domingo, 22 de maio de 2016

Meditação bíblica, domingo 22 de maio 2016

         Hoje, a Igreja Católica, Luterana e Anglicana celebram a festa da Santíssima Trindade. Uma festa criada na Idade Média para acentuar o dogma trinitário. Como a festa do Corpo e Sangue de Cristo que os católicos celebram na próxima quinta feira, é mais uma festa de um tema ou ideia do que de um fato da salvação. A liturgia antiga celebrava fatos. Era memória do nascimento, do batismo, da transfiguração e da morte e ressurreição de Jesus. 
        Talvez, possamos dizer que se quisermos descobrir um fato por trás da fé na Santíssima Trindade, teremos de dizer que esse fato é o Amor. Deus é amor e nos mergulha nesse amor divino para ser vivido nos nossos amores de cada dia... Assim como a natureza de Deus é amor, nossa essência mais profunda é o amor. E somos fieis a nós mesmos quando vivemos o amor. Nós viemos à vida por uma relação amorosa, recebemos de Deus a respiração - o seu próprio sopro - o Espírito. De fato, nosso primeiro ato ao viver é respirar e será o nosso último ato na vida: a respiração. E já que recebemos o poder de respirar por nós mesmos, podemos receber outras inspirações, mas queremos respirar pelo sopro divino do amor. Esse amor vem de uma fonte única que é o Pai, Pai de amor maternal. Ele nos dá o seu Espírito, mãe de ternura, através de Jesus, nosso irmão.  
             O evangelho de hoje é tirado das palavras de Jesus aos discípulos durante a última ceia (Jo 16, 12- 15). Sempre me impressiona muito a ternura e carinho com os quais Jesus fala aos discípulos na ceia. Como peço a Deus a graça de que as nossas celebrações, a missa que eu celebro com os grupos que acompanho, se tornem de novo esses momentos de ceia amorosa de Jesus - sinal da sua doação total às pessoas que ele ama. 
           "Tenho ainda tantas coisas para lhes dizer, mas vocês não estão preparados para carregar esse peso".  É o Espírito que vai nos abrindo o caminho para a compreensão e a vivência da revelação divina. E à medida que a gente puder "carregar", viver essa responsabilidade de sermos discípulos/as de Jesus no mundo. É o Espírito que nos torna capazes de ver o mundo sob os olhares de Jesus, saber de que lado nos posicionar nas questões sociais e políticas e como viver a fé como dom de amor solidário a todos os seres humanos, especial e prioritariamente, aos mais pequeninos e marginalizados do mundo. 
        O dogma da Trindade é uma forma antiga (da cultura grega) de dizer que Deus é amor e comunhão. Ultimamente, testemunhei uma forma muito real de se dizer o que é a fé na Trindade. No domingo passado, quando me encontrei com 44 pessoas que na região do norte da Itália vivem um caminho comunitário, seja entre casais que moram juntos, jovens, sejam entre outras pessoas que buscam formas de vida comunitária, a primeira pergunta que fiz a eles foi sobre a partir de que motivação eles e elas tinham caminhado para a comunidade. Tinha sido através da opção social e política? Ou através da contracultura? Ou a partir da fé? E todos/as ali me responderam sem hesitar que tinham decidido isso em sua vida por causa da fé e a partir da fé. É isso o que significa crer na Trindade. 
                      


sábado, 21 de maio de 2016

Conversa, sábado, 21 de maio 2016

         Cheguei de viagem muito cansado e com um resfriado forte e desagradável. Hoje, me levanto um pouco melhor. A consciência das tarefas a cumprir e dos muitos trabalhos de comunicação me ajuda. Hoje, recebi um email do querido amigo Carlos Brandão nos convidando hoje à noite para sair às ruas e contemplar a lua cheia. E ver vários planetas (Marte, Vênus e Júpiter), como que aninhados em torno da lua. Carlos nos convida a desligar a televisão e contemplar essa maravilha da natureza. 
         Penso nas culturas que adoravam a lua. Na associação que alguns povos indígenas fazem entre a lua e a deusa mãe da vida. Na América Latina, algumas devoções a Maria começaram como cultos à lua e o Cristianismo os transformou. 
           Ao olhar o céu estrelado, penso nos milhões de anos em que a luz de uma estrela viaja até chegar aqui. De certo modo, olho o céu hoje, não como ele está hoje, mas como era há milênios. Isso me ensina a relativizar os nossos problemas atuais. O que são as questões de hoje diante desse universo imenso e que continua a sua trajetória apesar de todos os erros da humanidade? 
         É claro que o pranto de uma mãe que chora um filho que morre não é sem importância diante de Deus e não pode ser para nós. Cada dor humana atinge o universo todo. Mas, não como se fosse parar a história e sim para nos comprometer a torná-la melhor e mais humana e feliz. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Conversa, terça feira, 17 de maio 2016

     A coordenação dos bispos do Nordeste me fez antecipar um dia a minha volta da Itália e aceitar participar do encontro que os 20 bispos do NE II decidiram fazer em Campina Grande, PB, para comemorar os 60 anos da primeira conferencia dos bispos do NE quando, sob a coordenação de Dom Helder Camara, propuseram a criação da SUDENE. O tema que me pediram para falar é "A missão da Igreja em relação ao Semiárido". Preparei-me, escrevi 14 páginas de um artigo sobre isso, antecipei de um dia a minha volta (viajarei amanhã), paguei multa em companhia aérea e aceitei fazer uma viagem mais cansativa para atendê-los. Agora me chega, de última hora, o aviso de que o encontro foi suspenso. E a razão é o momento político que o Brasil está vivendo. Segundo os bispos que decidiram suspender, não há clima de diálogo para fazer o encontro. Fico espantado com dois fatos:
        O primeiro é que me pareceria que se o momento atual é de crise e de apreensão, deveria ser mais do que nunca oportuno se encontrar e refletir sobre o que está acontecendo. Então, o golpe parlamentar que o Brasil está vivendo deveria ser uma razão maior ainda para fazer a reunião e não para adiá-la. 
          A outra coisa é que se se diz que não há clima de diálogo, isso significa que a divisão não é somente no meio do povo, anestesiado pela Rede Globo e lobotomizado pela VEJA. A divisão é também no meio do próprio episcopado e dos organismos de Pastoral da Igreja. De um lado, compreendo que seja assim. Estamos todos no mesmo plano. Somos todos brasileiros. E se o povo está dividido, nós também. Mas, seja como for, imaginava que, ao menos os pastores se deixariam tocar pela voz das pastorais sociais e dos movimentos populares que, graças a Deus, não estão divididos. Sabem que estamos diante de um golpe e que o vencedor é o governo dos Estados Unidos da América do Norte. 
         

domingo, 15 de maio de 2016

Meditação bíblica, domingo, 15 de maio 2016

         Hoje, celebramos Pentecostes, o último dia da festa pascal (o 50o dia). Para o Judaísmo, Pentecostes é a festa das colheitas. Nós, cristãos, somos chamados a colher os frutos do tempo pascal e a receber a plenitude da ressurreição de Jesus que é o Espírito Santo. 
          Que alegria crer que "o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm 5, 5). 
           Começo esse dia cantando "O Espírito do Senhor, o universo todo encheu. Tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor, aleluia, aleluia". E agradeço a Deus ter me dado essa imensa graça de perceber a sua presença e a sua atuação em todas as religiões e culturas e poder contemplar a sua açao nos outros e na humanidade, independente de Igreja. E crer profundamente que a profecia continua viva e ativa em nosso mundo, hoje, E até me sentir chamado a viver isso, mesmo no meio de minhas fragilidades. 
          Agradeço a Deus poder ter convivido com profetas como Dom Helder, Dom Tomás Balduíno e ainda poder dizer que sou amigo de um profeta como Pedro Casaldáliga... Mas, também da Mãe Stella de Oxossi em Salvador, da Monja Cohem em Sao Paulo e assim por diante... 
            Dá-me, ó Deus amor, a alegria de reconhecer o teu Espírito como Axé nas culturas afro, como Pachamama, nas culturas andinas e de outros modos como ele quiser se apresentar. 
              Quero sim estar com os discípulos e discípulas de Jesus novamente no cenáculo e recebê-lo ressuscitado no meio de nós. E como os discípulos no evangelho lido nesse dia (João 20, 19- 23), sentir uma imensa alegria ao "ver" o Senhor. E receber dele a paz, o perdão dos pecados, a alegria de ser testemunha e instrumento do perdão divino e para isso receber o próprio Espírito Divino... 
                Vem, Espírito Santo... vem... 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Conversa, sexta feira, 13 de maio 2016

     Hoje, em Pinerolo, começo as atividades com o grupo bíblico sobre o evangelho de João, última etapa dessa minha viagem ao norte da Itália. Uno-me a todos os brasileiros que no dia de ontem sofreram um golpe de Estado, dado pelos parlamentares do Senado e da Câmara e com apoio do STF. Com todas as críticas que tenho à presidente Dilma e ao modelo de governo que o PT significou nesses anos, sofro com todos os brasileiros conscientes um golpe de Estado que nos leva mais ainda para a direita, nos isola da causa latino-americana e entrega de novo nossa economia nas mãos do império. Não posso deixar de pensar que nesse dia 13 de maio, lembramos a abolição da escravatura, cuja instituição foi exatamente produto de uma economia de mercado que justificava tudo. "Sem escravos, como podemos produzir?". Hoje, ainda a economia continua fazendo isso: sem a exploração do trabalhador, o patrão não tem como ter o lucro excessivo que busca. E no plano dos países e Estados, é preciso ter países subordinados e colonizados para o lucro do mercado dominador. É para isso que o Brasil volta hoje. Deus tenha piedade de nós e da América Latina. 

domingo, 8 de maio de 2016

Meditação bíblica, domingo, 08 de maio 2016

        Hoje, celebramos a festa da Ascensão de Jesus. É o próprio mistério da ressurreição olhado em sua meta final. Jesus é assumido totalmente por Deus. A linguagem tradicional dizia: Jesus subiu ao céu. Essa antropologia espacial predominou por séculos na Igreja. E a gente celebrava a partida de Jesus ao céu. 
             É estranho fazer festa quando alguém parte. Normalmente a partida de uma pessoa amada nos deixa tristes. Jesus disse aos discípulos: “Vocês ficarão tristes e chorarão. Mas eu hei de ver vocês outra vez e aí a tristeza de vocês se transformará em alegria e uma alegria tão grande que ninguém poderá lhes roubar”.
         A alegria da Ascensão é primeiro porque sabemos que Jesus não partiu. Apenas desapareceu dos nossos olhos e continua conosco no dia a dia da vida.
        Se falamos em Ascensão é porque cremos que ele foi assumido plenamente por Deus. Sua vida foi recebida em Deus. E nele Deus assumiu toda nossa humanidade. O prefácio popular da Ascensão, composto por Reginaldo Veloso, canta: 
       “Os anjos aplaudem cantando: no céu o ser humano chegou”.
        Minha vida interior e a maneira de olhar o mundo e a mim mesmo mudou desde que descobri mais profundamente a centralidade do mistério pascal na minha vida de fé. Toda a minha espiritualidade e minha opção de vida se baseia na ressurreição de Jesus e isso faz com que, mesmo no meio das maiores lutas e mesmo quando passei por sofrimentos intensos e incompreensões na minha comunidade e na Igreja, nunca perdi a dimensão mais profunda da paz e da alegria interior.
          Ao assumir consigo Jesus, Deus o assumiu totalmente. Assumiu nele a sua natureza humana. Assumiu a carne que é a mesma nossa. Assumiu nele toda a humanidade e mesmo todo o universo, como chama São Paulo, o Cristo que toma as dimensões de tudo e de todos: O Cristo cósmico. Por isso, a festa da Ascensão não é apenas a vitória definitiva de Jesus. É também a festa da divinização de nossa vida, de nossas dores assumidas por Deus, de nossas lutas que nele se tornam energias de vitória... A ascensão de Jesus nos faz ver de outro modo e com um olhar novo o presente e o futuro do mundo, a realidade política do nosso país tão sofrido e novamente agora nas mãos do Império dos Estados Unidos. A ascensão de Jesus nos faz viver a mística, a intimidade do reino de Deus. Aleluia. 
                        

Pela ascensão de Jesus, eu creio profundamente que toda a humanidade e todo o universo     

sábado, 7 de maio de 2016

Conversa, sábado, 07 de maio de 2016

           Ontem, desembarquei de um voo da Swissair em Zurich na Suiça e, duas horas depois, de outro voo que me trouxe à Florença. Ontem ainda, em uma paróquia de Prato, cidade da Toscana, tive um encontro com quase cem pessoas sobre espiritualidade ecológica no sentido da ecologia integral, proposta pelo papa Francisco na encíclica Laudatum sii.
            Ao viajar assim, a gente faz a experiência de passar por fronteiras. As fronteiras são muros invisíveis, mais fortes e difíceis de transpor do que muros de pedra ou cortinas de ferro. Muros que separam povos e culturas. Muros erguidos contra o outro e para isolar países uns dos outros. 
             É verdade que nossa cultura tem sido cada vez mais fundamentada em muros altos e portões fechados para o que se chama de segurança. Conheço um jovem, coração bom e generoso, mas que ganha a vida vendendo sistemas de segurança, alarmes e telas de vigilância e se o comprador quiser, cercas elétricas que não são cadeiras elétricas, mas também matam quem nelas ousar tocar. 
             Ante-ontem, em São Paulo, meu sobrinho me fez conhecer o tal aplicativo UBER. Tomei um carro da Uber que me levou ao aeroporto. O preço é menos da metade do taxi comum. E com conforto e segurança. Tenho pena dos taxistas pobres que não vão conseguir sustentar a concorrência. E no Uber há duas alternativas: um carro privado para você ou, se preferir, um carro compartilhado que sai bem mais barato. Mas, o motorista que me levou ao aeroporto me explicou que as pessoas estão reagindo: Vou viajar em um taxi junto com pessoas que nem conheço? Certamente essas pessoas vão preferir também um ônibus privado e um avião privado já que não conhecem os passageiros ao lado dos quais viajam. Veem o outro como eventual ameaça e até como inimigo em potencial. 
           No mundo do final da segunda guerra mundial e no começo dos anos 50, no mundo inteiro havia cinco muros que separavam povos e territórios internacionais. Cinco. Atualmente são 65 muros e grades invioláveis e que separam fronteiras em todo o mundo. (Fonte: revista Mosaico di Pace, fev. 2016). O Comissariado da ONU para os refugiados acabou de publicar que, atualmente, estima em 175 milhões de pessoas que saem de seus países para sobreviver. De acordo com as leis internacionais, essas pessoas teriam direito de asilo e de viver em outros países. Na prática, encontram muros e portões fechados. E em alguns países, são presos e deportados para morrer em sua terra. A Europa e EUA atacam a Síria e destroem o país. De dois anos para cá, 110 mil pessoas tentaram sair de lá para sobreviver. São proibidos e obrigados a voltar às ruínas de um país destruido e em guerra. 
        O sistema capitalista dos países ricos que dominam o mundo destrói a natureza. De três anos para cá, se contam em 32, 4 milhões de pessoas obrigadas a abandonar a própria casa em conseqüência de desastres naturais... A maioria delas está em campos de concentração fora dos muros e fronteiras criados pelo desamor humano. O papa está gritando e apelando contra o comércio das armas, as políticas financeiras responsáveis pelo empobrecimento e desemprego de milhões e pedindo que se retome uma cultura de acolhida e diálogo sem a qual o mundo vai mergulhar na tragédia de uma guerra sem fim...