domingo, 28 de agosto de 2016

Meditação bíblica, domingo, 28 de agosto 2016

         Nesse domingo, as Igrejas leem um evangelho (Lc 14, 1 e 7- 14) que não é fácil atualizar. Em cada sociedade, há sinais claros de distinção e sinais de discriminação social. Em uma universidade brasileira, os professores se destacam por títulos que vão de graduação até pós-doutorado e o importante não é se é um bom educador e sim quantos diplomas coleciona e quantas publicações têm em revistas reconhecidas pelo mundo acadêmico. No mundo artístico, as distinções se darão pelos prêmios e pelo preço do artista. No mundo dos esportes, vale medalhas de ouro, de prata e de bronze... No mundo de Jesus, os iguais se sentavam à mesa e subir de lugar na mesa era subir de posto social... Por isso, todos desejavam e procuravam os primeiros lugares. A mesa era o lugar da expressão de uma sociedade estratificada. Comer juntos era como casar em termos sociais... Era sinal de uma aliança de classe. 
       Por isso, Jesus se destacava por comer com pecadores e gente de má vida e quando foi convidado a um banquete na casa de um fariseu, não somente rompeu o protocolo se metendo onde não era chamado. Não lhe competia dizer quem deveria ocupar os primeiros e os últimos lugares. Era até má educação entrar nesse assunto. Mas, Jesus é um profeta e provoca. E provoca em duas direções. A primeira é para os convidados e a segunda é para o anfitrião. Aos convidados ele diz: ocupe o último lugar. Não se trata de uma estratégia. Vou ocupar o último para ele me chamar para o primeiro... O modo de falar de Jesus é por antíteses, comparações assim invertidas - ocupe o último que vc terá o primeiro... Mas, não se trata de humildade. Trata-se de solidariedade, de comunhão com os últimos. E ao anfitrião que convida, Jesus propõe: Convide os pobres, aleijados e gente da rua.... E eles lhe receberão no reino... 
          A boa notícia do evangelho de hoje é que se nos sentimos assim pobres e desprovidos de tudo, somos os primeiros no banquete do reino de Deus e somos chamados por Jesus a nos abrir para muito além da família, dos amigos aos quais queremos bem e ao círculo pequeno de nossa intimidade: a família de Deus é muito maior e é ela que devemos acolher e a qual devemos nos unir. 

sábado, 27 de agosto de 2016

Conversa, sábado, 27 de agosto 2016

       Hoje, fazemos memória do dia em que partiu para o céu Dom Helder Camara, nosso profeta e mestre de vida (27/ 08/ 1999). Na Igreja das Fronteiras, onde ele viveu por 40 anos, celebraremos essa memória na missa de amanhã às 11 horas. 
      Para mim, celebrar a memória de Dom Helder é retomar as últimas palavras que escutei dele: "Não deixe cair a profecia". Tento viver isso. E sei que essa profecia a qual ele serviu - a palavra de Deus na vida do povo - tem de ser permanentemente atualizada e renovada. Não se trata só de repetir o que Dom Helder disse e fez, mas de continuar a caminhada no espírito de abertura e de diálogo com as novas gerações que ele sempre viveu. Isso me leva, atualmente, a novas paragens e desafios, mas o Espírito de Deus não para. Se nós paramos, nos distanciamos dele porque ele não para nunca. Vai sempre em frente e renovando tudo... 
          Como diz o salmo: "Quando tu, Senhor, teu Espírito envias, todo mundo renasce, é grande a alegria". 
        

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Conversa, quinta-feira, 25 de agosto 2016

      Os jovens que estão me ajudando a renovar o meu site me pedem que lhes mande uma lista de todos os meus livros, com os dados da editora, etc. Compreendo que faz parte do trabalho de comunicação. Mas, tenho dificuldade de fazer isso. Primeiramente, porque não dou tanta importância a esses livros. Vários deles nasceram em determinado contexto e esse momento histórico passou. Nesse sentido, são datados... Sou velho, mas meu tempo é agora e não adianta ficar falando dos livros dos anos 80 ou 90. Do outro, quando revejo esses livros, me bate certa angústia. Tenho sempre vontade de corrigir, de melhorar... Leio uma página e digo porque eu não disse também tal coisa e não acrescentei isso e aquilo... Mas, já está escrito e publicado. Não me pertence mais. É como um filho que se tornou autônomo. Cumpre sua missão, mas eu já não tenho mais responsabilidade nisso. Os livros que me ocupam são os que estão em minha mente e no meu coração... As coisas muitas que eu quero lhes falar, de coração a coração, de irmão a irmãos/ãs. Mas, essas coisas, nem todas estão prontas a serem ditas e algumas delas só poderão ser expressas com sangue, suor e lágrimas... Outras se resumem em poucas palavras: "Eu te amo". Mas, como explicar? 
          Nesses dias, leio e medito crônicas do padre Daniel Lima, filósofo e amigo de Dom Helder Camara e avesso à publicidade e à relação com público. Ele dizia: "Para mim, cinco pessoas já constituem multidão". Mas, na intimidade do seu quarto, escrevia coisas lindas e profundas. Hoje li um texto que diz assim:
           "Tento sempre conversar com Deus. Falo com Ele. Insisto. 
           Ele, aqui e acolá, responde. Ou resmunga. De qualquer jeito, antes que a gente desista, Ele dá um sinal de que está ouvindo. Ele fala por símbolos, pausa, aparente ausência. Eu continuo falando, falando. Ele responde silenciando. A certa altura, sinto como se o diálogo tivesse virado monólogo. Assim também é demais, penso. Levanto-me saio, vou embora para longe d'Ele. Com Ele". 
     (do livro Do meu tamanho , Recife, Ed. CEPE, 2015, p. 51).    

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Conversa, quarta-feira, 24 de agosto 2016

        Dom Anselm Grum é um monge beneditino alemão, super-conhecido por seus muitos livros de espiritualidade, traduzidos em muitas línguas. Hoje, ele inicia uma série de conferências em várias capitais do Brasil. A primeira acontece hoje no Recife. Em seu livro mais recente, ele conta que, como publicidade da temporada de espetáculos desse ano, um teatro de Munique na Alemanha, colocou como cartaz a pergunta: "Para onde você vai quando diz que está indo para casa?". É claro que está sub-entendido que se você quer se sentir em casa, vá ao teatro. Ao teatro vamos com quem convivemos e amamos, companheira/o, filhos, pais, amigos... 
A nossa casa é, de fato, o espaço não de construção física, mas de convivência amorosa que estabelecemos. É o nosso grupo de diálogo. Mas, é também o nosso corpo e aquilo que nos identifica como pessoa. A espiritualidade é a arte da pessoa que aprende a habitar consigo mesma. No evangelho de João, os primeiros discípulos perguntam a Jesus: Onde moras? E ele responde: Venham e vejam... E eles ficam com ele naquele dia... Eram quatro da tarde... Que saibamos fixar a hora dos nossos encontros como hora da graça... e revalorizemos esse construir com quem amamos uma casa comum... 
           

sábado, 20 de agosto de 2016

Meditação bíblica, domingo, 21 de agosto 2016

             Nesse domingo, no Brasil, a Igreja Católica celebra a festa da assunção da Santa Vírgem Maria. Esse último dogma proclamado pelos papas (1950) criou mais problemas ecumênicos já que é mais um ensinamento do magistério eclesiástico que não tem fundamento bíblico e, atualmente, põe problemas até do tipo de como expressar a fé de modo acessível à humanidade de hoje. 
        Vamos tentar falar disso de forma aberta aos outros cristãos. 
        O que essa festa diz de Maria é o que cremos ser o destino de todos os filhos e filhas de Deus. Rezamos no Credo: Creio na ressurreição da carne. Isso significa que o mistério da assunção, isso é, do ser assumido por Deus é vocação de todos nós. Maria nos precede. Vai na frente, mas assim ela se torna figura de toda a Igreja. O que significa isso? Na leitura do Apocalipse (Ap 12), o profeta vê uma Mulher vestida do sol e com a lua debaixo dos pés, mas está grávida e sofrendo dores de parto... Essa mulher, figura de toda a humanidade resgatada por Deus, ao mesmo tempo aparece nas nuvens, isso é vitoriosa como sendo assumida por Deus - apareceu no céu - isso é em Deus. E do outro ainda sofre dores de parto... Como ver no nosso povo hoje, na realidade social e política que vivemos no Brasil de hoje, essas dores de parto da história? São dores de parto porque geram uma vida nova. Como viver o que estamos sofrendo e ser capaz de contemplar a vitória e receber de Deus a força para isso? 
         O evangelho escolhido para essa festa (Lc 1, 39 em diante) nos dá uma ideia. A visita de Maria à sua prima Isabel revela o encontro de duas impotências. Nenhuma das duas poderia gerar uma vida nova. Para Maria era muito cedo. Para Isabel, muito tarde. No entanto, elas se reconhecem grávidas e não somente isso, no meio do peso da gravidez não esperada e provavelmente não fácil naquelas circunstâncias, as crianças exultam de alegria e fazem as mães exultarem... Celebrar a assunção a partir da vida nossa de fé significa sermos capazes de teimar em nos manter na alegria mesmo no meio das dores atuais da sociedade e nossas dores pessoais que se tornam na fé dores de parto que geram uma vida nova... 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Artigo semanal, quinta-feira, 18 de agosto 2016

Religião e Terror


Nesses dias, um dos assuntos mais frequentes na imprensa internacional é o Terrorismo. Ele é apresentado como ações de fanáticos desumanos que atentam criminosamente contra a civilização. Quem olha de forma mais crítica jamais se colocará do lado de quem mata inocentes e, seja por qual for a causa, semeia no mundo o ódio e a violência. No entanto, sabe que não existe um império do bem em luta contra as forças do mal. Há denúncias sérias e comprovadas de que grupos terroristas são criados e armados pelo próprio Império norte-americano para se legitimar e para dar aos governos aliados do Ocidente o pretexto para exercerem maior controle sobre os cidadãos. Assim, se cria uma situação de insegurança, na qual a guerra se torna necessária. Afinal, como terroristas de países periféricos podem ter as armas mais sofisticadas? Quem os assessora em técnicas de guerra que só governos e empresas do mundo rico conhecem?  
Atualmente, a opinião pública liga qualquer ato terrorista com o que se convencionou chamar de Estado Islâmico (EL). De fato, o EL nem é Estado, nem é islâmico. Prisioneiros que dele escaparam com vida afirmaram que seus militantes não conhecem e não praticam o Islamismo.
Pelo fato de lidar com as pulsões mais íntimas do ser humano e buscar resposta para as questões mais profundas da vida, toda religião mal compreendida pode se transformar em fanatismo e gerar atitudes violentas. Os fundamentalismos são movimentos religiosos que se colocam contra quaisquer formas novas de interpretar a fé. O fundamentalismo surgiu no início do século XX, em meios cristãos evangélicos dos Estados Unidos e até hoje, em todo o mundo, os Estados Unidos são o centro no qual o fundamentalismo é mais forte. Ali, em pleno século XXI, nas universidades, professores e estudantes ainda se dividem entre evolucionistas e os tais criacionistas que creem que a criação do mundo ocorreu conforme o relato da Bíblia, lido ao pé da letra.
Em 2002, diante de milhões de telespectadores, o presidente dos EUA afirmou que, naquela noite, Deus Pai lhe tinha ordenado invadir o Iraque. E assim foi feito com as consequências que o mundo inteiro vê até hoje.
No mundo atual existem grupos fundamentalistas judeus, cristãos, budistas e também muçulmanos. Embora o termo fundamentalista seja sempre ocidental e uma forma ocidental de julgar, existe um radicalismo islâmico que justifica, em nome de Deus, a violência simbólica e mesmo física, quando necessária. A maioria desses grupos radicalistas justifica a pena de morte. No entanto, normalmente, não praticam o terrorismo como meio para impor suas ideias.
No mundo atual, o terrorismo de grupos marginais parece se multiplicar como reação a um mundo organizado de forma cruel e injusta,  no qual 62 indivíduos possuem uma riqueza correspondente à metade da humanidade. Se somarmos todas as vítimas do terrorismo no mundo, nem de longe se aproximam do número de crianças e pessoas idosas que a, cada dia, morrem de desnutrição e fome, provocadas por esse sistema. Menos ainda se juntarmos a esse número, as vítimas das invasões e guerras preventivas realizadas pelos governos ocidentais. Já em 1968, os bispos católicos da América Latina, reunidos na sua 2a conferência geral, em Medellín, Colômbia, chamaram atenção para o que chamaram de "injustiça institucionalizada". É isso que torna o mundo mais inseguro e violento. É isso que, de forma lamentável, acaba legitimando os atos terroristas.
Embora os fanáticos não saibam fazer essa distinção, o que os grupos radicais ligados ao Islamismo odeiam não é o Cristianismo das comunidades ou a fé cristã como aparece na Bíblia e sim a Cristandade. Essa é o regime social e político que, desde o século XVI, legitimou os impérios do Ocidente e sempre se colocou do lado dos conquistadores. Na invasão dos países da África e Ásia, os missionários sempre estavam ao lado dos soldados. Os alvos principais dos grupos terroristas são países europeus que colonizaram de forma violenta países da África e da Ásia e até hoje mantêm políticas de tipo imperialista. Nesse ano, quem mais sofreu atentados foi a França, que mantém operações militares na Síria, Iraque e Mali, além de ser o país europeu que abriga o maior contingente de migrantes de cultura islâmica. Eles, juridicamente são cidadãos franceses, mas sofrem diariamente consequências do forte racismo da sociedade francesa de origem e vivem em periferias pobres, confinados em verdadeiros guetos. Muitos jovens que partem para pertencerem ao EL são oriundos dessa população marginalizada e discriminada pelos franceses. Sem dúvida, têm havido ataques terroristas em outros países e mesmo em cidades como Kabul e Bagdá. No entanto, por trás de cada um desses atos está sempre a revolta generalizada contra o Ocidente, identificado como "cristão".

O remédio contra o terrorismo jamais será entrar na mesma lógica e responder ao terrorismo de grupos fanáticos com terrorismo de um Estado dominador que se pretende impor pelas armas. O mundo só terá paz quando, como canta o poeta Zé Vicente: "as armas da destruição foram destruídas, as mesas se encherem de pão e tombarem as cercas que fecham os jardins. Aí o dia da paz renascerá nos corações e na vida de todos os seres humanos".     

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Conversa, terça-feira, 16 de agosto 2016

       Depois de um dia e meio de viagem, voltei de Montreal ao Recife. Depois de passar pelos aeroportos norte-americanos com toda a sua estratégia de guerra ao terror e sua violência contra os migrantes pobres (os ricos sempre podem chegar), é sempre melhor voltar para casa, mesmo em meio a esse ambiente de golpe e à falta de perspectivas que os movimentos sociais vivem nesses dias difíceis. Nesse contexto, é bom lembrar que tivemos ante-ontem um aniversário importante: o comandante Fidel Castro completou 90 anos. 
      Em Havana, cinco mil pessoas se reuniram para homenageá-lo e agradecer a ele o testemunho de uma vida consagrada à liberdade da humanidade. Sei que é difícil para quem só recebe notícias através das agências internacionais norte-americanas e europeias, pensar positivamente a respeito de Cuba e do processo de resistência desse país que, a 80 km de Miami, conseguiu por mais de 50 anos manter-se livre e com um sistema social contrário ao dogma do mercado e à desumanidade da desigualdade social. 
      Conheci o comandante Fidel no começo dos anos 2000, junto com o patriarca Bartolomeu de Constantinopla que visitava Cuba e inaugurava ali o primeiro templo de uma Igreja ortodoxa no país. 
Por acaso, estava em Cuba para uma reunião ecumênica e fui escolhido para acompanhar o patriarca em um de seus encontros com Fidel. Pude ver o amor do povo simples das ruas ao seu líder e a vitalidade desse homem que já idoso (naquela época, perto dos oitenta), parecia ter 60. 
       A primeira vez que fui a Cuba nos anos 80 foi para dar um curso de Bíblia a pessoas do Comitê Central do Partido Comunista que queriam compreender como, na América Latina, nós lemos a Bíblia a partir da realidade da vida dos povos oprimidos. Fiz esse curso para umas 40 pessoas de Havana em quatro etapas e até hoje tenho amigos que foram desse grupo e me acolhem quando, por alguma outra razão, passo por lá. Nunca tive com Fidel a proximidade de amizade que tem meu amigo Betto (frei Betto), mas me lembro de ter conversado sobre ele com Dom Pedro Casaldáliga quando esse, vindo da Nicarágua, passou quase uma semana em Cuba em encontros com teólogos católicos e evangélicos. Pedro me fazia ver que podemos estar de acordo ou não com todos os aspectos do governo cubano ou com a ideia de luta armada que Fidel e seus companheiros assumiram para libertar o seu povo. Mas, em todos esses anos, o governo e o povo cubano têm nos dado impressionantes lições de solidariedade internacional  a povos da África e aos nossos povos latino-americanos. Naquele momento, nem imaginávamos que um dia o Brasil receberia 14000 médicos cubanos. Nos lugares do interior, onde médicos brasileiros não se propõem a viver e a atuar, esses médicos salvam a vida dos pobres do nosso povo.
            Obrigado, irmão e comandante Fidel. Deus o proteja e o conduza sempre.