terça-feira, 3 de março de 2015

texto, terça feira, 03 de março 2015

Grande mídia mostra uma Venezuela diferente da real, diz Socorro Gomes

A presidenta do Conselho Mundial da Paz (CMP) e do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta Pela Paz (Cebrapaz), Socorro Gomes, participou de uma missão de solidariedade à Venezuela entre os dias 20 e 28 de fevereiro. O evento foi organizado pela Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD) com apoio do CMP e contou com representantes de 27 países.


The Goan
 
 

Segundo ela, a visita foi muito importante para entender qual a real situação política e econômica do país sul-americano. “Se você vê, escuta ou lê a grande mídia parece que é outra Venezuela porque as notícias mostram um país, quando se chega lá a situação é totalmente diferente”. 

Socorro citou como exemplo o caso do prefeito de Caracas, Antônio Ledezma, preso há alguns dias, acusado de participar de uma conspiração para derrubar o governo de Nicolás Maduro. “Disseram que não respeitaram os direitos humanos, que invadiram a casa dele com homens encapuzados, mas quando chegamos lá, na Câmara, foram mostrados todos os vídeos da prisão. Ele saiu muito tranquilo, caminhando e fazendo o 'V' da vitória com os dedos e foi tudo dentro das leis”.

A presidenta do CMP explicou que em vários estados venezuelanos têm ocorrido muitos atos de vandalismo e violência. “A extrema-direita, com todo o apoio dos EUA, está contratando pistoleiros, mercenários, e estão ocorrendo o assassinato de lideranças para impor o medo, o terror. É um processo de intimidação com o único objetivo de desgastar o governo e derrubar Maduro. Agora por que isso?”, questiona. 

“Se a gente olhar as mudanças sofridas pela sociedade da Venezuela, vai ver o motivo de tudo isso. Primeiro o petróleo, antes de Hugo Chávez assumir o governo em 1998, as grandes empresas pagavam um imposto apenas simbólico, era um saque dos recursos venezuelanos, quando Chávez assume ele põe essa taxa em 30%, o que possibilitou que o novo governo começasse a investir no bem estar do povo. A pobreza absoluta que estava em 10% cai bastante, para menos de 5%, e a pobreza em geral teve uma queda de mais de 50%. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) também aumenta”.

Outra melhoria destacada por Socorro Gomes foi a questão da educação. Ela lembrou que até a Unesco reconheceu os inúmeros avanços obtidos pelo país nesta área. 

A presidenta do CMP questiona também as acusações de que, primeiro Chávez, e agora Maduro, impõem um regime ditatorial na Venezuela. “É o país do mundo que mais passou por pleitos nos últimos anos, sejam as eleições para os cargos, sejam os plebiscitos de meio de mandato. Isso é dito até por pessoas que não tem nenhuma simpatia pela esquerda ou pela soberania da América Latina como o ex-presidente estadunidense Jimmy Carter. É inegável que é um processo democrático”.

Para Socorro, as ingerências sofridas pelo país sul-americano devem-se a perda de privilégios de uma elite que usufruía dos recursos do país e que deseja voltar a ter vantagens em detrimento do benefício da maioria. Ela enfatizou que é muito importante o apoio de outros países, especialmente os vizinhos. A presidenta do CMP lembrou que organismos como a “Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba), a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) são vitais neste processo de luta contra o golpismo”. 

Do Portal Vermelho,
Tayguara Ribeiro


sábado, 28 de fevereiro de 2015

Meditação bíblica para o domingo, 01 de março 2015

          Nesse 2o Domingo da Quaresma, como acontece anualmente, a Igreja nos convida a contemplar a transfiguração de Jesus no alto da montanha. Quando entrei no mosteiro, aos 18 anos, aprendi que a transfiguração era a meta de toda a vida espiritual. Transformar-se. Tornar-se como divino na intimidade com Deus. De fato, até hoje, essa cena do evangelho me toca de um modo especial, não só por ser linda e comovente, mas por conter uma revelação importante. Só que em um sentido diferente daquele que eu dava quando era jovem. Eu compreendia a transfiguração como uma espécie de antecipação da ressurreição como se "para os discípulos suportarem o caminho da cruz" que eles iriam seguir em breve, Deus houvesse aberto uma fresta no futuro glorioso para eles anteverem e assim confiarem e permanecerem fieis até o fim. Essa era a interpretação clássica comum. Hoje, eu compreendo que, de certo modo, isso é verdade no sentido oposto. Não é o anúncio da ressurreição depois da morte e sim da presença divina e da glória de Deus na própria cruz que Jesus acabara de revelar aos discípulos (Mc 8, 23 ss). Era como se aquilo que Jesus tinha dito: quem quiser me seguir tem de tomar a sua cruz, agora, o próprio Deus dissesse: ele é o meu filho amado. Escutem-no.... 
     É isso mesmo que ele falou. Eu garanto. Assino embaixo...
     Todos nós fazemos a experiência de viver uma vida inteira com uma pessoa (que pode ser um amigo, ou esposo ou esposa) e por mais que conheçamos intimamente a pessoa, ela sempre pode surpreender. Sempre pode em um determinado momento se revelar a nós de um modo novo. Foi isso que ocorreu com Jesus. Mesmo se os discípulos o conheciam e conviviam com ele todo dia, naquele momento descobriram ou o viram de um modo novo... Jesus é sempre o mesmo. Não mudou. O que mudou foi o olhar dos discípulos, dos três que ele escolheu para revelar a sua intimidade. Agora nós relemos esse evangelho para nos lembrar que todos nós, discípulos e discípulas de Jesus, somos chamados a viver essa intimidade com Jesus, mas a intimidade com ele não se vive no alto da montanha como Pedro queria (vamos fazer três tendas) e sim na luta do dia a dia, no caminho da cruz, ou seja, da missão de doar a vida uns aos outros. Que nessa Páscoa possamos dar um passo a mais na fidelidade a esse caminho. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Conversa, sexta feira, 27 de fevereiro 2015

         Quando se viaja por esse Brasil, em conversa com as pessoas na rua, no táxi e nas repartições públicas, se percebe que há um clima pesado e de tempestade que se anuncia no ar. A guerra contra o governo que, desde o começo, os grandes meios de comunicação e a elite sempre fizeram agora começa a surtir efeitos. As pessoas começam a criticar e revelar sua revolta, mesmo que nem saibam muito por que ou para que. E parece que todos os problemas nunca foram tão ruins como agora... 
          Sinto-me mal a perceber que as críticas que eu tenho ao PT e ao governo não são as mesmas que, em geral, as pessoas têm. Não vejo ninguém contra a Dilma por criar o ministério da moto-serra e do agro-negócio e sepultar de vez qualquer projeto de Reforma Agrária assumida pelo governo e pelo país. Nunca escutei desse pessoal nenhuma crítica ao governo por manter um modelo de desenvolvimento depredador da natureza e insustentável para o futuro. Também não criticam a Dilma por ter prometido dialogar com a sociedade civil e não cumprir o que prometeu. As críticas são todas à direita e vergonhosamente subservientes ao imperialismo norte-americano e ao interesse do Capital internacional. O que fazer?
         As notícias latino-americanas têm cheiro de pré-golpe na Argentina, na Venezuela e ... tomara que não no Brasil... 
             Independentemente das culpas de um governo que se comunica pessimamente e mantém como conselheiros pessoas como Mercadante, espero que os movimentos sociais acordem e antes que o Brasil seja tomado pela irracionalidade e pela barbárie, possam mostrar que as conquistas obtidas são conquistas do povo e que se criticamos é para melhorar e não para voltar aos tempos do Coronelismo e das elites que sempre mandaram no país.     

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Artigo semanal, quarta feira, 25 de fevereiro 2015

Compromisso político da fé


Em momentos nos quais o exercício da cidadania parece pouco visível e a alienação social e política toma formas que chegam até a justificar golpe de Estado, é importante refletir sobre como restituir à Política a sua nobreza e dignidade. Alguns meios de comunicação  que se alimentam cotidianamente de assassinatos e assaltos, exacerbam o mesmo sensacionalismo, ao escolher como tema recorrente e quase único a corrupção aparentemente generalizada que assola as instituições públicas. Isso pode deixar em muitos a impressão de que todo político é corrupto e a própria Política é sempre ruim. De fato, existe uma atividade que é mais politicagem do que Política. No entanto, em todas as instituições, há pessoas profundamente éticas e corretas. Essas são a maioria das pessoas. A minoria é corrupta e venal. Acontece que uma vida consagrada aos outros e pautada na ética não é notícia. A corrupção, sim, mesmo se ainda não for comprovada e,  principalmente, se a sua divulgação favorece a interesses partidários e de classe.
No atual sistema político brasileiro, infelizmente, pessoas se aproveitam de cargos e benefícios públicos para fins privados. Esse mal se implantou em nossas instituições desde a época da colônia. Tomou formas mais sofisticadas a partir dos anos 90. A maioria dos brasileiros esperava um rigor maior e uma postura diferente de um governo prometia uma nova ética e se apresentava como de esquerda ou mais popular. Todos queremos governantes que não se omitam e não compactuem com a desonestidade. No entanto, não podemos nos deixar levar por uma carga emocional que condena antes do julgamento e quer punir, sem que haja provas concretas da ilegalidade.
Sem dúvida, toda corrupção deve ser condenada, mas a mais grave não é essa que vestais da moral bradam diariamente e sem cessar nos meios de comunicação. No plano político, a corrupção mais profunda ocorre quando um partido que se apresentava como iniciativa dos trabalhadores e tinha como programa a transformação do Brasil, se acomoda ao poder e troca o projeto de um país justo e igualitário pela mera ambição de ganhar eleições e deter o poder. Para isso, metas fundamentais como a reforma agrária, reforma política e outras reformas de base são deixadas de lado. Ao fazer todo tipo de conchavo para garantir a tal “governabilidade” pelos caminhos de sempre, o governo coordenado pelo PT se comporta como a gralha da antiga parábola de Esopo. Uma gralha ouviu falar que, em um pombal vizinho, as pombas se alimentavam bem. Então, se pintou de branco, fingiu-se de pomba e foi para o pombal. Deu certo até que, sem querer, ela piou. Ao ouvir o seu granido, as pombas viram que era uma gralha  e a expulsaram. Sem alternativas, ela voltou ao meio das outras gralhas que, quando a viram pintada de branco, também não a receberam. E ela ficou sozinha, nem pomba, nem gralha. No Brasil atual, banqueiros ganham 400% de lucro ao ano. O agronegócio tem até ministério no governo. Grandes empresas de comunicação ganham milhões do próprio governo para desinformar a população e destruir o pouco que foi construído. Mesmo assim, essa elite que representa menos de 10% da população não se conforma e não acredita na gralha vestida de pomba. E ao invés de se achar contemplada por um governo que, depois de eleito, abandonou sua base social, o destrata como inimigo. Ignora todas as conquistas sociais já conquistadas e tenta divulgar que o país nunca esteve tão mal como agora. E fomenta as bases para um possível golpe de Estado para libertar o país do “terrível e perigosíssimo” bolivarianismo venezuelano ou simplesmente do comunismo cubano para o qual estaríamos caminhando.  
Na Campanha da Fraternidade de 2015, a CNBB propõe o aprofundamento da missão das Igrejas cristãs em sua inserção social e política na sociedade. O papa Paulo VI ensinava que a ação política é a forma mais nobre de se viver a caridade cristã na sociedade. O objetivo da ação social e política das pessoas que têm fé é testemunhar que o projeto divino de um mundo justo e de paz é possível. É assunto não só dos políticos, mas de todos os cidadãos e, portanto de todos/as que, em meio às lutas do mundo, querem viver em Deus. O Evangelho de Jesus nos chama para irmos sempre às raízes das questões e trabalharmos por uma transformação radical de todas as estruturas da sociedade. O programa do Conselho Mundial de Igrejas que reúne 349 Igrejas cristãs resume isso no programa: Paz, Justiça e Cuidado com a Criação.       



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Conversa, segunda feira, 23 de fevereiro 2015

          Acabei de voltar do interior de Alagoas. O pequeno mosteiro do Discípulo Amado fica a 11 km depois de Colônia Leopoldina, no norte do Estado. É a comunidade contemplativa dos missionários do campo, grupo fundado pelo padre Comblin a partir da experiência de formação dos missionários do campo em Serra Redonda, PB. Atualmente, o grupo do mosteiro tem seis pessoas fixas (homens e mulheres) e vários que se apoiam e apoiam a comunidade, passam tempo lá e outros que visitam. Um lugar lindo. Um santuário ecológico com uma mata preservada, um rio que passa na propriedade e uma cachoeira belíssima... 
       Estão completando 20 anos de inserção naquele lugar e eu fui para celebrar com eles. Ricardo, meu amigo, me levou de carro e eu fui ontem. Dormimos lá e passamos o dia com eles. A celebração eucarística que eu coordenei junto com eles foi às 15 horas e logo depois voltamos. 
      É bom redescobrir um mosteiro inserido no meio do povo, aberto à Teologia da Libertação e, entretanto, profundamente orante e fiel à tradição maior da vida monástica: a oração, o trabalho manual e a acolhida dos irmãos, tudo isso feito em uma comunidade unida e madura. Bendito seja Deus! 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Meditação bíblica para o domingo, 22 de fevereiro 2015

                Para as Igrejas antigas, esse domingo é como o portal pelo qual entramos no  coração do ano litúrgico: a celebração anual da Páscoa de Jesus. E todos os anos, a Igreja centra esse primeiro domingo da Quaresma nos evangelhos do que se costuma chamar "as tentações" que Jesus viveu no deserto. Nesse ano, escutamos o evangelho de Marcos (Mc 1, 12- 15). O relato de Marcos é o mais breve e conciso: Depois do batismo, o Espírito empurra (no texto original: joga) Jesus ao deserto, onde ele viveu quarenta dias (é o símbolo bíblico para dizer: uma vida inteira). Foi tentado por Satanás. Viveu entre os animais selvagens e os anjos o serviam. 
              É impressionante como o batismo tem como conseqüência a luta. Uma luta que para Jesus e para nós, seus discípulos, dura a vida inteira. O deserto representa esse lugar de luta. Até hoje, são em lugares desertos que os rebeldes se preparam para lutar contra os impérios. O deserto é o lugar da clandestinidade e do treinamento para a luta. Quando Marcos diz que o evangelho começa no deserto está dizendo que tem um elemento subversivo, revolucionário no evangelho. Aliás, todos os grandes líderes religiosos começaram a sua missão pelo deserto. Moisés descobriu sua vocação no meio do deserto, no monte Horeb. O profeta Elias, no mesmo monte. Jesus. Mas, antes dele, Buda, o profeta Maomé.... No Xamanismo, ninguém é consagrado sem antes ficar isolado em um lugar de riscos para combater o seu lado "sombra". Os monges, ao entrarem no mosteiro, passam um tempo de iniciação, o retiro do noviciado.
           O deserto é o tempo em que tanto o povo de Deus, como Jesus tiveram de aprender a depender de Deus e a confiar. O deserto  é importante para nos ajudar a descobrir que mesmo quando atravessamos as piores provações, quando passamos pelos mais profundos sofrimentos, podemos vencer... 
          Para isso, no deserto, Jesus nos ensina a nos libertar do pior de todos os males: o poder, como desejo de dominação. 
          E para isso, Jesus nos ensina a lutar contra as nossas feras interiores... O evangelho de hoje diz que Jesus convivia com animais selvagens. Nós também temos de aprender a conviver com os que vivem dentro de nós... 
             As tentações de Jesus foram terríveis. O povo o tentou a ser  o Messias milagroso. A família o tentou a voltar para casa e ser uma pessoa normal. Os discípulos o tentaram a fugir da cruz e usar o poder para cumprir a sua missão. E os adversários o tentaram a descer da cruz.... E as tentações mais difíceis são as que parecem mais santas, mais religiosas... 
              No deserto, Jesus teve de mudar a própria imagem que tinha de Deus. Tanto que a descrição do evangelho é totalmente contrária a do batismo. No batismo, o ambiente era afetuoso e de intimidade. No deserto, solidão e Deus parece ausente... 
                Dali ele sai, João Batista é preso. E Jesus começa a sua missão na Galileia: Mudem de vida. O reino de Deus está chegando. A conversão é uma mudança radical no mais profundo de nós mesmos. Mas, ao mesmo tempo, fazemos isso juntos como comunidade e uns ajudam os outros nesse caminho. 
               A Campanha da Fraternidade desse ano convida a Igreja inteira ao diálogo com o mundo. Nós temos de viver o diálogo entre nós, irmãos, o diálogo com as pessoas de fora, de outras culturas e religiões, assim como com os movimentos sociais que trabalham pela transformação do mundo. Nessa Quaresma e Páscoa, nos tornar pessoas mais capazes de dialogar com os outros é o nosso instrumento de conversão.   
               

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Meditação bíblica, quarta feira, 18 de fevereiro 2015

Camaragibe, quarta-feira de cinzas, 2015

“Ao ver que chegou sua hora de passar deste mundo ao Pai, Jesus, tendo amado os seus que estavam no mundo, foi até o extremo do amor (até onde o amor pode ir)” (Jo 13, 1ss).

Queridos irmãos e irmãs,

Se somos discípulos e discípulas de Jesus é para segui-lo nesse caminho de amor até onde o amor pode ir. Para isso, cada ano, os cristãos de Igrejas mais antigas celebram Quaresma e Páscoa. É um tempo oportuno para que, ao lembrar a morte e ressurreição de Jesus, cada um possa se renovar interiormente e colabore para transformar o mundo e tornar a Igreja mais pascal.
Ainda hoje, a Quaresma é associada a práticas de jejum e penitência. Quem vê de fora pode pensar na Quaresma como mera repetição anual dos mesmos textos e ritos. Entretanto, ao contrário, Paulo escreve à comunidade cristã de Roma: “Já que vos dais conta do tempo em que estamos vivendo, é hora de despertardes do sono, porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçamos a fé” (Rm 13, 11).
Quando Paulo diz que a salvação está mais perto de nós, não devemos interpretar como se se tratasse apenas da santificação pessoal. A atenção maior de Paulo é o que, no evangelho, Jesus chama de “reinado divino” ou reino de Deus, a realização do projeto divino no mundo. Não somos nós que construímos o Reino e nenhum sistema social o realiza totalmente. É graça e dom. Mas, somos testemunhas do reinado divino que começa a ocorrer no mundo e podemos colaborar com sua realização quando trabalhamos pela justiça, paz e defesa da criação, inclusive nas organizações que, mesmo defeituosamente, se aproximam ou caminham no sentido da realização do projeto divino no país ou no mundo.
No Novo Testamento, a virtude que Paulo e os apóstolos pedem aos cristãos/ãs é muitas vezes traduzida como paciência e perseverança[1]. De fato, o termo grego expressa a atitude de quem aceita ficar por baixo, humilhar-se mesmo para servir, para apoiar, para sustentar os outros. Paulo pede essa postura de todos nós, cristãos e ele justifica isso dizendo que essa é a postura de Deus. Deus se abaixa e se torna pequeno e humilde para nos servir e para no mundo realizar o diálogo da salvação. Então, o tema da Campanha da Fraternidade 2015 ( o diálogo da Igreja com a sociedade) não é apenas uma tarefa pastoral. É a própria missão da Igreja e sua forma de viver a fé. E o que nós celebramos na Quaresma- Páscoa é esse movimento de Deus humilhar-se e vir ao nosso encontro e ao encontro do mundo em um diálogo libertador.   De fato, nesse sentido, a paixão de Jesus, sua cruz, não foi apenas o momento da morte. Foi uma direção que ele deu a toda a sua vida e que corresponde a uma revelação de como Deus é e como Deus se comporta. Orígenes, pai da Igreja de Alexandria, no século III, fala na “humilhação” de Deus na história dos homens. Normalmente, não estamos habituados a falar de Deus assim como esses termos. Na Igreja de hoje, Deus aparece sempre como todo-poderoso e Senhor. Autores atuais traduzem esse movimento martirial e pascal de Jesus (que a carta aos filipenses chama de Kenosis (esvaziamento), ela é de Jesus, mas também do próprio Deus, como o esforço de inserção amorosa de Deus na história e em interessar-se e comprometer-se com os problemas humanos[2]. Sempre gostei do início do salmo 41 que diz “Com intensa expectativa, esperei em Deus que é amor. Ele (ela) se inclinou, para mim, se abaixou até a fossa em que eu jazia e dali me levantou”.
Nesse mesmo sentido, o autor da 2ª carta de Pedro chega a dizer que “essa atitude de Deus é duradoura. É como uma espécie de paciência” e a nossa salvação” (2 Pd 3, 15). Por sua vez, Paulo ensina que a tribulação, (os sofrimentos) produz a hypomonè, isso é, a perseverança (o manter-se nessa missão de inserção amorosa e como postura de abaixamento e pequenez) e essa é a esperança que nos salva” (Rm 5, 3). 
Nossa celebração da Quaresma e da Páscoa deve expressar a pastoral de uma Igreja discípula de Jesus no seu serviço à humanidade, especialmente, aos mais necessitados. Isso pede de nós atenção e maior apoio às pastorais sociais e diálogo com os movimentos populares nesse espírito de hypomonè, ou seja, serviço humilde, despreendido e amoroso[3].
Para quem é cristão, nessa Quaresma, o mais importante não é a prática de devoções penitenciais que não mudam nada na vida e sim renunciar a tudo o que for necessário e se dispor a uma maior solidariedade com os projetos que restituam à juventude do campo e da cidade uma possibilidade de vida nova e pascal. Isso também para nós será fonte de profunda alegria. No século IV, o bispo João Crisóstomo ensinava: “A Páscoa de Jesus vem fazer da vida da gente, mesmo no meio das lutas e das dores, uma festa permanente de esperança e comunhão”.
A cada um/a de vocês, desejo uma celebração fecunda e renovadora desse tempo Quaresma e Páscoa.
Um abraço do irmão Marcelo Barros   





[1] -  O termo grego hypomonè é uma combinação do verbo grego permanecer (menein) com o advérbio de lugar sob, ou embaixo (hypo).
[2] - Cf. GIUSEPPE RUGGIERI, La Verità Crocifissa, Roma, Ed. Carocci, 2007, pp.15.

[3] - Quem quiser aprofundar mais a exegese desses textos do Novo Testamento e o sentido etimológico e histórico do termo hypomonè, veja: G. KITTEL e G. FRIEDRICH, Grande lessico del Nuovo Testamento, VII, Brescia, Queriniana, 1971, pp. 56- 66 e também GIUSEPPE RUGGIERI, La Verità Crocifissa, Roma, Ed. Carocci, 2007, pp.12- 13. .