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Nomadismo: espiritualidade pascal

4º Domingo da Páscoa – ano A: Jo 10, 1-10 

Convite para o nomadismo como espiritualidade pascal

                  Neste 4º Domingo da Páscoa, (do  ano A), temos como texto evangélico a primeira parte das palavras, nas quais Jesus coloca-se como o Pastor que Deus manda para os seus povos que, no passado e também hoje, são constituídos pelas pessoas e comunidades, oprimidas e vítimas das injustiças estruturais do mundo. No final do século I, para resolver alguns conflitos que haviam nas comunidades cristãs, entre o grupo de irmãos e irmãs, vindos do Judaísmo e outros, oriundos  de outras religiões e culturas, a comunidade do Discípulo Amado conta uma discussão de Jesus com os religiosos do templo. 

Em nossos dias, o termo pastor designa chefe religioso, católico, ou evangélico. Na Bíblia, o termo pastor era título dos dirigentes políticos. Quando jovem, o rei Davi tinha sido pastor de ovelhas e o livro sagrado diz que Deus o chamou para ser pastor do seu povo, isso é, governante que cuida do povo, como um pastor cuida de suas ovelhas.   

Naquela região do antigo Oriente, a criação de ovelhas não era para abatedouro e sim para o cultivo de lã. Os antigos profetas criticam os reis da época por serem pastores que no lugar de cuidar das ovelhas, alimentam-se delas. Os profetas Jeremias e Ezequiel denunciaram os reis da época. Embora sendo judeus e não estrangeiros, eram maus pastores que não cuidavam das ovelhas. Tratavam apenas das ovelhas gordas e faziam isso para abatê-las (Jr 23 e Ez 34). Ao invés de cuidar das ovelhas, os reis as tosquiavam para obter lucro. Esse é o pano de fundo do evangelho desse domingo. Não se trata de um debate apenas religioso e sim político. 


No tempo de Jesus, era através do templo e das sinagogas, que o Império Romano escravocrata dominava o povo judeu e o oprimia economicamente. Os sacerdotes de Jerusalém e os rabinos das sinagogas eram, ao mesmo tempo,  chefes da religião e chefes políticos, submissos ao império. Então, Jesus diz que são ladrões e salteadores. Ele coloca-se como único pastor que tem direito a entrar no pátio das ovelhas. 

Em outras passagens do evangelho, o mesmo termo grego aqui usado para dizer pátio das ovelhas, aprisco, ou curral, foi usado para falar do pátio do templo. Então, podemos compreender esse evangelho como uma crítica que Jesus faz a toda religião que usa o poder político para se estabelecer e gozar de privilégios. Durante séculos, por meio do regime de Cristandade, a hierarquia e o clero católico fizeram isso em vários países do mundo, como os pastores luteranos fizeram na Alemanha e os reverendos anglicanos na Inglaterra e em suas colônias. 

Jesus é muito duro. Provoca o poder religioso e político, quando diz que o dever do pastor é tirar as ovelhas da segurança religiosa que o templo oferece. Ele quer, de fato, que ouçamos a sua palavra para além e mesmo para fora dos templos. Diz claramente e sem meias palavras, que esses pastores não entraram no aprisco das ovelhas pela porta e sim pela janela. Quem entra pela janela é ladrão e assaltante. 

Portanto, Jesus diz que, ao ser nomeado pelos romanos e não escolhido pelos fieis e por critérios da própria religião, eles não são pastores legítimos. Portanto, no capítulo 10 do seu evangelho, a comunidade do Discípulo Amado denuncia o clero que colabora com políticas opressoras e se aproveita disso como autoridade religiosa. Sobre isso, esse evangelho parece mais duro do que o Papa Francisco, que chamou o clericalismo de câncer para a Igreja. Jesus diz literalmente que esses pastores são ladrões e exploradores do povo. O que ele não diria, hoje, ao saber que dos dez brasileiros mais ricos do mundo, dois são pastores pentecostais e há padres católicos que cobram mais de cem mil reais para, em algum estádio, cantarem músicas que ignoram a dimensão social do Evangelho de Jesus Cristo.


Depois de denunciar como agem os falsos pastores, Jesus explica como age quem é pastor ou pastora de verdade. Na época em que esse evangelho foi escrito (final do século I), o templo de Jerusalém tinha sido destruído e não existia mais. Na época do evangelho, o aprisco das ovelhas não era mais o templo e sim as sinagogas. Foram os chefes das sinagogas que agora ouviram essas palavras. Foi para eles que o Jesus do evangelho de João diz que a função de quem é verdadeiro pastor ou pastora é abrir a porta do aprisco ou do curral, chamar as ovelhas, uma a uma, por seu nome e tirá-las de lá para levá-las aos campos onde houver pastagem e alimento.  

De fato, na época antiga, na região rural, os apriscos, ou currais eram públicos. Cada curral reunia rebanhos de vários proprietários. Serviam para guardar as ovelhas durante a noite, protegidas de ladrões e de feras. Pela manhã, cada pastor vinha, chamava cada ovelha por seu nome e as ovelhas de cada rebanho saíam para os campos, conduzidas pelo seu pastor. 

Hoje, alguém poderia espantar-se em ouvir Jesus dizer que quem é verdadeiro pastor deve tirar as pessoas da Igreja e não levá-las para dentro. No entanto, nesse raciocínio, há um equívoco: pensa a Igreja como aprisco. A Igreja não é aprisco. . É o rebanho, é Povo de Deus, segundo o Concílio Vaticano II. É a Igreja que tem de sair do seu refúgio, ser capaz de mover-se para fora para o meio do povo. Ser uma Igreja nômade, itinerante, missionária. O Papa Francisco propunha: Igreja em saída e explicava que não era para qualquer saída ou passeio. Era sair em direção às periferias do mundo, periferias geográficas e periferias existenciais, como a realidade de todas as pessoas excluídas da sociedade. 

 

No texto de hoje (Jo 10, 1 – 10), o evangelho usa três imagens: a da porta, a do porteiro e a do pastor. No texto, as três imagens fundem-se em uma só. A porta é por onde as ovelhas entram e saem. Assim, Jesus diz que é Ele que nos permite entrar e sair, portanto, viver a liberdade como estilo de vida. Ao dizer isso, critica a religião baseada em leis que prendem e não libertam. 

Jesus coloca-se como o porteiro, único que tem chave da porta. Só Ele abre a porta, para que as ovelhas entrem e saiam. Essa palavra não nega o valor de outras religiões, como se Jesus tivesse dito que só o Cristianismo salva. O que Jesus afirma é que não adianta dizer-se cristão e ficar preso às leis e instituições religiosas opressoras. 

  Jesus apresenta-se como pastor nômade que chama as ovelhas para sair do aprisco. Abre a porta do aprisco, chama cada ovelha pelo nome e vai à frente, dando-lhes segurança. Ele conduz cada ovelha para onde houver pastagens. Óbvio que ao falar de pastagens, Jesus não está defendendo pecuária em sistema de monocultura, mas organizar a vida social, em condições de vida e liberdade para todos e todas. Escutar a voz de Jesus e segui-lo é  aceitar ser conduzido, ou conduzida por ele, para fora dos apriscos, sejam quais forem as prisões que ainda nos prendem, sociais, políticas ou religiosas. 

Se não for para sair e ser livre, é sinal de que a voz que nos chama não é a de Jesus, Pastor. Ele diz: “Eu vim para que todos e todas tenham vida e vida em abundância (Jo 10, 10). Jesus não fundou nenhuma instituição religiosa. Propõe um caminho: estilo de vida e esse é caminhar juntos – para aquilo que os povos originários chamam: o bem-viver e bem-conviver. 

É preciso romper com o modelo de espiritualidade que não conduz para condições de vida e  liberdade para todos e todas. vida e à liberdade. Foi o que Jesus fez em sua polêmica contra os sacerdotes do templo. Jesus Ressuscitado veio trazer vida no próprio reinado da morte. Veio realizar o que dizia o Cântico dos Cânticos: “Vem, minha amada. O inverno já passou. As flores já nascem nos campos, a rolinha está cantando. É tempo de amar” (Ct 2, 11- 13).

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Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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