domingo, 26 de junho de 2016

Meditação bíblica, domingo 26 de junho 2016

              13o Domingo comum do ano. O evangelho é Lucas 9, 51- 62.
         Hoje à noite devo pregar na Igreja presbiteriana de Ipanema, convidado pelo meu amigo, o pastor Edson Fernandes.
          Desde os 18 anos, em toda a minha vida de monge, fui muito marcado por esse texto do evangelho. No começo, essas palavras de Jesus me pareciam muito duras e me davam medo: "As raposas têm tocas, as aves do céu têm ninho, mas o Filho do Homem não tem onde encostar a cabeça". ... "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos".... "Quem põe a mão no arado e depois olha para trás não está apto ao reino de Deus". 
        Hoje, compreendo que a radicalidade e a exigência imensa que de fato estão contidas aí não vêm propriamente de Jesus e sim da realidade. O mundo é tão adverso e as condições para testemunhar o reino são tão difíceis que não há como viver esse caminho sem essa radicalidade. 
       E o evangelho deixa claro: Jesus decide subir a Jerusalém... É a grande decisão de sua vida porque o leva à sua assunção - a sua páscoa... Começa por ir à periferia - ao povo marginalizado da Samaria - começa pela inserção no meio dos mais pobres e a tragédia é que esses não o acolhem. Jesus respeita isso e segue adiante... Nesse contexto, vem a formação dos discípulos para o seguimento.. E aí sim ele pede radicalidade, libertar-se do passado, ser inteiro naquilo que a gente se propõe a viver.... 
        Pessoalmente, a cada dia, devo lutar de novo para retomar esse caminho e fazer de novo essas opções fundamentais do seguir Jesus, custe o que custar...      

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Meditação bíblica, sexta feira, 24 de junho 2016

            Hoje, desde tempos muito antigos, as Igrejas cristãs celebram a festa do nascimento de São João Batista. Sem dúvida, essa festa é pre-cristã e tem origem nas celebrações em torno do sol pelo solstício do verão no hemisfério norte e do inverno no sul. Nesses dias, nos Andes, os índios celebram o Inti-Rami, o sol que reina de novo... Corresponde à festa do ano novo ou do Natal no Oriente antigo. As Igrejas cristianizaram essas festas dedicando-as a João Batista. 
                Atualmente, os católicos costumam ter mais devoção a Maria e a São José. Nos tempos antigos, a devoção maior era com João Batista. Além do natal de Jesus e a partir do século VIII ou IX, a festa da natividade da Virgem Maria, desde o mundo antigo, João Batista é o único santo do qual a Igreja celebra o nascimento. De fato, o evangelho de hoje dá o motivo: "Por seu nascimento, o mundo inteiro se alegrará". 
                  Quando aos 18 anos entrei no mosteiro, aprendi que João Batista é o padroeiro de todas as vocações cristãs: João é ao mesmo tempo de família sacerdotal, mas nunca exerceu essa missão. É por isso leigo e profeta... É precursor de Jesus, mas principalmente testemunha e ele mesmo se chama de "amigo do Esposo". 
                Lembro-me de quando era noviço e li o famoso livro de Jean Danielou: João Batista. Ali aprendi que João era o homem da única alegria. E era uma alegria tão imensa, essa de ser amigo do esposo e alegrar-se em ver o esposo e a esposa unidos. Isso me marcou muito. Talvez porque como celibatário eu já uni muitos irmaos e irmãs, inclusive em casamento. Tenho amigos que me agradecem por ter sido eu o elo ou o fator que aproximou os dois... E isso me acontece muito: e cada vez eu recordo isso de João Batista: eu não sou o esposo. Sou apenas o amigo do esposo e nisso consiste a minha alegria: é preciso que ele cresça e eu diminua" (Jo 3). É difícil compreender essa dinâmica do amor, principalmente em uma sociedade na qual a gente aprende sempre a querer ser maior, a querer ser o mais importante e a competir para isso... 
          Nesse contexto, há uma profecia importante em dar lugar ao outro, reconhecer a centralidade do outro e aceitar diminuir para que ele cresça.... Na fé, o outro é sempre o Cristo... 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Conversa, quarta feira, 22 de junho 2016

        Depois de uma viagem longa e na qual o motorista se enganou e andamos mais uns 60 km, cheguei a Maricá, cidade do litoral mais ou menos a uns 80 km ao norte do Rio de Janeiro.
       Cidade de tamanho médio, bem organizada, com saneamento básico e onde o transporte público (ônibus) é gratuito para todos. 
         Na entrada da cidade, a prefeitura está construindo o Hospital Municipal Dr. Ernesto Che Guevara. 
          E desde a rodovia vemos um grande painel onde está escrito:
"Nesses dias, Maricá é a capital da Utopia". Ontem começou aqui o Festival Internacional da Utopia... Na beira da praia, várias tendas enormes: acampamento da juventude e várias tendas de discussão. Na sexta pela manhã, devo participar de uma mesa redonda na "Tenda dos Intelectuais".   
         Na vinda no carro, perguntei ao motorista se ele sabia o que é utopia. Ele me respondeu: Já ouvi falar de uma doença com esse nome, mas não sei bem como é ou se é perigosa... 
          Respondi com sinceridade:          
         - De fato, você tem razão. A utopia é como uma doença. Pega a gente e não larga... É a doença das pessoas que precisam de uma esperança para viver e por isso semeiam e plantam esperanças novas no mundo.... 
         Ele concluiu:
        - Então é uma doença boa... E todo mundo precisa dela... 
        Talvez o festival devesse se chamar "das utopias", porque, embora todas tenham a mesma raiz e o mesmo horizonte último, elas se desenvolvem como ramos da mesma árvore em direções diversas. E existem utopias políticas, utopias sociais, utopias religiosas, utopias afetivas... Muitas utopias, todas filhas da mesma raiz:  a opção de não se deixar envolver pela "normose" do mundo... e apostar na fé do que não vemos, mas consagramos nossas vidas para torná-lo real... 
            Bernanos dizia que se a juventude esfriar, o mundo inteiro bate os dentes... Para ele esse calor interno que faz a juventude pegar fogo é justamente a Utopia.... na qual cremos e que queremos realizar. Para isso, começamos a ensaiá-la pouco a pouco, desde já...
             Nesse espírito, reparto com vocês um poema que anteontem traduzi do espanhol e que eu não tinha visto ainda em nenhum livro. Tirei-o de um caderno impresso artesanalmente:
                  
                     Vou passar a vida.... 

Vou passar a vida
mais ou menos inútil,
mais ou menos poeta
Não terei tido um filho,
Não terei sido magnata nem gerente de lucros,
nem pedreiro ou mecânico,
 Terei plantado algumas árvores, contadas,
e terei escrito uns livros,
muitas cartas,
 folhas, filhos ao vento.

Procura sempre que a Graça e a Ternura
enchem de vinho novo
tua ânfora de barro.
É à sua maneira que Deus mede a eficácia.
 Ama a todos os seres humanos.
Dize tuas palavras como sementes
que morrem, mas brotam.
Faze do teu coração celibatário e só
um lugar ambulante e destrancado.
uma lona de circo meio rasgada.
Deixa as digitais dos teus pés peregrinos,
como beijos em chama solitária
sobre a carne da Mãe Terra.
Pousa teus olhos quentes, já de ocaso,
como lamparinas de azeite, bem colocadas,
na vigília universal do Tempo.


[1] - Traduzi esse e outros poemas do livro em polígrafo "Todavía estas palabras", Pedro Casaldáliga, 1994.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Conversa, segunda feira, 20 de junho 2016

       O que escrevi para Thiago Damato e Fernanda, 
      (irmãos e amigos que casaram nesse sábado)                 


        Thiago e Fernanda, queridos irmãos, 
    
        O Fórum sobre Novos Paradigmas de civilização, do qual participei no começo da semana (de 13 a 14) em São Paulo me faz pensar na alegria do casamento de vocês... Esses novos paradigmas (o bem viver, a sustentabilidade, uma nova aliança de diálogo e cooperação entre toda humanidade, como propõe o papa Francisco), nada disso caminhará sem exercícios concretos nesse novo caminho. O compromisso de amor de vocês é uma parábola viva e permanente desses novos paradigmas. 
        Em si o amor de vocês não precisaria ser abençoado porque ele mesmo já é uma bênção. Como diz o texto bíblico: Deus é amor e quem vive o amor já vive em Deus e Deus vive na pessoa... Basta. 
           Jesus não inventou o casamento, já que antes dele as pessoas já se casavam e viviam o amor, mas ele deu à união de amor entre duas pessoas um sentido novo e é isso que vocês quiseram sinalizar hoje.  
       Hoje, ao reunir os parentes e amigos para esse momento especial do compromisso público do amor de vocês, vocês se propõem a fazer do amor de vocês um testemunho para o mundo todo, testemunho de que amar vale a pena e de que podemos sim organizar o mundo, a política e todas as dimensoes da vida não a partir da competição e sim da colaboração e do diálogo, não do poder de um sobre o outro e sim das relações horizontais de parceria e comunhão.
          Deus em vocês e com vocês levará a bom termo essa maravilha que ele mesmo inspirou e iniciou na vida de vocês. E eu tenho a alegria de ser testemunha disso e de, sempre que vocês quiserem, estarmos juntos nesse caminho. Deus os abençoe. 
                Um abraço forte, forte do irmão Marcelo Barros. 
 

sábado, 18 de junho de 2016

Meditação bíblica, domingo, 19 de junho 2016

         O evangelho lido pelas Igrejas nesse domingo mostra Jesus, sentindo-se fracassado em sua missão na Galileia. Ele se retirou para o outro lado do Jordão e com seus discípulos, ele provocou  uma avaliação sobre a sua missão (Lc 9, 18 - 24). 
           O que dizem as pessoas sobre mim? E vocês mesmos quem dizem que eu sou? 
           De certa forma, essa pergunta é feita a cada momento para nós: Para você quem é Jesus? 
           Essa pergunta de Jesus se atualiza para nós no cuidado de ver o espaço que Jesus ocupa no mais íntimo de nós. E essa presença nos revela melhor quem somos nós... O que há em nós dessa presença divina. 
             É essa presença divina em nós que nos possibilita reconhecer Deus presente no outro, especialmente em toda pessoa humana oprimida e que não tem sua dignidade humana e não tem reconhecidos seus direitos básicos de vida, saúde, liberdade. 
           Devemos aprender a pronunciar bem o nome, isso é, a missão e a dignidade de todo ser humano para então podermos pronunciar o nome de Deus. Como podemos não ter vergonha de falar de Deus quando não o reconhecemos nas pessoas que sofrem as cruzes de hoje em dia, exclusão social, marginalização,  condenação...? Estamos proibidos de falar de Jesus e ele proibiu seus discípulos, enquanto tivermos a mentalidade que eles naquela época tinham: sede de poder, de grandeza, de domínio... 
               No momento que Jesus perguntou quem era, os discípulos de Jesus não tiveram dificuldade de responder: "Você é o Messias, o consagrado de Deus". Ainda hoje, os padres e bispos, os catecismos pensam dizer muito corretamente quem é Jesus. Mas, o evangelho diz que Jesus proibiu os discípulos de dizerem aquilo, dizerem quem é Jesus daquela forma, expresso daquele modo. Será que hoje ele não fica ofendido ao ver o nome dele usado para tanta coisa vergonhosa (Pensemos na política dos chamados "evangélicos" e mesmos católicos que querem refazer a Cristandade medieval guerreira em nome de Jesus). 
             Os discípulos daquele tempo e também os de hoje têm dificuldade de compreender como Jesus cumpre essa função de Messias. Eles pensavam o Messias como um líder poderoso e com uma eficaz ação para libertar o povo dos seus opressores. A surpresa foi Jesus dizer que cumpriria a sua missão através da cruz. Isso significa a partir da pequenez e da marginalização e não do poder e da força. 
           Jesus proibiu que dissessem o nome dele e que falassem quem ele é. Jesus só se revela como é, quando fazemos companhia a ele no caminho da cruz. Isso hoje significa nadar contra a correnteza do mundo e às vezes das próprias Igrejas cristãs   
          Até hoje, é difícil compreender o lugar do sofrimento e da cruz em nossa missão. Na história, a Igreja sublinhou a Cruz como central na fé, mas de um modo a-histórico e alienado... Como se Deus gostasse de ver a gente sofrendo... 
          Assumir a cruz no seguimento de Jesus é assumir os sofrimentos provocados pela missão em uma luta para libertar os nossos irmãos de tudo o que os oprime. 
               O assumir a cruz não é se conformar, nem menos ainda achar que os sofrimentos são em si bons. A cruz é quando o sofrimento decorre da missão. E ela nos leva transformar a imagem que temos de Deus.  A cruz nos faz deixar de crer em uma divindade distante para viver Deus em nós e no irmão com o qual partilhamos as lutas e as dores que são conseqüência da missão. 
                 

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Conversa, sexta feira, 17 de junho 2016

       Minha vigília dessa madrugada é agradecendo a Deus o encontro dessa noite com umas vinte pessoas que moram em Brasília ou cidades satélites. Na casa dos meus amigos Luismar e Zezé vieram Ivo Poletto e Joana, dos meus velhos tempos da CPT. Arcelina, amiga jornalista que prepara uma viagem a China onde vai tentar compreender melhor a cultura confucionista e a situação dos cristãos na China... Paulo Quermes que foi noviço meu em Goiás, hoje, doutor em Ciências Políticas, está inserido no Candomblé... Mas, ao mesmo tempo continua apaixonado pelo evangelho de Jesus.  
       Também gostei de encontrar pessoas do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), da fraternidade leiga de Foucault e um casal que organiza em Brasilia os encontros dos "sem paróquia".
         Gostei de saber que, cada domingo, esse casal reúne um grupo de pessoas que ouvem juntos a palavra de Deus, partilham a vida e celebram juntos, homens e mulheres a memória de Jesus. 
      Falamos dos desafios da espiritualidade nos dias atuais. Provocaram de minha parte uma espécie de confissão pessoal. Eu contei um pouco minha evolução nesse plano, minhas questões e os desafios que vivo e que percebo... O encontro se concluiu pelo compromisso de aprofundarmos mais a mística da escuta e o compromisso de um diálogo espiritual sempre mais profundo. 
             

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Conversa, quinta feira, 16 de junho 2016

        Todo mundo fala em crise e especificamente crise econômica. No mundo inteiro, as empresas reduzem custos. O comércio menor fecha as portas. O desemprego aumenta. As pessoas que compraram bens de consumo agora têm mais dificuldade para pagar. No entanto, se olhamos mais profundamente, de que crise se trata se a riqueza bruta do mundo aumenta? Se no Brasil os bancos lucram 400% ao ano. Que crise se as riquezas dos mais ricos aumentam cada vez mais? É crise ou é estratégia usada pelo sistema para diminuir os direitos dos trabalhadores, convencer a classe pobre a aceitar a ter menos para que eles tenham mais?
          Conheci agora há pouco um caso bem exemplar. Um milionário perdeu uma irmã que vivia em comunidade religiosa com outra. E ao morrer, deixou um dinheiro bom que deveria assegurar a vida da outra já idosa. Só que não deixou especificado. O homem como irmão era o herdeiro mais próximo e levou tudo para ele. A irmã velha, sozinha e sem recursos, entrou em situação de carência. Os amigos apelaram para que ele a ajudasse (baseados no princípio de que ao levar o dinheiro todo, ele levou também uma parte a qual ele não teria direito - a parte da outra). O homem respondeu que nessa crise atual a aposentadoria dele tinha baixado e ele não está em condições de fazer caridade... 
             É exatamente isso o que os arautos da crise econômica fazem. Tiram dos pobres o que podem tirar e depois falam em crise para dizer que não podem fazer nada para mudar a situação. É preciso nos organizar para mudar a própria lógica econômica e enfrentar essa ética anti-ética do Capitalismo depredador.