sexta-feira, 27 de março de 2015

Conversa, sexta feira, 27 de março 2015

             Hoje tenho alguns dados que li sobre esse fórum social em Túnis. Calculam em 70 mil pessoas o número dos/as participantes. Eu pensava que seriam uns 50 mil. São bem mais. No livro- caderno com todas as atividades constam 1.900 atividades previstas entre workshops, conferências, manifestações e grupos de trabalho. E são 3.500 as organizações sociais inscritas que participam. Até o momento, a linha é a diretriz do fórum de ser um espaço de intercâmbio de experiências, sem nenhuma pretensão de propor soluções ou encaminhar conclusões globais - cada organização ou movimento tira a sua. 
           O fórum de Teologia e Libertação fez até aqui duas atividades, uma sobre Pluralismo e Diálogo interreligioso em vista da construção da paz do mundo (eu tive uma fala nessa sessão) e outra sobre mundo indígena e teologia pós-colonial. Hoje teremos uma sessão sobre Teologia e Política. 
                O tempo parece que vai se manter mais estável. Tomara. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Conversa, quinta feira, 26 de março 2015

            Túnis continua imersa em uma onda de frio e de chuva. De todo modo, o calor humano do Fórum Social faz da cidade um ponto de encontro de toda a humanidade. Dessa vez, não chegam a cem mil as pessoas, mas é bom vermos ao menos 50 mil de todo o mundo representando movimentos sociais e organizações que buscam um novo mundo possível. Principalmente, fico feliz ao ver uma multidão de jovens. Talvez se possa dizer que a maioria é de jovens. Ontem, ao sair do workshop do fórum de teologia, buscando taxi na rua, encontrei Chico Whitacker, um dos fundadores do Fórum e membro da coordenação internacional. E ele me contou que aqui está Henrienne de Chapponay, 90 anos, uma francesa que dedicou toda a vida dela aos movimentos sociais. E ela é sobrinha neta da princesa Isabel. Ao contrário de seus primos que vivem aristocraticamente em Petrópolis e em Santa Catarina, até tentando de vez em quando propor uma volta do Brasil à monarquia, Henrienne, que eu conheci nos anos 80, sempre dedicou toda a sua vida aos oprimidos e à causa da libertação dos povos. Hoje, participarei de dois workshop sobre povos indígenas,  pluralismo cultural e libertação. Mas, não terei de falar como conferencista, o que, ontem, me aconteceu, sem eu ter preparado bem já que não sabia que deveria apresentar ou provocar o tema do diálogo interreligioso. 
          Ontem à noite, fomos, todos nós do fórum de teologia, (umas 30 pessoas) convidadas/os para um casamento tradicional aqui. Pena que a cidade à noite tem poucos taxis, estava começando a chover e eu tive medo de ficar molhado na rua e no frio. Não fui. Teria gostado muito de participar da cerimônia de um casamento muçulmano.  

terça-feira, 24 de março de 2015

Artigo semanal, terça feira, 24 de março 2015

      Hoje, comecei o dia, às oito da manhã, celebrando na cripta da catedral de Túnis, com todos os/as missionários combonianos/as participantes do Fórum Social uma Missa em memória do martírio de Mons. Oscar Romero e com uma reflexão teológica sobre o que significa hoje uma Igreja "em saída", como propõe o papa Francisco e como fez Romero em El Salvador no final dos anos 70. 
      Gostaria de ter celebrado uma eucaristia bem mais comunitária, envolvente e como Jesus fez (ceia do Senhor), mas como fazer isso com um grupo habituado ao rito tradicional e que espera a cada momento que se despache cada ponto do ritual? Se saio do roteiro, sinto que os agrido. De todo modo, foi uma celebração verdadeira e orante. Isso é o mais importante. 
      Sobre Romero, deixo vocês com o artigo que publico nos órgãos de imprensa nessa semana: 

Romero, profeta para o mundo atual

                                                                                                                     Na América Latina, de vez em quando, nas ruas das cidades, uma loja coloca na fachada um aviso: “Precisam-se de balconistas”. Um restaurante avisa: “Precisam-se de cozinheiros/as”. Seria bom que as Igrejas também colocassem nos seus templos: “Precisam-se urgentemente de profetas”. Essa necessidade não é só da América Latina. É de todo o mundo. Para despertar essa vocação e mostrar que profeta não é coisa do passado distante, é bom nos unirmos às comunidades cristãs populares do mundo inteiro e a todo o povo de El Salvador que, nessa 3ª feira,  celebram os 35 anos do martírio do arcebispo Oscar Romero. Quando, em 1977, Romero foi nomeado arcebispo de San Salvador, capital do país, era um bispo tradicional, eclesiástico e, de certa forma, ingênuo.  Naquele tempo, havia 40 anos, o país estava mergulhado em uma guerra civil sangrenta. Um governo militar impunha uma ordem social e econômica que massacrava os mais pobres. Qualquer pessoa que contestasse isso desaparecia. Na missa de corpo presente de Romero, o bispo Artur Rivera y Damas afirmou: “Poucos dias depois da posse do arcebispo, assassinaram o padre Rutílio Grande, um de seus colaboradores mais próximos. O assassinato do padre, junto com um lavrador e um filho pequeno provocou uma mudança na atitude de Dom Romero. A partir daí ele mudou e passou a assumir a defesa dos perseguidos e a denunciar o que estava ocorrendo no país ”. Jon Sobriño, amigo do arcebispo e teólogo, declarou: “Em geral, com 59 anos, as pessoas se acomodam em suas estruturas mentais, principalmente quando se recebe cargo de poder, como é o caso de um bispo. Ao contrário, Romero foi capaz de mudar de pensamento de de modo de vida. Mudou o modo de ser bispo”. Pouco dias depois do martírio de Romero, Jon Sobriño escreveu: “Ainda que me pareça simples ou estranho dizer isso, Romero foi um homem que acreditou em Deus ”. Hoje, essas palavras de Sobrino, ao insistir que um bispo católico acreditava em Deus, ganham mais força ainda. Sobrino reflete sobre  o que significa “crer em Deus” e que consequências essa fé teve para a vida de Romero. Ele teve a coragem de crer em Deus, desfazendo as imagens de Deus unidas ao poder e ao status-quo. Para Romero, crer em Deus significou assumir radicalmente a causa de Deus, a vontade divina. Na Universidade de Louvain, o arcebispo declarou: “Estar a favor da vida ou da morte. Não há neutralidade possível. Ou servimos à vida, ou somos cúmplices da morte de muitos seres humanos. Aqui se revela qual é a nossa fé: ou cremos no Deus da vida, ou usamos o nome de Deus, servindo aos algozes da morte”.
            Monsenhor Romero trabalhou por mudanças de estruturas no país. Dizia que a pobreza extrema dos lavradores tocava no coração de Deus. Quando se nega a dignidade do ser humano se nega a existência de Deus. Por causa disso, depois de várias ameaças de morte, na tarde de 24 de março de 1980, Romero foi assassinado, quando celebrava a missa em uma capela de hospital da cidade.
O assassinato do arcebispo chamou a atenção do mundo todo. Provocou uma tal consciência mundial sobre a realidade iníqua de El Salvador que, alguns anos depois, a ditadura caiu. Desde alguns anos, o povo consegue eleger governos democráticos e mudar, em alguns aspectos, a estrutura da sociedade. A realidade do país continua sendo de grande desigualdade social. No entanto, ao menos, a violência do Estado foi superada e El Salvador vive um processo de integração no continente latino-americano e busca restabelecer a justiça para o povo empobrecido.
No mundo todo, a figura de Oscar Romero é símbolo de um profeta dos pobres e mártir da justiça. Na Catedral Anglicana de Londres, desde a celebração do novo milênio em 2000, Oscar Romero figura entre os mártires cristãos do século XX. Depois de 35 anos da morte de Romero, a Igreja Católica conta agora com o papa Francisco. Ele insiste que os bispos e padres recoloquem a Igreja no caminho da profecia e deem prioridade à solidariedade aos mais empobrecidos do mundo. Nessa linha, ele decidiu retomar o processo de canonização de Romero que estava, há anos,  parado. De certa forma, isso interessa menos aos cristãos da América Latina, para os quais, desde sua morte, Romero é chamado de “São Romero das Américas”.
A América Latina assiste, hoje, a uma verdadeira ressurreição de muitos povos indígenas, há décadas, considerados em extinção. Existe no mundo inteiro uma articulação de movimentos sociais que buscam um novo socialismo democrático para o século XXI. Atualmente, esses grupos se sentem ameaçados pelas pressões das elites sociais, políticas e econômicas que continuam impondo suas armas e o seu modo de organizar a sociedade contra os pobres e contra a natureza. Esses movimentos sociais e a própria Mãe Terra podem continuar proclamando as palavras que no domingo, véspera do seu martírio, Monsenhor Oscar Romero falou em sua homilia: “Frequentemente tenho sido ameaçado. Como cristão, não creio em morte sem ressurreição. Se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho” (…) Ofereço a Deus o meu sangue pela libertação e pela ressurreição do meu país. O martírio é uma graça que não creio merecer. Mas, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade e o sinal de que, em breve, a esperança se tornará realidade. (…) Um bispo vai morrer, mas a Igreja de Deus que é o seu povo não morrerá nunca”.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Conversa, segunda feira, 23 de março 2015

                A chegada a Túnis é bela, quase como quando o avião chega no Rio e a gente vê a baía da Guanabara em muito de sua extensão. Túnis também fica em uma baia (bem menor do que a da Guanabara)  no Mar Mediterrâneo. O aeroporto fervia de gente por causa do Fórum Mundial. Filas de horas e horas. Nós brasileiros podemos agradecer ao nosso governo o fato de ter criado uma nova relação com os países da África. Aqui brasileiro não precisa de visto. Pode entrar diretamente só carimbando o passaporte na polícia de entrada. 
          As ruas mais ou menos ordenadas, as casas todas pintadas de branco e a maioria com terraço no telhado (não têm telhas). Cidade que lembra algumas de nossas cidades latino-americanas ou Recife do meu tempo de criança. Só que com um VLT (um trem de superfície) super moderno e correndo pela cidade em várias direções. Uma beleza. E aí menos carros nas ruas e muita gente nas praças. 
       Dizem que Túnis é a mais ocidental das cidades árabes. Não posso fazer essa comparação porque não conheço muitas. Mas, aqui me pareceu interessante o fato de ver de tudo, desde as mulheres vestidas de preto e com burca - não se vê nada do seu corpo - até muitas moças vestidas da forma ocidental. Moças e rapazes de braços dados, de mãos dadas nas ruas e muitos bares e vida social. 
        No final da tarde, fui a uma celebração na catedral, ou melhor, na cripta da catedral, uma capela pequena. Missa para umas trinta pessoas. A maioria migrantes. Aqui os cristãos não chegam a 1% do país. E eu acho bom conhecer um país onde o Cristianismo é assim tão minoritário... Quem sabe isso nos ajude a conviver melhor com os outros... 
       Hoje, começou o fórum dos teólogos sobre a teologia pluralista e o diálogo entre as religiões. Também o fórum dos combonianos que me acolheram bem e até me hospedam. Com eles amanhã celebrarei a memória de Oscar Romero e falarei sobre o diálogo entre as religiões. 

sábado, 21 de março de 2015

Meditação bíblica para este domingo, 22 de março 2015


         Estou em Verona me deslocando a Milão onde passo um dia com os amigos do grupo de Busto Arsísio e embarco amanhã cedo de Malpensa para Túnis, afim de participar do Fórum Social Mundial (o 15o) e nele do fórum de Teologia e Libertação, no qual terei um grupo de trabalhos sobre o diálogo inter-religioso. 
        Às pessoas que ao ouvirem falar do atentado terrorista que houve em Túnis se perguntam se o Fórum continua marcado, respondo sim. Igual. Dizem os companheiros que estão ali que foi um ato isolado. Não devemos ter medo. O importante é darmos o testemunho que Deus pede de nós. Vou com toda confiança. Hoje, lhes deixo com uma reflexão sobre o evangelho de amanhã do qual gostei muito: 

Domingo, 22 de Março de 2015: 5º Domingo da Quaresma - Ano B

Comparando-se ao grão de trigo, Jesus aborda com confiança e esperança o tema da sua morte, porque a vê como o dom da sua vida, um dom que será fecundo e que fará nascer uma colheita inteira de discípulos.

Textos deste Domingo

Entre dois povos, entre duas Páscoas
O evangelho proposto hoje é desconcertante. De fato, quando os discípulos anunciam a Jesus que os Gregos desejam vê-lo, sua resposta parece absolutamente deslocada; é como se falasse de outra coisa. Busquemos descobrir a coerência deste texto. Para isso, notemos, em primeiro lugar, a insistência na geografia. O evangelista assinala que o episódio situa-se em Jerusalém, a cidade que mata os profetas, mas que é também a «metrópole dos povos». Lembra que Filipe é de Betsaida, fazendo questão de precisar ser esta uma cidade da Galiléia, «a Galiléia dos pagãos» (Mateus 4,15). Filipe, sendo galileu, está bem situado para servir de mediador entre Jerusalém e os Gregos, os estrangeiros. O texto assinala imediatamente que estes tinham vindo para a celebração da Páscoa. O quadro cultural e étnico está, portanto, muito bem delineado (os pagãos, a Galiléia, Jerusalém, a judaica). E o quadro temporal também: a Páscoa. Jesus vai anunciar que esta, de qualquer forma, é a última Páscoa da série que havia começado no Êxodo: «A hora chegou de o filho do homem ser glorificado.» É a hora em que os tempos se cumpriram e tudo o que o primeiro Êxodo significava e profetizava será desvelado. A Páscoa antiga não é suficiente para os Gregos, pois eles pedem outra coisa: ver a Jesus. Eles, por aí, antecipam de qualquer forma a Hora que vem chegando e que irá revelar Jesus em toda a sua glória.

A hora da glória
Como se tem repetido, o tema da glorificação comporta uma espécie de «publicidade»: a glória é a manifestação da verdadeira face de Deus, até aqui velada ou deformada. Por que esta deformação? Ela vem de uma mentira encastelada no fundo das nossas consciências, a mentira que o livro do Gênesis põe na boca da serpente: Deus, quer dizer o Ser que nos faz existir, não é amor, mas avareza, egoísmo. Os pagãos, todos os homens, vão agora fazer sua a verdade sobre Deus, verdade que vem dos Judeus e é precisamente por isso que o episódio se situa em Jerusalém. Deus vai receber, portanto, a sua devida glória. E isto se realiza pela glorificação do Cristo. Mas é aí que as coisas se complicam: a Glória do Pai e do Filho vai se manifestar pelo seu contrário, a ignomínia da cruz. Para o evangelista, ser levantado da terra significa a uma só vez estar suspenso na cruz, ser posto em evidência, exposto aos olhares de todos e conhecer uma «elevação» que coloca o Cristo acima de toda criatura. De modo implícito, temos a serpente de bronze, fonte de cura para todos os que levantam os olhos para ela (Números 21,8; João 3,14 e 19,37; Sabedoria 16,5-7; Zacarias 12,10). De toda forma, Jesus se fez serpente, figura dos nossos males e aflições. Por isso é que se fala de «cruz gloriosa». Mas por que seria necessário ter a glória de Deus vindo até nós sob o aspecto da decadência?

A imagem do Deus invisível
Se o conflito dos irmãos inimigos ocupa tanto espaço na Bíblia, é porque este é o drama maior da história humana. Cristaliza-se na hostilidade recíproca entre o judeu e o pagão. Esta hostilidade se concretiza na sujeição ou no assassinato do adversário, no ódio cego e no desprezo. Se a Bíblia permanece atual, é exatamente porque este litígio sangrento está longe de ter terminado: guerras, opressões, revoltas, são as matérias privilegiadas dos nossos jornais. Deus, que é a nossa origem e a nossa verdade, entra neste universo desapossando-se de todo o prestígio, de todo o poder; tomando o lugar das nossas vítimas. O Cristo dá a sua vida, manifestando com isso que Deus é dom de si mesmo e não vontade de dominação. Esta é a última verdade sobre Deus, a sua glória: Ele é Amor. Só podemos dizer que existimos de verdade na medida em que aceitamos ser criados à sua imagem e semelhança, ou seja, colocando os nossos passos nos passos do Cristo, que é «o ícone do Deus invisível». Olhando-O, estamos vendo o próprio Deus, assim como Ele é. Ao termo da nossa estrada criadora, não haverá mais conflito possível: Paulo repete não haver mais nem Judeu nem Grego. Esta é a hora da glória: os Gregos também são convidados a ver Jesus, a olhar para aquele que, juntos, todos temos transpassado. Se devemos extrair de tudo isso uma regra de conduta, podemos nos perguntar onde estão hoje os nossos Gregos? Onde, os nossos Judeus? Onde estão os que pregamos na cruz do nosso desprezo?

Marcel Domergue, jesuíta (tradução livre de www.croire.com  pelos irmãos Lara)
esse texto é distribuído pelo Centro Dr Alceu Amoroso Lima - Petrópolis, RJ.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Artigo semanal, quinta feira, 19 de março 2015

A laicidade e o sagrado


De acordo com a Constituição, o Brasil é um país laical, isso é, não tem nenhuma religião oficial. Respeita a diversidade de crenças e defende a liberdade de todos os cultos. Reconhece e garante os direitos de todos os cidadãos, religiosos ou não, brasileiros e estrangeiros que vivam ou estejam entre nós, unidos pelo laço comum de sermos cidadãos da mesma família humana e membros da comunidade dos seres vivos que habitam o planeta Terra. No entanto, até as pedras sabem que, ainda no Brasil de hoje, a religião continua a ter um poder imenso sobre os destinos da sociedade e, uma vez ou outra, é usada para fins políticos e interesses individuais ou grupais que nada têm a ver com o projeto da fé. Nesses dias, está novamente em discussão, um projeto de acordo entre a Igreja Católica, representada pelo Vaticano e o Estado Brasileiro. Em tempos não tão remotos, uma Concordata semelhante garantia alguns privilégios especiais para as instituições católicas no país. Ao mesmo tempo, sabe-se que alguns grupos visam tornar o Brasil um país de cultura “pentecostal”. Na Câmara, uma bancada de deputados se auto-intitula “evangélica”. Sem maiores preocupações éticas e em nome da fé, esses deputados vetam projetos que lhes parecem contrários ao modo como eles compreendem ao pé da letra alguns preceitos bíblicos, enquanto fazem questão de esquecer outros. E, ao mesmo tempo, como se fosse uma missão sagrada, defendem os interesses das empresas que financiaram suas campanhas ou de seus grupos ditos religiosos.  A dificuldade de relacionar a laicidade dos Estados com as questões religiosas não existe somente no Brasil. Atualmente, em vários continentes, aparecem sob a forma de fortes tensões e violências. Em países como o Senegal e o Paquistão, muitas pessoas foram feridas e algumas mortas em conflitos inter-religiosos. Na Nigéria e em outros países africanos, dezenas de Igrejas cristãs, principalmente evangélicas, foram incendiadas e muitas pessoas foram assassinadas. Cristãos africanos pagaram um preço alto porque alguns jornais da Europa, considerada pelos muçulmanos fundamentalistas, como cristã, insultam Maomé e os princípios da fé islâmica. Da mesma forma, minorias islâmicas são discriminadas e perseguidas em alguns países da Europa e em algumas regiões da Índia. Na Irlanda ainda persistem conflitos culturais e políticos que se manifestam como divisão entre católicos e protestantes.
Na Europa ocidental, uma boa parte da sociedade política e cultural considera que as religiões estão moribundas ou mesmo acabadas. Por isso, sentem-se com o direito de insultar a fé das pessoas e usar o nome de Deus como motivo para chacota e caricaturas de cunho pornográfico e de baixo calão. E defendem esse modo de proceder como direito e liberdade de expressão. Em nome da laicidade, o governo francês proíbe que a mulher muçulmana use o véu islâmico nas ruas e ambientes públicos. No entanto, as freiras católicas viajam de trem ou avião, com o véu religioso e nenhuma foi acusada de desrespeitar a lei.
Arautos do Capitalismo veem nesses conflitos um choque de civilizações. Na verdade, é apenas um choque de cinismos e simplificações racistas. No Brasil, feriados religiosos ainda são impostos a todo país, mas contanto que eles sejam católicos. Em muitos lugares, para não perder o emprego, adventistas do sétimo dia são obrigados a trabalhar no sábado. E quase a cada dia, um templo de algum culto afro-brasileiro é vítima de violência e preconceito.
Ao celebrar nesses dias a Quaresma, as Igrejas mais antigas leem textos do evangelho como as acusações de Jesus contra os sacerdotes do templo que exploravam viúvas pobres e ensinavam que Deus precisa de sacrifícios para abençoar e proteger as pessoas. Jesus revelou que o mais sagrado de tudo é a vida. Deus mora no coração de todas as pessoas humanas e pede a cada um/uma de nós descobri-lo no outro, no respeito às outras culturas e religiões, como no cuidado com a natureza e na comunhão com todo ser vivo. 



terça-feira, 17 de março de 2015

Conversa, terça feira, 17 de março 2015

              Nesses dias, o papa Francisco fez uma surpresa. No segundo aniversário da sua eleição para bispo de Roma, ao invés de ficar olhando para trás e comemorando os dois anos passados, ele propôs uma coisa nova para o futuro: propôs um jubileu extraordinário a partir de 08 de dezembro, dia em que se encerrou o Concílio Vaticano II (há 50 anos, em 1965, portanto é um jubileu) e que durará até novembro de 2016. O papa propõe que será o Jubileu da misericórdia, ou seja, não para pensar em grandes encontros em Roma, como foi o do ano 2000. Não para voltar à questão das indulgências, etc, mas para aprofundar como viver na missão e na relação de todo dia as conseqüências da misericórdia de Deus. É claro que há o risco de ser mais uma campanha como tantas outras que já vivemos na Igreja e que no fundo passam. Pessoalmente, espero que esse jubileu nos ajude a aprofundar uma nova imagem de Deus. Sinto que na liturgia da Igreja e na prática da maioria dos católicos ainda persiste mais uma imagem de Deus como Deus da lei e da ordem do que Deus Amor que nos acolhe em sua misericórdia como uma mãe acolhe os filhinhos em seu colo. 
          No mesmo dia 08 de dezembro, completarei 50 anos de minha profissão de monge. Ainda não sei muito como agradecer a Deus esse tempo vivido e o que devo prometer a ele com relação ao futuro que sinto que será breve, mas quero que seja intenso. Tomara que esse clima do jubileu me ajude também nisso.