segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Artigo semanal, segunda feira, 22 de setembro 2014

“O nosso norte é o Sul”


O 21 de setembro marca, no hemisfério norte, o começo do outono e no Sul, o início da primavera. No século XVI,  ao chegarem a Argentina e Paraguai, missionários europeus escreveram suas impressões: “Aqui é tudo contrário. No céu, as estrelas são diferentes e, na terra, as estações também. Faz frio no verão e calor no inverno”. Eles pensaram assim porque olhavam o sul a partir do norte. Durante cinco séculos, essa foi a visão dominante e ainda é o modo de ver das elites de nossos países. A ciência, a cultura, a arte e a própria estética sempre foram definidas pelos interesses das potências do Norte que nos colonizaram e nos impuseram sua forma de ver o mundo e a vida. Até no modo de vestir, o estilo europeu tornou-se mundial. Agora, mais de cinco séculos depois, latino-americanos de todos os países do continente querem se libertar dessa herança colonial e valorizar nosso modo de ser e de viver. Reler a história e a vida a partir das culturas negras e indígenas.
A Telesur é a rede de televisão latino-americana que, a partir de Caracas, transmite para os países da América do Sul. Esse meio de comunicação é um forte instrumento na integração de todo o continente como uma pátria única. Para definir sua linha de programação, ela lançou como lema: “O nosso norte é o Sul”. É preciso aprofundar as muitas implicações e consequências que isso pode ter.
Entre nós, esse início da primavera encontra a natureza confusa diante das agressões humanas. As estações parecem menos definidas e o renascimento da vegetação encontra obstáculo no ar carregado de venenos agrícolas. Mesmo assim, em todo o continente, os movimentos sociais lutam em defesa da mãe Terra, da Água e da integridade da natureza. E a natureza responde com uma incrível capacidade de se renovar.
No plano social e político, muitos países do continente estão vivendo um processo novo que rompe com  os dogmas do Capitalismo individualista, baseado na concorrência e na competição impiedosa de uns contra os outros. Ao mesmo tempo, a Venezuela, Bolívia, Equador e outros países do continente não querem o sistema totalitário dos regimes comunistas que vigoraram na Europa oriental e na China de Mao Tsé Tung. Apoiam-se na experiência secular das comunidades indígenas e assumem como meta do Estado proporcionar o que os índios andinos chamam de Bem Viver para todos os cidadãos e cidadãs. Isso exige dos índios e de todos nós olhar a vida e o mundo a partir do sul. Em cada país, esse novo processo social e político tem nomes diversos, mas todos têm como meta: 1- libertar-se dos impérios que nos dominavam, 2- integrar-se com os outros países do continente para formarmos uma única pátria grande, embora mantendo a autonomia social e política de cada país e cada povo. 3 – Finalmente, por meios democráticos, caminhar para uma economia mais justa e solidária. Ora, esses objetivos, reformulados de modo atual, são praticamente os mesmos que, há mais de 200 anos, Simon Bolívar, o libertador, tinha proposto para toda a América do Sul. Somente agora, a primavera está chegando.
Nesse momento em que o povo brasileiro está se preparando para, mais uma vez, votar em seus representantes, tanto no governo federal, como nos diversos Estados, é muito importante escolher a pessoa que se comprometa a olhar o Brasil, a partir do sul e não do norte. Isso significa aprofundar o caminho de integração latino-americana que, em uma década, mudou a fisionomia social do continente. A FAO e outros organismos da ONU declararam oficialmente que, no mundo, a América Latina foi o único continente, no qual o número de pobres não aumentou. E os países bolivarianos (Bolívia, Equador e Venezuela) foram os que mais conseguiram superar as desigualdades sociais. Esse espírito de renovação que se expressa no novo processo latino-americano quer também contagiar as Igrejas e religiões. Para a Igreja Católica, há mais de 50 anos, o papa João XXIII pedia que Deus desse à Igreja uma nova primavera. E essa veio com o Concílio Vaticano II. Atualmente, com o papa Francisco, esse assunto tem voltado. No entanto, são as comunidades locais e cada cristão que são responsáveis por fazer essa primavera eclesial desabrochar e florescer.


sábado, 20 de setembro de 2014

Meditação bíblica, para o domingo 21 de setembro 2014

       Desde ontem, estou assessorando o encontro das pastorais sociais da diocese de Campina Grande. Algumas pessoas conhecidas. Grupo interessado e interessante. O tema principal foi o estudo da exortação apostólica Evangelii Gaudium do papa Francisco e como as comunidades locais e pastorais sociais podem participar desse processo de renovação que o papa está provocando. 
         Amanhã, 25o domingo comum do ano, o evangelho lido será Mateus 20, 1 - 16: – A parábola do “patrão diferente” 

             Considero essa parábola das mais difíceis de ser explicadas de todo o evangelho. Acho que a maioria dos padres e pastores vão comparar Deus com o patrão que sai pelas ruas e praças a contratar operários diaristas para a sua fazenda. E nem percebem que considerar Deus como um fazendeiro capitalista não é a melhor imagem de Deus que eles podem dar. De fato, não é fácil compreender que Jesus tomava os fatos ou histórias que se contavam em sua época para aproveitar e falar do programa divino no mundo, ou como se chama no evangelho: o reino de Deus. 

É possível que, inicialmente  essa parábola de Jesus serviu para clarear a posição que a comunidade de Mateus e certamente, desde o início Jesus, tomaram com relação aos não judeus. Na Bíblia, “a vinha” é uma imagem clássica do povo de Deus e da obra que Deus faz conosco – Cf. Is 5 e Salmo 80). Nessa história, os “operários que trabalharam o dia inteiro na lavoura” significam o povo judeu. Os trabalhadores da última hora são os não judeus, pagãos (goims).
Para nós que vivemos num país no qual ainda é normal o trabalho diário dos assalariados volantes (boias-frias), parece familiar o fato de Jesus (ou vocês) descrever a realidade social da Judéia como sendo de desemprego e de trabalhos por contrato diário. Conhecemos ainda hoje essa realidade de pessoas sem emprego, aceitando qualquer oferta que lhe façam. Diferente é esse patrão que age completamente fora das leis sociais vigentes em qualquer sociedade.  A maioria dos comentadores chamam essa história de “parábola dos trabalhadores da vinha”. O nome mais indicado seria “Parábola do patrão original ou diferente”. A parábola é sobre o comportamento dele. Todo o problema para os primeiros contratados é que ele, além de começar a pagar pelos últimos, os iguala aos primeiros que suportaram o peso e o calor do dia. A parábola é sobre “os direitos” iguais que todos têm diante do convite de Deus e da recompensa que ele promete.
O que os judeus retratados na parábola não aceitam é que “ele os equiparou a nós”. No tempo de Mateus, o Talmud já dizia: “um pagão que retorna ao Senhor é maior do que o sumo-sacerdote do santuário”[1]. O judaísmo oficial aceitava com tranqüilidade que os pagãos podem ser salvos e que Deus oferece a todos os bens da aliança. Isso, os rabinos aceitavam sem problemas. Mas, não podiam compreender uma igualdade de condições entre Israel e os pagãos. Já vimos que mesmo Jesus (no episódio da cura da filha da mulher sírio-fenícia) e Paulo na carta aos romanos dizem claramente: “primeiramente os judeus e depois os outros”. Aqui, Jesus dá um passo adiante e diz que Deus começa pelos últimos e dá a estes o mesmo que dá aos primeiros. Os rabinos diziam que “quando Deus promulgou a Torá ofereceu-a a todas as nações e somente Israel aceitou. Por isso, cada israelita tem tanta importância para Deus quanto têm todos os outros povos do mundo. Todos os dias, o judeu piedoso deve agradecer a Deus por não ter nascido ‘goim’. Só Israel foi capaz de observar a lei”[2].  
Na própria tradição bíblica, os profetas já insistiam na universalidade do amor de Deus e na igualdade de todos perante o Senhor. O profeta Amós chega a dizer: “Por acaso, não sois vós para mim, filhos de Israel, iguais aos filhos dos etíopes?, diz o Senhor. Acaso, não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, do mesmo modo como fiz os filisteus virem de Caftor e os sírios de Quir?” (Am 9, 7).
Hoje, numa sociedade marcada pela desigualdade social, essa parábola não deixa de nos lembrar que Deus propõe igualdade. O fato é que, mesmo no plano social, se não se aceita partir dos últimos e dar a eles tanto quanto aos que são considerados “primeiros”, nunca haverá justiça. Ele rejeita a lógica do mérito (os que trabalharam mais mereceriam mais) e insiste na lógica do amor gratuito.
Nesses dias de campanha eleitoral, não sei quantos brasileiros aceitam escolher seus candidatos a partir do interesse dos últimos da sociedade e privilegiar os que têm efetivamente compromisso com os oprimidos. 








[1] - CHOURAQUI, idem, p. 253.
[2] - Cf. J. BONSIRVEN, Le Judaisme palestinien, Paris, 1935, p. 91. Citado por SPINETOLI, idem, p. 544- 545.
[3] - DOMINIQUE DE LA MAISONNEUVE, Paraboles Rabbiniques, in Cahiers Évangile, Supplement Décembre 1984, p. 23.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Conversa, quarta feira, 17 de setembro 2014

   Hoje, Douglas Mansour me mandou uma fotografia antiga na qual eu apareço com Zé Vicente em um palco animando a multidão.   Eu estava ainda jovem e Zé Vicente mais ainda (é bem mais novo do que eu). No facebook, Zé comenta a foto como sendo do 6o Encontro intereclesial de Cebs, em Trindade, GO, em 1986, portanto há quase 30 anos. É uma alegria refazer o caminho e ver que seguimos juntos e que Deus nos tem mantido na mesma linha e sempre aprofundando o mesmo itinerário de serviço ao povo empobrecido e à causa do reinado divino no meio de nós. 
    Ontem, recebi um telefonema. Era da embaixada brasileira no Vaticano. O embaixador (que ainda não conheço) me falou do meu novo livro que está saindo nesses dias na Itália: "Evangelho e Instituição". Esse livro não saiu ainda em português, mas sairá pela Paulus em outubro. O embaixador me propôs de fazer o lançamento da edição italiana do livro na embaixada do Vaticano. Aceitei, embora fiquei com alguns receios de criar constrangimento ou problemas. De fato, o livro é um diálogo com a teologia do padre Comblin e sobre essa tensão profunda que existe entre o evangelho e a instituição da Igreja. Que um livro com esse tema e de um autor como eu possa ser lançado no Vaticano já revela uma mudança profunda nos ambientes de cúpula da nossa Igreja. E não há dúvidas de que devemos isso ao papa Francisco. Deus o abençoe e o ilumine em sua missão de colocar a Igreja realmente, como diz ele, "em saída". 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Conversa, segunda feira, 15 de setembro 2014


    Não sei se vocês receberam por email essa mensagem contendo o filme sobre Pedro Casaldáliga. Foi feito em duas partes pela TVE da Espanha e ganhou vários prêmios internacionais. Eu conheço bem e participei dessa história do Pedro Casaldáliga e da prelazia de São Félix do Araguaia desde a metade dos anos 70, portanto, não desde o começo. Mas, há muito tempo. Achei o filme bastante fiel ao espírito da região e à história. Encontrei apenas dois detalhes (em geral, na pregação de Pedro ao povo) que não correspondem ao pensamento dele tal qual, mas é claro que o pessoal que fez o filme não tem como captar tudo. Captaram bem a mensagem social e mesmo a visão evangélica e sobre Jesus, mas a ideia de moral e de ministério, é mais difícil para eles.
    De todo modo, achei que era bom compartilhar com voces esse email de Henrique Orellana (do Chile) que traz o modo da gente entrar no site e ver o filme. Eu consegui entrar e ver todo o filme muito bem. Só o finalzinho da segunda parte acaba de repente, mas são mesmo as últimas imagens (dos créditos finais) que ficaram fora. 
   Se não viram ainda, vale a pena. Um abraço. 
 
De: opcion.porlospobres.chile@gmail.com
Enviada: Domingo, 14 de Setembro de 2014 03:05
Para:
Assunto: Película"Descalzo Sobre la Tierra Roja".Historia del misionero español Pedro Casaldáliga", conocido como el obispo de los pobres, la voz delos indios, los sin tierra y los más pobres de Brasil.

Apreciada familia, amigo/a, hno/a: 
Envío película Descalzo sobre la tierra roja'", es la tv movie de 2 capítulos,  sobre la historia del misionero español Pedro Casaldáliga, conocido como el obispo de los pobres, la voz de los indios, los sin tierra y los más pobres de Brasil. Está protagonizada por Eduard Fernández y dirigida por Oriol Ferrer.
 
Que la disfruten, se inspiren activamente y difundan..
 
Fraternalmente, Enrique Orellana (Chile)
 
 

Descalzo sobre la tierra roja - 1ª parte

09 sep 2014

Julio de 1968. Pedro Casaldàliga, un misionero de cuarenta años, llega a Brasil acompañado de Daniel, su ayudante, aun no ordenado sacerdote.La misión está en São Félix do Araguaia en una región habitada por pueblos indios y pobres campesinos que trabajan la tierra con sus manos.  Basada en la novela 'Descalç sobre la terra vermella' de Fracesc Escribano, en el reparto destacan además Pablo Derqui, Sergi López, Eduardo Magalhaes, Cristina Lago, Mònica López, Clara Segura, Abu Santana, Francesc Orella o Mario Gas.
La cinta ha recibido dos premios en los Seoul International Drama Awards: el Golden Bird Prize en la categoría de Mejor tv movie y el premio al Mejor guión. Viene además avalada por otros muchos premios en festivales internacionales, como el Golden Medal en el New York Festival International TV & Films Awards, en el apartado de miniseries; dos premios Fipa (Festival Internacional de Programas Internacionales) de Biarritz al mejor actor (Eduard Fernández) y mejor música (David Cervera); y el premio al mejor film para televisión que recogió en el Festival Zoom de Igualada (Barcelona).

Descalzo sobre la tierra roja - 2ª parte

09 sep 2014

 Casaldàliga publica, sin el consentimiento de la Conferencia Episcopal de Brasil, el manifiesto - "Una iglesia de la Amazonia en conflicto con el latifundio y la marginación social" - que da la vuelta al mundo y pone en evidencia la situación inhumana que se vive en la región.    

sábado, 13 de setembro de 2014

Meditação bíblica para o domingo, 14 de setembro 2014

                   Hoje, a Igreja Católica celebra uma festa medieval e que vejo como problemática para os dias de hoje. A festa se chama "Exaltação da santa Cruz". É difícil explicar hoje às pessoas por que e como exaltar a cruz. Tem um lado trágico. Seria como falar em "exaltação da guilhotina, da cadeira elétrica ou da forca". A cruz era no tempo do império romano algo assim ou pior: o castigo infligido aos revoltosos e subversivos em relação ao império. Aí a Igreja diz: Mas, o Cristo tornou esse instrumento de suplício em um instrumento do seu amor pela humanidade e a cruz que era sinal de morte tornou-se sinal de vida. Ao ouvir isso, os evangélicos diriam: "Então, celebremos a vitória do Cristo sobre a cruz" e não a cruz em si. Paulo dizia que pregava o Cristo crucificado, loucura para os gregos, escândalo para os judeus, mas sabedoria e salvação para quem tem fé. Pregar o Cristo crucificado é uma coisa. Pregar a exaltação da cruz pode ser outra. 
           Historicamente, a festa desse domingo (14 de setembro) foi instituída para comemorar uma vitória dos cristãos contra os persas no ano 626, quando o imperador bizantino Heráclio venceu os infiéis ao império. Hoje, ninguém que celebra essa festa nem lembra ou sabe disso. Mas, durante toda a história, muitas vezes a exaltação da cruz serviu para cruzadas e guerras. E é importante rever isso e transformar essa teologia. 
         Hoje, me parece que a Igreja deveria, primeiramente, ligar muito mais a obra de salvação de Cristo com a criação, com a bênção de Deus sobre a vida e um olhar positivo sobre o mundo. O evangelho de hoje diz: "Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu filho único". Acho que deveríamos ler o capítulo 3 do evangelho de João desde o inicio da conversa de Jesus com Nicodemos. O importante é um novo nascimento, nascer do alto, nascer do Espírito. Esse é o maior dom de Deus. Esse é o seu maior ato de amor: dar-nos essa vida nova. 
           A serpente de bronze era um ídolo cananeu. É uma divindade comum a muitos povos, símbolo da fecundidade e da medicina. Ao aceitar uma serpente de bronze no templo de Jerusalém, os profetas tiveram de se justificar e o fizeram contando essa história que teria ocorrido no deserto: é a primeira leitura da missa de hoje (Números 21). De fato, o mesmo Deus que condena de modo veemente o bezerro de ouro, aceita a serpente de bronze. Por que? Por que o bezerro é uma imagem de Deus (um ídolo) que afasta o povo do caminho do Êxodo, impede a libertação, enquanto a serpente (é também um ídolo, uma imagem divina) mas serve para curar e não para oprimir. Deus aceita as imagens que são libertadoras e rejeita as que fazem dele um deus opressor e desinteressado do oprimido. 
       A cruz de Jesus pode e deve ser compreendida nesse contexto: não do sofrimento pelo sofrimento. Nem porque Deus quisesse que o seu filho sofresse. Nem que fosse para Jesus uma opção. A cruz é resultado histórico da inserção de Jesus. Assim como o martírio de Monsenhor Romero foi conseqüência da sua vida doada ao povo de El Salvador e a morte da irmã Dorothy conseqüência da sua consagração ao povo da Amazônia. Para nós, a morte de Jesus é conseqüência da sua missão de anunciar e testemunhar o projeto divino, o programa que Deus tem para o mundo. E ao fazer isso em um mundo de opressões e de violência, ele foi vítima dessa violência. Mas, o Pai o fez vencer e sua ressurreição é a força de nossa luta e nossa caminhada no testemunho do reino que vem. 

               

       
        

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Comentário de filme, quinta feira, 11 de setembro 2014

Fui ver o novo filme de Woody Allen: "Magia ao Luar". Tinha lido a crítica de que era uma repetição de outros e que nada havia de original. De fato, em pelo menos dois filmes recentes: "O escorpião de Jade" e "Scoop: o grande furo", Allen trabalha com esse tema do mágico e da magia. Mas, me parece injusto acusá-lo de repetição. O filme tem sim sua originalidade. Antes de tudo, como experiência fílmica é muito bem feito. Uma aula de verdadeiro cinema. Muito bem dirigido. A reconstituição de época (Alemanha e sul da França no final da década de 20) é perfeita. Os atores estão impecáveis. E a história é simpática e nos prende do começo ao final, sem ser apenas uma historinha para uma sessão da tarde da Globo. E há um assunto que não deixa de ser sério. O filme não é apenas sobre a magia do ilusionismo. As sínteses do filme apresentadas pela imprensa afirmam: "um falso mágico (Colin Firth)..." Mas, existe um mágico que não seja falso? O que é ser mágico? Não é saber iludir o seu público? O problema é que o filme mostra o confronto entre um mágico (ilusionista) e uma vidente que diz ter visões sobrenaturais e comunicação com o mundo dos mortos, além de uma capacidade de percepção extra-sensorial. E aí o fato é que ela também é uma embusteira. E depois que o mágico e nós, espectadores também, passamos o filme inteiro acreditando que ela está vendo ou percebendo as coisas, descobrimos que era tudo mentira e embuste. Isso significa (no filme) que o mágico é quem tinha razão: a vida não tem sentido além do trabalhar, ganhar dinheiro e pronto. O espiritualismo é uma bobagem, Deus não existe e a única verdade humana é a concorrência. Apesar de que não sou espírita e não acredito em muita coisa que se apresenta como espiritualismo, acho arrogante e primário simplesmente desqualificar todas as pessoas que têm experiências extra-sensoriais. Penso que o roteiro do filme poderia ter deixado isso em aberto, mesmo se mostrasse que no caso daquela moça era um embuste. Achei isso a grande falha do filme. Nada atrapalharia se, no final, ao reconhecer que era tudo um plano para enganar o mágico, a moça encontrasse ou soubesse de alguém que, de fato, lida com essas coisas... Afinal, a vida tem mais mistérios do que cabe em nossa cabeça. 


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Conversa, terça feira, 09 de setembro 2014

Nesses dias, Isabel, minha sobrinha, deu à luz a Artur, que nem pude ainda ver. A família está em festa e minha irmã Mércia, feliz por ganhar seu primeiro neto. Para mim, além da alegria afetuosa com a qual quero receber essa vida nova que nos é confiada, fica um desafio: o de olhar o mundo que estamos apresentando a ele e lutar com todas as minhas forças para que ele, quando crescer, possa ter um mundo melhor, mais humano e no qual se possa ser mais feliz. Tenho muita esperança nisso, embora essa esperança não possa ser ilusória e ingênua. Às vezes, me dou conta de que, apesar de tantos progressos tecnológicos e de um crescimento da consciência social (e progressos na questão dos direitos da mulher, dos negros, dos índios e assim por diante), o mundo como tal, hoje, parece pior ou mais cruel do que o mundo em que nasci. Há sim sinais de esperança e de coisas boas e devemos nos apegar a elas, não a partir da análise da realidade (que pode ser muito severa), mas a partir da fé e da esperança do que a Bíblia chama de "reinado divino". Estou escrevendo sobre isso em um artigo para a revista "Estudos Bíblicos". E o melhor presente que podemos dar ao pequeno Artur que acaba de nascer é nosso compromisso firme e irrevogável de trabalhar por um mundo novo, mais humano e feliz.