1º Domingo da Quaresma – ano A: Mt 4, 1-11
O evangelho convida a viver, hoje, a espiritualidade do deserto, para melhor preparar-nos para as festas pascais.
Conforme os evangelhos, no deserto, Jesus enfrentou as tentações. Tentação não significa uma prova a vencer. Não se trata de teste, no qual escolhe-se entre o bem e o mal. Tentação significa a escolha de um projeto de vida. Muitas vezes, temos de discernir entre duas ou diversas alternativas. Jesus sempre teve de escolher. Cada escolha tem vantagens e limites. Cada escolha pode até ser vista como sendo agradável a Deus. É a partir desse olhar que convido vocês a lerem esse evangelho. De acordo com a Bíblia, o antigo povo de Deus foi tentado no deserto. A Bíblia conta que, ao sair da escravidão do Egito, o povo hebreu passou 40 anos no deserto e ali teve de definir o seu projeto de sociedade. Assim também, durante toda a sua vida, Jesus teve de enfrentar tentações. Mateus conta as tentações de Jesus no deserto, como um “haggadá”, conto bíblico que ecoa as tentações do antigo povo hebreu no deserto.
Conforme o evangelho, Jesus passa 40 dias no deserto. Ali, teve de enfrentar e vencer as mesmas tentações do antigo povo hebreu que, depois de sair da escravidão no Egito, precisou atravessar o deserto. Também nos anos 80 do primeiro século, portanto, mais de quarenta anos depois da morte de Jesus, as comunidades cristãs, para quais o Evangelho de Mateus foi escrito, enfrentaram tentações.
Na tradição budista, também o monge Sidarta Guatama, o Buda, é tentado por Mãra, quando estava sentado sob a árvore da iluminação. Tanto esse episódio que a tradição budista conta sobre Buda, como o relato dos evangelhos sobre as tentações de Jesus no deserto são narrativas simbólicas e tratam da luta interior existencial que todo ser humano tem de enfrentar entre as tendências egóicas e a renúncia que abre o ser à dimensão do que a linguagem budista chama do “despertar” ou “iluminação” e os evangelhos apresentam como algo não só pessoal, mas coletivo, como algo não somente interior, mas social e político e caracteriza o projeto divino para o mundo.
Para Jesus, as tentações que o evangelho de Mt 4,1-11 retrata não foram tentações pessoais, no sentido do orgulho, da vaidade, ou de outra virtude moral. Jesus foi tentado sobre que caminhos tomava para garantir a vitória da sua missão de trazer ao mundo o projeto divino. Ele tinha de escolher como deveria agir para garantir que o reinado divino do qual ele deveria apressar a vinda, não fracassasse.
Conforme o evangelho, ao ser batizado, Jesus descobriu ser filho de Deus. Na cultura greco-romana, isso foi compreendido no sentido de que Ele tem a mesma natureza de Deus. Na cultura de Jesus e dos evangelhos, ser filho de Deus era ser alguém que o Pai delega ao mundo para realizar o seu projeto para a humanidade. Ao ser batizado por João Batista, Jesus assume essa missão de enviado de Deus ao mundo, como profeta. Ao sair do batismo, o Espírito Santo empurra-o para o deserto, ou seja, para a solidão consigo mesmo, afim de decidir como iria cumprir essa missão. Conforme o evangelho, cada vez que Satanás o tenta, começa dizendo: Se tu és o filho de Deus... De fato, conforme esse evangelho, o diabo propõe a Jesus um modo de ser filho de Deus a partir do poder, a partir do milagre e a partir do religioso. O poder facilitaria muito a realização da missão. Se ele pode fazer milagre, prova publicamente que Deus está do seu lado. No entanto, Jesus percebe que se tratam de três tentações ligadas ao poder. Como garantir que o projeto divino para esse mundo não fracasse, se, por amor, Jesus sente-se chamado a renunciar ao poder religioso e ao poder social e político?
Na versão dos evangelistas Mateus e Lucas, Satanás apresenta-se como aquele que tem o poder sobre o mundo. Ele diz claramente: “Tudo isso é meu e tudo isso te darei, se tu me adorares”, ou seja, te curvares diante de mim. Cada vez que religiosos curvam-se e servem a poderosos do mundo e a seus interesses, cedem à tentação. O evangelho diz claramente: no mundo, o poder econômico e político tem caráter diabólico. Jesus o rejeita.
Jesus sempre responde ao tentador com a Palavra de Deus. Jesus aceita a insegurança no futuro para si mesmo e para a missão. Ele podia dizer como Pedro Casaldáliga: “Minhas causas são mais importantes do que a minha vida”. Até mesmo a sua causa, sua missão, ele, Jesus tem de entregar nas mãos do Pai e renunciar a qualquer segurança de vitória. É a sua fé, como entrega nas mãos do Pai que é sua vitória na tentação.
Infelizmente, diante das mesmas tentações, até hoje, muitos eclesiásticos que assumem o poder nas instituições eclesiásticas e muita gente nas Igrejas preferem seguir o caminho proposto por Satanás. Até hoje, ele parece dizer a essas pessoas: aproveitem o poder a seu favor que vocês poderão salvar o mundo. Sem poder, como vão conseguir fazer alguma coisa? “O sangue de Jesus tem poder”, gostam de dizer. Conquistem o mundo e aí sim, serão instrumentos e mediadores de salvação. Jesus sentiu-se tentado a isso, mas resistiu. Percebeu que a Palavra de Deus e as profecias do Servo Sofredor indicavam outro caminho: a inserção no meio dos pequenos e marginalizados e a solidariedade aos grupos excluídos. Jesus optou por isso e isso o conduziu à Cruz. Um dia, Jesus anunciou aos discípulos essa sua decisão e Pedro, seu amigo e companheiro, lhe disse: “De modo nenhum, isso vai acontecer com você. Deus não vai permitir”.
Jesus teve de ser duro com Pedro: - “Passa para trás, Satanás. Tu não compreendes nada do projeto divino. O teu modo de pensar é do mundo” (Mt 16, 23).
De acordo com os próprios evangelhos, podemos afirmar que o diabo que tentou Jesus no deserto estava nas próprias comunidades cristãs, para a quais Mateus escreveu o evangelho. Parece que as comunidades cristãs dos anos 80, pensavam em Jesus como o Messias, que vinha lhes dar força e poder.
Durante os seus 21 séculos de história, as Igrejas cristãs vivem o tempo todo essas tentações. Falam da “santa cruz”. Colocam a cruz no altar e no pescoço das pessoas, como objeto de adoração, mas tiraram a cruz do seu caminho de vida como projeto de missão e como caminho que Jesus escolheu e escolhe hoje. Continua ocorrendo hoje o que, no século XIX, no romance Os Irmãos karamatzov, Dostoievski contava ao descrever a Lenda do Grande Inquisidor.
De acordo com o relato, o arcebispo de Sevilha disse a Jesus: - O que você veio fazer aqui? Não precisamos de você. Até hoje, ainda não se deu conta de que o outro (o diabo) tinha razão? A humanidade não está preparada para a liberdade que você quer.
Quem não compreende o Cristianismo social e a inserção em uma espiritualidade libertadora não compreende a cruz de Jesus e fica com o Cristianismo que o diabo propôs a Jesus, um jeito religioso idolátrico. É importante que a meditação das tentações de Jesus e de como ele as venceu possa ajudar as Igrejas e cada comunidade de fé cristã a retomarem o caminho do deserto e refazerem as opções fundamentais da profecia do projeto divino no mundo.
No Brasil, ligamos a Quaresma com a Campanha da Fraternidade que, a cada ano, propõe um desafio a vencer como caminho que nos ajuda a concretizar um mutirão de solidariedade que torna pascal toda a nossa vida. Em 2026, a Campanha da Fraternidade é sobre Moradia e nos convoca ao compromisso na luta social para que todas as pessoas tenham moradia digna e adequada, inclusive todos os seres vivos da Natureza.
“Oração da devoção popular católica:
Guia, Deus, a minha sorte,
nesta terra de peregrinação.
Fraco sou, mas Tu és forte.
Não me larga a tua mão
Nesta terra de inimigo:
ando cheio de pavor
no meio do perigo.
Guia, ó Deus, meu coração,
Guarda-me da faminta peste.
Livrai a mim da tentação.
Abre as fontes cristalinas
de onde as vivas águas vêm.
Dai, ó Deus, a divina direção:
meus caminhos regem bem
acompanhado com Deus
e a Virgem Maria. Assim seja”[1].
[1] - Cf. FRANCISCO VAN DER POEL, (FREI CHICO), Com Deus me deito, com Deus me levanto, São Paulo, Ed. Paulus, 2018, p. 158.
