 30 anos, são assassinados 21 jovens negros na mesma faixa etária.
No Brasil, qualquer expressão de racismo é considerada crime grave e imprescritível. No entanto, ainda temos um longo caminho a percorrer para retirar da memória cultural dos brasileiros o preconceito e a discriminação racial, heranças da escravidão, abolida oficialmente, mas, na prática, mantida em relações de trabalho injustas e em uma estratificação social rígida e impiedosa.
Há mais de 30 anos, o presidente da República instituiu o 20 de novembro, aniversário do martírio de Zumbi dos Palmares, como “dia nacional da união e consciência negra”. Atualmente, esse dia é feriado em mais de mil municípios brasileiros. Em muitos outros, embora não o seja ainda, toda essa semana é coroada com eventos sobre a imensa contribuição das raças negras na história e na construção das culturas formadoras do Brasil.
A Fundação Cultural Palmares e o governo federal têm feito esforços para mudar essa situação. O governo criou a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República que ocupa um nível de ministério. Desde 2003, o Programa Brasil Quilombola (decreto 4.887/03) monitora e estimula, por meio de articulações setoriais e interinstitucionais, as ações governamentais para o desenvolvimento sustentável das comunidades remanescentes de Quilombos, assim como de outros segmentos minoritários da população ou comunidades tradicionais e de cultura originária. A Constituição de 1988 garantia o direito das comunidades negras e remanescentes de quilombos à posse de suas terras ancestrais e à manutenção de sua cultura própria. Entretanto, ainda faltam leis complementares para por em prática à Constituição e essa, quando não favorece à elite, é facilmente esquecida. 
De acordo com a noção vigente, quilombos são áreas habitadas por negros, descendentes de escravos fugidos da escravidão e que continuam ainda hoje a manter costumes e modo de viver próprios à sua cultura. Essas comunidades, assim tradicionais, existem e devem ser protegidas e fortalecidas. Conforme os dados oficiais, atualmente, no Brasil, existem mais de 3.000 comunidades quilombolas reconhecidas e com documentos oficiais. Esses quilombos espalham-se por quase todos os estados do país e são símbolos da resistência dos pequenos. Servem de modelos como comunidades verdadeiramente solidárias. É importante que se reconheça: o mais importante não é a estrutura material e sim o espírito quilombola. Deve ser reconhecido como quilombo toda comunidade, constituída por negros, brancos e índios que vive práticas de resistências e experiências comunitárias. Se uma comunidade pobre, formada em sua maioria por negros e mulatos, constrói uma trajetória de libertação para a população em situação de risco social e sem segurança econômica, deve ser reconhecida como quilombo.
Conforme o “Índice Global da Escravidão”, divulgado nessa segunda feira, 17 de novembro, pela organização Walk Free Foundation, de Londres, ainda temos no mundo atual 35, 8 milhões de pessoas escravizadas ou que vivem em condições semelhantes à escravidão. No Brasil, ainda se calculam em 150 mil as pessoas que vivem nessa situação. Conforme a mesma instituição internacional, ligada à ONU, no mercado atual, o preço médio de um escravo caiu para 90 dólares. Por esse dinheiro, uma pessoa perde sua liberdade individual e os seus direitos de pessoa humana digna e inviolável. 
Todos nós, brasileiros, temos responsabilidade social, junto com o governo, de trabalharmos por um país mais igualitário e justo. Ainda hoje, a cada dia, acontecem expressões de racismo e de discriminação social, principalmente contra as formas de culto e religiões de matriz afrodescendente. A manutenção das religiões ancestrais e de expressões culturais negras, mantidas vivas de geração em geração, têm sido instrumentos importantes para a unidade dessas comunidades e para garantir uma mais profunda consciência da dignidade dos seus membros.
Para os cristãos, um valor central que a Bíblia aponta é a consciência da cidadania de todos os seres humanos, como filhos e filhas de Deus e cidadãos do seu reino. Em nome de Deus e da Bíblia, ninguém deveria discriminar outras comunidades religiosas. Para os cristãos da primeira geração, o apóstolo Paulo escreveu: “É para que sejamos livres que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1. 13). “Onde está o Espírito de Deus, aí tem de haver liberdade” (2 Cor 3, 17).


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Conversa, segunda feira, 17 de novembro 2014

            Aeroporto internacional de Los Angeles. Oito horas da manhã. Para não cair no engarrafamento gigante que aqui é pior do que qualquer cidade brasileira, o meu amigo, o reverendo Fred Morris me trouxe para cá muito cedo. Tivemos de sair de casa às cinco da madrugada. Cheguei aqui antes das seis da manhã. Meu voo que seria às 10, 30 h foi cancelado. A American Air Lynes não avisou e simplesmente sem dizer nada me colocou no próximo: às 15 horas. Como iria participar de uma festa no Candomblé em Salvador pela saída da obrigação de sete anos do meu irmão e amigo Robson, marquei essa viagem voltando por Salvador. Resultado: no Candomblé anteciparam a festa e de qualquer modo vou perdê-la. E quando soube disso, não pude mais alterar o bilhete sem pagar uma multa pesada. E para ir de Los Angeles a Salvador, a companhia me obriga a ir por Miami. Um voo de um dia inteiro. E ainda por cima suspendem o voo e me fazem ficar aqui das seis da manhã até às 15 horas. Como não há  o que fazer, o melhor é relaxar e viver... 
         É difícil fazer uma avaliação dessa semana aqui em Los Angeles. Foi a primeira vez que vim aqui. Nos EUA, conhecia Chicago, Nova York, Orlando e Miami, além da região do Vermont onde fica o mosteiro de Weston, no nordeste do país. 
            Los Angeles é imensa. Mais de três milhões de habitantes. Uma cidade construída em meio a um deserto. Canyons, colinas, planícies, tudo muito seco. Há três anos não chove. Desiguadade social imensa. Aqui vi os homeless, cada um com seu carrinho de supermercado (me disseram que a maioria é roubado) e onde eles têm praticamente sua casa. Da cidade, propriamente, vi pouca coisa. Andei muito de carro. Quando não se anda a pé, não se conhece. Não fui muito ao centro. Uma única vez e rápida, passamos por Hollywood: Calçada da Fama, o Teatro Chinês ou não sei qual o seu nome onde, a cada ano, se realiza a festa do Óscar. E um breve passeio de carro pelas colinas em torno para ver (de fora, é claro) as casas de gente famosa. Aqui mora Jack Nicolson, ali é a casa de Tom Cruise, etc... Não gostei. Não porque o ambiente seja feio, mas porque achei tudo muito artificial. E imaginei o que é a vida de duas, três ou quatro pessoas naqueles palácios imensos e isolados por segurança... E a multidão de gente (babaca???) admirando e esperando a consolação de poder dizer: vi fulano, ou vi sicrano... De longe... 
          Fui também a uma antiga missão do tempo em que essa região era México. A missão de San Fernando. Bonito o conjunto do convento e sítio histórico. Mas, a mesma coisa quando se pensa no que está por trás: a colonização brutal e em nome da fé. 
              Nesses dias, a coisa mais importante e positiva foi visitar Fred e sua esposa Argentina. Estar com eles, atualizar uma amizade de mais de 40 anos. Isso foi o mais importante. Não tem preço e nem dá para avaliar quantitativamente. Procurei estar presente e pronto. É claro que também tinha como projeto apoiar Fred em seu intento de começar um trabalho aqui com uma comunidade de migrantes latino-americanos na periferia - North Hills, onde ele, aos 81 anos, está assumindo a responsabilidade por uma Igreja Metodista que, há anos, estava fechada. Nessa semana, participei de três eventos: um encontro com pastores amigos e vizinhos todos migrantes latinos e trabalhando com latinos. Vieram poucos. A reunião foi boa e parece que começou uma aproximação que poderá ser continuada no próximo ano. Vejamos. Eles me disseram que me convidariam para voltar e dar cursos bíblicos em suas Igrejas. Não nego isso. O outro compromisso foi um encontro de famílias que se encerrou em uma ceia com muita gente. Falei rapidamente a eles. E ontem, domingo, celebramos, eu e o pastor, no estacionamento da Igreja durante a feira livre que os migrantes fazem a cada domingo. 
        Não sei o que pensar. De um lado, percebo que não ha interesse em Igreja e religião. O povo continua ligado a uma tradição de devoções, mas não depende de pastores e Igrejas. As pessoas vêm se há comida, se há shows ou algum interesse. Mas, não pela fé e pela Igreja. Nesse sentido, revitalizar essa paróquia parece ser responder a um apelo que a comunidade não fez e não sente necessidade (me parece!!!). Do outro, o mundo que vi aqui é tão desumano e pesado (um shopping em cada rua e um individualismo absoluto) que se a Igreja representar um projeto de humanidade e de convivência mais intercultural e de resgate da dignidade dessas pessoas, vale a pena investir. 
             Ontem vi uma discussão entre pessoas responsáveis: um grupo de dança asteca vem tocar e dançar no estacionamento da Igreja. E alguém se perguntava o que tinha aquilo a haver com a fé. Por que não dizer que não podem fazer isso? 
               Insisti com Fred  e ele concordou totalmente: as nossas Igrejas têm uma dívida moral e histórica com os grupos indígenas. Não têm direito de rejeitá-los e se quer se inserir na realidade deles, mexicanos, como negar um lugar para que dancem e festejem sua cultura? Insisti com o pastor que dar apoio a isso é prioritário e ele concordou. Mas sem dúvida, ele vai ter de lidar com outras sensibilidades na comunidade mais tradicional. 
             Não queria estar na pele do pastor. Começar isso a essa altura da vida, aos 81 anos, é muita coragem. De todo modo, o importante é essa energia de amor e essa disposição de testemunhar o amor divino pelas pessoas. Estamos juntos nisso. Vivo isso no Recife com o grupo de leigos que era acompanhado por Dom Helder. A Igreja do Recife também mudou e nem sempre tudo é fácil, mas temos de ser fiéis ao projeto original e ao que Deus nos inspira como profecia. 

sábado, 15 de novembro de 2014

Meditação bíblica para o domingo, 16 de novembro 2014

O evangelho lido nas Igrejas (católicas e anglicanas) nesse domingo é a chamada parábola dos talentos (Mt 25, 14- 30). 
Essa é uma das parábolas contadas no evangelho que, apesar de virem de Jesus, não me inspiram simpatia. Um dos motivos é que sobre esse tipo de parábola se dão muitas explicações que legitimam a sociedade baseada na desigualdade social. Os talentos seriam os dons (intelectuais, ou naturais) que Deus dá a cada pessoa. E como os dons ou talentos são diferentes de pessoa a pessoa, é normal que haja diferenças entre as pessoas, diferenças de classe, diferenças de situação de vida. Essa interpretação para justificar a ética da burguesia é tão clássica que a própria palavra “talento” (nome de uma moeda do tempo antigo) tornou-se em nossas línguas sinônimo de “dom natural” . Uma pessoa tem ou não tem talento para tal coisa. Existe até o adjetivo “talentoso”. Alguém é talentoso ou não o é. 
Ninguém diz exatamente isso, mas deixa entender que o rico é o servo que ganhou cinco talentos e foi capaz de fazê-lo render outros cinco. O pobre é o que ganhou menos e acabou enterrando mesmo esse pouco que recebeu. Se fosse assim, essa seria a parábola da sacralização do capitalismo.
Historicamente não sabemos se Jesus contou mesmo essa história tal qual está no evangelho. De todo modo, penso que se a comunidade de Mateus soubesse que a parábola que eles transcreveram, no decorrer da história, seria tão mal interpretada e usada de forma tão errada, certamente teriam preferido não escrevê-la. Sem dúvida, Mateus a recebeu da tradição mais antiga. Talvez adaptou para a realidade da época e da comunidade cristã no norte da Síria, onde parece que esse evangelho foi escrito, uma parábola que Lucas também guardou (Lc 19, 11- 27). Já salientamos que muitas das histórias que Jesus contou, foram acontecimentos reais que ele ficou sabendo. Talvez, muitos dos seus ouvintes sabiam a que caso concreto ele se referia. Podem até ter conhecido esse patrão que tinha oito talentos de prata ou de ouro (era uma riqueza) e devendo viajar, confiou-os a seus empregados.
Recontando a história, Jesus a interpreta. Conforme a parábola, o próprio patrão reconhece que poderia ter deixado esses talentos num banco para fazê-los render e preferiu confiá-los aos empregados (v 27). Então, o seu interesse maior não era o simples lucro capitalista. Era para testar a capacidade dos servos em fazer os talentos renderem. Nas comunidades antigas falar de “servos” era referir-se aos ministros cristãos. Ou será que Mateus ainda continuava querendo aludir que os rabinos e escribas são esses servos que não souberam zelar pelos talentos recebidos? Provavelmente, numa primeira redação, o evangelho alegorizou a parábola de Jesus pensando que o talento signifcava a lei e a aliança de Deus. Nessa interpretação, o que a parábola deixa claro é que os rabinos do Judaísmo da época do evangelho guardavam ciumentamente ou enterravam o que o talento que Senhor lhes confiou para que eles o fizessem prosperar, crescer ou render (a aliança de Deus, aliança que Deus fez com Israel para ser luz e abrir-se a toda humanidade).
Na redação atual, a parábola parece visar mais os ministros cristãos e a responsabilidade deles. 
Na história das virgens que o evangelho conta antes dessa parábola, Mateus insiste no dever de esperar vigilantes. Nessa parábola dos talentos, há um passo a mais: os cristãos precisam trabalhar para fazer os talentos renderem. Assim, vocês ajudam a comunidade a descobrir porque a vinda do Senhor (a parusia) tarda tanto. É para dar tempo a que trabalhemos e façamos os talentos se multiplicarem.  O contexto histórico é esse: “Após um longo tempo…”  Repito que esses talentos do qual o evangelho fala nada têm a ver com nossos dons naturais. É o dom divino que nos foi entregue para sermos testemunhas dele no mundo. Se não, caímos na interpretação capitalista do evangelho, que é uma aberração.  
Vocês que relêem essa parábola hoje ou devem pregar sobre ela, por favor, tomem cuidado para não interpretarem a parábola no sentido contrário ao que Jesus contou ou ao que Mateus escreveu. Leiam novamente. Verão que essa história de talentos é secundária. É claro que Jesus não contou uma alegoria e sim uma parábola. Ele não deu nenhum significado próprio aos talentos. A parábola podia ser assim: O patrão ia viajar e encarregou os servos de arrumarem a casa, ou lavrarem o campo. Quando voltou percebeu que um fez cem por cento, outro trabalhou apenas a metade do que devia e outro não fez nada. A parábola é sobre o rendimento do empenho dos servos e não sobre o valor ou significado dos talentos. O talento que Deus nos confiou foi o seu Evangelho, a fé e o testemunho do seu amor que devemos comunicar a toda humanidade. 


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Artigo semanal, sexta feira, 14 de novembro 2014

O divino projeto de mudar


Dizem que Deus é bom, mas vive cercado de amigos que, embora, em sua maioria, não sejam maus, usam seu nome para manter costumes e estruturas que deveriam mudar. De fato, no decorrer da história, em nome de Deus, líderes religiosos das mais diversas religiões  defenderam a escravidão dos negros, o racismo, a violência contra os que não creem como eles, a pena de morte e até guerras contra outros povos. Atualmente, no Congresso Nacional, um bom número de parlamentares que se dizem cristãos faz os verdadeiros cristãos ficarem com vergonha de se apresentarem como tais. Se Deus fosse como esses senhores deputados ditos "evangélicos" afirmam que ele é, egoísta, prepotente, mesquinho, homofóbico, cruel com os que não creem e pouco sensível à justiça, nós todos deveríamos pregar o ateísmo e combater o mal terrível para a humanidade que seria a religião.
De fato, a um rapaz que lhe disse: “Sou ateu”, o bispo profeta Dom Pedro Casaldáliga respondeu: “De que Deus?”. Ele quis mostrar que do deus, cujo nome aparece nas cédulas de dólar, na sede alguns bancos e em certos templos suntuosos, nós todos deveríamos ser. Afinal, somos discípulos de Jesus que, embora profundamente fiel à fé e à espiritualidade judaica, combateu a forma de religião do templo de Jerusalém e denunciou como hipócritas chefes religiosos do seu tempo.
Em um mundo no qual governos que usam o nome de Deus são menos humanos e menos solidários do que os que se dizem ateus, o papa Francisco propõe uma nova forma de testemunhar Deus. Há poucos dias, no Vaticano, reuniu um sínodo de bispos para mudar a forma como a Igreja Católica continua falando de moral da família. De fato, pouco antes de morrer, em 2012, o Cardeal Carlo Martini, ex-arcebispo de Milão, afirmou que, sobre esse ponto, a Igreja Católica está, ao menos, 200 anos atrasada em relação à humanidade. O papa tomou consciência disso e afirmou claramente aos bispos: “Deus não tem medo de mudanças. Ele gosta de novidades”. Pouco depois de encerrar essa sessão do Sínodo de bispos, o papa convidou ao Vaticano líderes sociais de todo o mundo para escutá-los e se colocou ao lado deles na luta pacífica por um mundo mais justo e igualitário. Tomara que padres e bispos que imitavam papas,  quando esses tomavam atitudes dogmáticas e rígidas, agora sigam o exemplo do atual bispo de Roma que se coloca à escuta das organizações sociais cristãs e não cristãs e se ponham realmente a serviço da humanidade. Como pastor da unidade das Igrejas, o papa age assim como uma proposta para que bispos locais e padres em suas paróquias possam continuar esse diálogo com os movimentos sociais e as organizações de serviço à humanidade.
Neste novembro, mês em que no Brasil se celebra a união e consciência negra, em Brasília, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) publicou um livrinho com o título “Na casa do meu Pai há muitas moradas” (Conversas com um pastor pentecostal sobre a Bíblia e as outras religiões). Esse livro escrito em forma de conversa simples e leve procura mostrar como ler a Bíblia de modo que se valorizem e respeitem as tradições religiosas negras e indígenas. É profundamente vergonhoso que, até hoje, em várias cidades brasileiras, templos do culto afro-brasileiro, assim como seus sacerdotes e sacerdotisas sejam discriminados e, às vezes, até perseguidos por pessoas e grupos que se dizem cristãos e em nome da Bíblia e de Deus.
Todas as tradições espirituais têm como meta construir a morada divina no mais profundo do ser humano e que isso seja a semente para transformar as estruturas do mundo. Enquanto a religião for exterior, mas não mudar profundamente o coração de cada pessoa, não atingirá a sua meta. O projeto divino é um mundo renovado na base da justiça, paz e respeito e comunhão com a natureza. As pessoas que creem devem dar testemunho desse projeto, começando por si mesmas o caminho da justiça e da paz. Simone Weill, mística e pensadora francesa, afirmava: “Conheço quem é de Deus não quando me fala de Deus, mas pelo seu modo de ser solidário e amoroso com as outras pessoas”. 
    


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Conversa, quinta feira, 13 de novembro 2014

             Ontem, tive a conversa com alguns pastores (poucos) sobre como ler a Bíblia a partir dos pobres. Insisti em partir do amor solidário e da ânsia pela libertação de todos. Mostrei como na Bíblia, do começo ao fim, se revela uma linha que aponta para um projeto ou programa de Deus em relação ao mundo e a nós. E aí conversamos sobre os métodos possíveis de serem usados na leitura bíblica, especialmente o diálogo e a formação de grupos de vida, como os círculos de cultura do Paulo Freire.
             À tarde, o pastor Fred, meu amigo, me levou para um passeio de carro por Los Angeles. Fomos até Malibu, a praia rica no oceano (Pacífico) sempre azul, um azul tão vivo que impressiona. Gostei de conhecer, mas é uma beleza meio estática e me dá uma impressão quase de artificial. Em um determinado momento, ao ver todos os nomes em espanhol, não pude deixar de comentar: "Tudo isso aqui era México". E Fred me respondeu: "Sim. Os Estados Unidos tomaram do México". 
              No começo da noite, uma ceia junto com famílias de migrantes latino-americanos aqui do bairro (North Hills). Gente simples, pobre e muito simpática. As crianças correndo pelo salão, como tomando posse do espaço. E, nas mesas, as pessoas, famílias inteiras, repartindo o alimento. Toda a comida tinha sido trazida por eles. Muita comida: arroz, galinha e crepe salgado... Uma espécie de salada de maionese... Uma comida tipicamente de El Salvador ou Guatemala. E refrigerante. No final, pudim de leite... 
                 No meio da refeição, um oficial da polícia que me pareceu bem inserido e estimado pelo pessoal (deve ser mexicano) me perguntou: "No Brasil, vocês têm policiais amigos?". Tive vontade de responder: "O único lugar em que eu vi policiais amigos do povo foi na Venezuela bolivariana". Mas não quis ser indelicado e respondi: "No Rio de Janeiro, o governo criou uma polícia pacificadora para as favelas. Mas, conforme algumas notícias e denúncias, ninguém pode trazer paz através da força armada. Só a convivência de igual para igual traz paz e solidariedade. 
              Acabo de ler na UOL sobre a morte do poeta Manoel de Barros. Drummond o chamou de "o maior poeta brasileiro vivo". Apesar de não conhecê-lo, tinha profunda admiração por ele e penso que ele exerceu seu carisma de grande poeta como o caráter de um verdadeiro profeta da ecologia, das relações humanas e da verdade mais profunda de cada ser humano. Adorei o filme que fizeram sobre ele e só o título diz muito: "Só 10% é mentira". 
           Em homenagem a ele, partilho com vocês dois poemas de Manoel de Barros que recebi, via email, de uma amiga: 

O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.