XV Domingo Comum: Mt 13, 1- 23
Neste domingo, somos convidados e convidadas a escutar e meditar, no evangelho de Mateus, o início do terceiro dos cinco discursos de Jesus. Esse trata do projeto divino no mundo e é composto por sete parábolas ou comparações do que o evangelho chama reino dos céus, ou reinado divino. Outros evangelhos falam de reino de Deus. Como escreve para comunidades cristãs, formadas, principalmente, por pessoas de cultura judaica, para não pronunciar o nome divino, Mateus substitui reino de Deus por reino dos céus.
A partir de agora, o evangelho mostra Jesus na beira do lago da Galileia, em relação, não mais somente com discípulos e discípulas, mas com o povo da Galileia, gente pobre e sofrida. Mateus tinha dito que, depois do batismo e do retiro no deserto, Jesus foi a Galileia, para inserir-se entre a população mais empobrecida, considerada pecadora e misturada com estrangeiros. (Ver Mt 4, 12- 25). É esse tipo de gente que ele reúne na beira do lago e anuncia o que Mateus chama de reino dos céus, ou seja, o projeto divino no mundo.
Desde os tempos do cativeiro da Babilônia, o povo bíblico ouvia os profetas falarem em reino de Deus, ou reinado divino. Vários salmos cantam: “O Senhor reina”. O povo esperava a instauração da realeza. Jesus nunca aceitou ser rei. Quando interpelado, anunciou o reinado divino, através de parábolas que davam significado novo a essa realidade. Aos que lhe cobravam porque o reinado divino, de fato, ainda não tinha chegado, Jesus respondeu com essas comparações que são as parábolas.
O contexto das parábolas é sempre um contexto de crise. Na cultura judaica, o mar sempre representa o perigo e o mal. Portanto, ir para beira do mar significa enfrentar o mal no próprio campo do inimigo. Diante do adversário, Jesus não pode falar claramente. Só fala por enigma, ou parábola. No capítulo 13 de Mateus, terceiro grande discurso do evangelho, Jesus fala do projeto divino, através de sete parábolas.
A primeira coisa que chama a atenção é que o anúncio do projeto divino é dado de modo secreto ou íntimo, ou seja, como parábola. Na intimidade, o grupo de discípulos e discípulas pergunta “Por que, você, Jesus fala em parábolas? Jesus explica que a parábola não é para revelar e sim para esconder. Cita Isaías para dizer que, de fora, as pessoas olham sem ver, ouvem sem escutar e não interiorizam o que veem e escutam. Para compreender essa linguagem, seria necessário, primeiramente, colocar-se dentro dessa intimidade, com o coração. O segredo do reinado divino só é revelado a pequenos grupos que Dom Helder Camara chamava de “minorias abraâmicas”.
Na época de Jesus e dos evangelhos, anunciar que o projeto divino estava chegando era subversivo. Implicava em romper com os impérios do mundo, especificamente, na época, o império romano, escravocrata. Jesus manda os discípulos e discípulas anunciarem isso às aldeias mais pobres e, no campo, ao povo da terra. Os sacerdotes de Jerusalém compreenderam isso muito bem e quando o entregaram a Pilatos disseram: “Se não condenas esse homem, não és amigo de César, o imperador”(Lc 23, 1 – 2). Ou o reinado divino ou o império de César”.
Jesus compara o reinado divino com situações do mundo rural e com protagonistas pobres. O lavrador pobre joga a semente na terra. Na época de Jesus, os terrenos da Galileia estavam nas mãos dos donos do império, como os sacerdotes e saduceus. Só restava aos lavradores as faixas de terra entre o cercado e as estradas, os terrenos estreitos das encostas das pedras. O lavrador não pode escolher. Nem dava para arar ou preparar a terra. No tempo de Jesus, o costume era semear, antes de arar o terreno. Jesus diz que parte da semente caiu na beira da estrada e logo foi pisada. A outra nasceu no meio das pedras, mas, como não tinha raiz, morreu. Só uma pequena parte caiu em terra boa e frutificou. Conforme a parábola, a semente é boa, mas o resultado da colheita depende do terreno. Se o terreno não é favorável, a semente morre. Fica infecunda. As sementes são iguais, mas os resultados podem ser opostos.
Basta ver isso no próprio evangelho. O mesmo sinal que, em algumas pessoas, provocava fé; em outras pessoas causava escândalo. Jesus curava um doente. Para quem era curado e para discípulos e discípulas, a cura era sinal da vinda do projeto divino. No entanto, para os professores de Bíblia e religiosos de Jerusalém, só podia ser sinal que Jesus agia por obra do espírito mau. Até hoje, é assim. O Movimento de Trabalhadores sem-Terra (MST) luta para conquistar a reforma agrária popular. Para nós, é questão de justiça. Para outros é comunismo e destruição da economia.
Apesar de tudo, é impressionante a confiança de Jesus. É otimismo quase ingênuo imaginar que a pequena parte que sobrou, a semente que caiu em terra boa possa dar cem por cento, ou mesmo trinta por cento. É muito. É quase impossível. De todo modo, a palavra de Jesus contém esse apelo à confiança. Apesar de que ainda estamos em tempo de plantio, confiemos que, apesar de tudo, a colheita pode ser muito boa.
Põe a semente na terra
Josiane Bohike
Põe a semente na terra
Não será em vão
Não te preocupe a colheita
Plantas para o irmão
Toda mãe-terra é um apelo pra sermos irmãos
E toda roça é um convite para o mutirão
Põe a semente na terra
Não será em vão
Não te preocupe a colheita
Plantas para o irmão
Toda colheita é um chamado pra se ajudar
E toda venda é um momento de se organizar
Põe a semente na terra
Não será em vão
Não te preocupe a colheita
Plantas para o irmão
Todo suor é uma enxada a gerar comida
E toda luta é um arado a arrancar mais vida
Não será em vão
