I
Meditação para preparar o Tríduo Pascal
Há sempre um galo que canta.
Na quinta-feira santa, a partir do pôr do sol, entramos na celebração do Tríduo Pascal, centro de todas as celebrações do ano. A noite da quinta-feira santa é considerada a Páscoa da Ceia, memória da noite em que, conforme a tradição cristã, Jesus tomou sua última ceia com seus discípulos e discípulas e nos mandou partilhar a ceia como sacramento da aliança nova.
Na sexta-feira, celebramos a Páscoa da Cruz. Durante séculos, as comunidades cristãs interpretaram a paixão de Jesus como o sacrifício da vida que Jesus, voluntariamente, teria oferecido ao Pai. Muitos cânticos e preces da liturgia e das devoções populares ainda expressam esse tipo de espiritualidade. Atualmente, a imagem de Deus que essa espiritualidade parece propor é de um Pai que precisa que o seu Filho seja morto para aceitar se reconciliar com o mundo.
Essa cultura sacrificial era comum a algumas religiões antigas. Hoje, precisamos olhar para a paixão e cruz de Jesus não como sacrifício oferecido ao Pai e sim como testemunho (martírio). Pela doação de sua vida, Jesus testemunhou que a salvação consiste no amor e na generosidade de nos doar uns aos outros e às outras. O máximo de amor vence a crueldade e a violência do mundo.
Depois da sexta-feira santa, celebramos o grande sábado, como dia de espera. Antigamente, chamava-se sábado de aleluia, porque a liturgia romana antecipava a celebração da vigília pascal já para amanhã do sábado. Em 1951, o Papa Pio XII restabeleceu o costume da Vigília Pascal na noite do sábado para o domingo. Como, no século IV, afirmava Santo Agostinho, a Vigília Pascal, celebrada na noite do sábado santo ou na madrugada do domingo é a mãe de todas as vigílias da Igreja, o sacramento por excelência da nossa fé: a Páscoa da ressurreição.
Para nos prepararmos interiormente para a Santa Ceia:
A quinta-feira santa é o dia que nos chama a uma volta para a intimidade de Deus e para recuperar a intimidade mais profunda da aliança e da fé... É pena que, tantas vezes, as nossas Igrejas tenham perdido esse caráter de intimidade que, conforme os evangelhos, Jesus quis viver na última ceia com seus discípulos e discípulas. O evangelho de João coloca nos lábios de Jesus as palavras mais íntimas, mais carinhosas e ternas que jamais foram escritas.. No discurso durante a ceia, Jesus chama os seus discípulos e discípulas de Meus filhinhos, diz claramente: "Assim como o Pai me amou, eu amo vocês....".
E durante quatro capítulos (do 13 ao 17), o Evangelho de João passa de uma declaração de amor a outra... Cada uma delas mais íntima e mais profunda. E todo este percurso tem uma preparação. No evangelho de Mateus, os discípulos perguntam a Jesus: Onde o Senhor quer que lhe preparemos a Páscoa? (Mt 26, 16- 17). Quantas vezes, chegamos à Eucaristia, sem nos preparar profundamente. E o evangelho diz que um determinado homem, cujo nome ninguém sabe, o texto não nomeia, põe uma sala à disposição de Jesus. A ele, basta que escute a palavra: O Mestre te manda dizer: O meu tempo chegou. Quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos em tua casa....
Meu Deus, que coisa incrível, esse homem, do qual nem sabemos o nome, nem quem era. Ele dispõe a sala e, provavelmente, sendo o dono da casa, participa daquela ceia de Jesus com os discípulos e as discípulas que, desde a Galileia, tinham acompanhado a Jesus e ao seu grupo.
Preparar essa Páscoa é em primeiro lugar preparar e dispor a sala interior do nosso ser. Como aquela sala que estava no interior da casa e que, ao que tudo indica, depois que Jesus fez ali a ceia com o seu grupo, continuou a ser uma sala de uso cotidiano da família. Foi um lugar assim e não um santuário que Jesus escolheu, como lugar sagrado e que expressa a profunda intimidade com o Mistério Divino.
Será que isso indica que Jesus gostaria que nossas eucaristias fossem assim, como eram nas primeiras comunidades cristãs, nas casas de família, de forma que a ceia do seu amor não fosse separada da vida cotidiana?
Por que foi na narração da última ceia que o evangelho colocou a palavra de Jesus sobre a traição de Judas e sobre a negação de Pedro? Será que, ao fazer isso, está aludindo que a traição ao projeto maior de Jesus ocorre também conosco na Igreja, pelo modo de celebrar e de viver esse mistério?
São questões que devem servir para a nossa reflexão e agir/ação.
Os evangelhos começam e encerram o relato da eucaristia com a “entrega”. Entrega da vida de Jesus, entrega feita por ele de si mesmo, mas também entrega que Judas praticou ao traí-lo... E a liturgia repete: Na noite em que foi entregue... Será que pela nossa forma de celebrar, temos alguma coisa a ver com essa entrega, que é a tradição da fé, mas às vezes, pode se tornar a traição da fé, como o evangelho diz a respeito de Judas?
Assim como Jesus fez com Pedro ao advertir: Antes que o galo cante, você me negará três vezes.... , será que o galo não canta também nas nossas eucaristias? Será que os padres de hoje são capazes de ouvir o galo que canta para nos advertir a respeito das nossas pequenas ou grandes traições? Ao nos advertir do pecado do clericalismo que atinge aos padres mas também a muita gente no laicato, em seu tempo, o papa Francisco foi como um “galo” que cantou e parece ter sido pouco escutado nos ambientes do clero e da hierarquia.
O Papa Francisco propunha a Sinodalidade como forma normal de ser da Igreja. Portanto, uma Igreja verdadeiramente eucarística teria de ser sinodal. Isso significa fazer da Igreja sinal e instrumento de verdadeira comunhão entre as pessoas. Será que esse jeito de ser Igreja tem alguma chance de ser aceita por padres que procuram e fazem questão dos primeiros lugares no culto, que parecem dar prioridade a vestes suntuosas, franjas, babados e fios de ouro, por jovens seminaristas e por tantos leigos e leigas que gostam de celebrações ritualistas, autocentradas, autorreferenciais, distantes da realidade do outro/a e tendo por figura central o próprio clero?
O homem anônimo que abriu a sala superior de sua casa para Jesus celebrar a Páscoa a dispôs para "acolher"... Receber gente que ele nunca viu na vida, peregrinos que devem ter chegado sujos dos caminhos desde a Galileia, provavelmente as pessoas mais humildes daquela sociedade.
Desse modo, a primeira eucaristia foi marcada pela partilha e as Igrejas primeiras a chamaram partilha do pão. Partilha vivida na tensão da anunciada prisão de Jesus e no anúncio de uma entrega, doação que é de todo o ser (o meu corpo) e da sua intimidade (o meu sangue).
Quanto mais conseguirmos ser/estar em profundidade na interioridade do amor e da intimidade com Deus, mais seremos revolucionários/as como Jesus, na doação da vida e na radicalidade do anúncio de um projeto divino que transforma todas as estruturas do mundo. É nisso que cremos e é isso que queremos testemunhar. Pela força do Espírito.
Em todas as dioceses católicas (de rito latino), na 5a Feira Santa, o bispo reúne os padres e representações das paróquias na Missa dos Santos Óleos, única celebração permitida na Quinta-feira Santa, antes da Missa da Ceia do Senhor que deve ser feita depois do pôr do sol desse dia.
Nessa missa, o bispo consagra os óleos que serão usados durante todo o ano (o óleo dos catecúmenos para os ritos batismais, o óleo para a unção das pessoas doentes e especialmente o Santo Crisma para a confirmação das pessoas batizadas e para as ordenações ministeriais).
Desde o Concílio Vaticano II, na base da tradição que vê a ceia como tendo sido a instituição dos ministérios ordenados, costuma-se fazer nessa missa a renovação das promessas e compromissos dos ministros. Em geral, isso ainda é feito de forma clerical, separando ordenados e os cristãos e cristãs não ordenadas. Como se Jesus tivesse feito essa divisão. E, como se ainda fosse possível manter essa distinção, sem cair no Clericalismo que, durante o seu ministério, o papa Francisco tão fortemente condenava.
De fato, a ideia de que os ministérios ordenados tenham sido criados por Jesus nesse dia tem como base acreditar que Jesus criou sacerdotes para celebrar missas. Ora, Jesus jamais pensou em criar sacerdotes (modelo do Antigo Testamento), nem em tornar a ceia um culto de tipo sacerdotal. Foram as Igrejas primitivas que, já no final do século I, criaram os presbíteros e epíscopos. A ceia pascal judaica era um rito familiar, celebrado nas casas, como ele fez a última ceia. E se somos discípulos e discípulas dele, só podemos ser, ao assumir o Espírito com o qual ele nos ungiu.
É significativo que, nessa celebração da manhã deste dia, o evangelho proclamado seja Lucas 4, 16 a 21, o texto no qual Jesus manifesta a sua vocação profética e diz que o Espírito Santo o ungiu e o enviou para trazer a cura a todas as pessoas doentes e anunciar a libertação a todas que estão presas e oprimidas. Essas palavras de Jesus que revelam sua vocação carismática/ pentecostal e, ao mesmo tempo, transformadora do mundo (social e politicamente revolucionária) indicam o projeto divino de uma Páscoa nova, não somente para nós, não apenas para as Igrejas, mas para o mundo, especialmente, hoje, tão ferido pelas desigualdades sociais cada vez mais ferozes, pelas guerras que significam genocídios de povos inteiros e da destruição da Mãe-Terra e da Ecologia Integral. Amém.
