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Memórias que nos abrem para o amanhã

Memórias que abrem caminhos para o amanhã

                Em um mundo de relações fugazes e de comunicação virtual e rasa, é um prazer saborear um bom livro, escrito com paixão e compaixão. Essa é a porta pela qual podemos deleitar-nos com o novo livro de Tito Leite, escritor já conhecido pelos romances Dilúvio das Almas e Jenipapo Leite, assim como pelo belo livro de poemas: Quinta Estação. Não se assustem com o título meio chamativo desse novo livro: A Casa dos Malditos. Memórias de um ex-monge beneditino (Editora Schwartz s.a). 

Logo no início, o autor adverte que ele se propõe a narrar essas memórias, baseadas em lembranças pessoais, mas, escritas, no estilo de ficção, portanto, sem compromisso de retratar, tal qual, a realidade. Essa afirmação nunca é desmentida, mas à medida que avançamos na leitura, compreendemos o que, na Idade Média, ensinava o teólogo Santo Anselmo de Cantuária: “Neque enim quaero intelligere ut credam, sed credo ut intelligam” (Não busco entender para crer, mas creio para entender). 

De fato, a opção afetiva do crer precisará anteceder à capacidade intelectiva, que acompanha a trajetória do monge Tito, autor e personagem, na “casa dos malditos”, ou seja, uma clínica eclesiástica de reajustamento de padres, religiosos e religiosas, considerados fora da “linha”, para, em nome de Deus e da fé, readequá-los ao sistema.

A capacidade genial do autor em narrar as memórias, suas ou do seu alterego, sempre com arte e leveza, faz com que mesmo passagens dolorosas e muito tristes não cheguem a ser depressivas. Com uma arte quase cinematográfica de associar cenários, de um breve capítulo a outro, a narrativa passa das memórias vividas no tempo do mosteiro em Olinda, para a tal clínica e, novamente, da clínica ao mosteiro. 

Prestem atenção para não se descuidarem na leitura e, assim, não confundirem mosteiro e clínica. O autor Tito garante que são diferentes e quem o lê, deve acreditar. Na clínica, ele tem saudade do Mosteiro.   

No Mosteiro, Tito defende toda a base espiritual e teológica sobre o qual o mosteiro está organizado. Assim mesmo, consegue ter um olhar compassivo e solidário sobre os irmãos que enfrentam divisões internas e uma campanha externa de difamação. Ao longo do livro, há sempre um olhar de misericórdia, que faz com que possamos sair da leitura com esperança: o mundo e a vida não estão perdidos. Mesmo em situações que fazem fronteiras com o desumano, a amorosidade resiste. 

Tito conta algumas cenas que, objetivamente, se constituiriam, até civilmente, como assédio moral ou abuso psicológico. Faz referência a atos de autoritarismo que ferem direitos humanos e mais tristes ainda porque praticados em nome de Deus e justificados como método espiritual. Como no início do livro, tinha dito que não emitiria julgamento moral, ele conta os fatos, mas os olha, cada fato em si. Não chega a analisar o que está por trás, que é mais do que um fato esporádico. Talvez torne-se necessário perceber que, além do erro conjuntural, existe o que, no evangelho, Jesus chamou de “pecado do mundo”, no qual a violência veste a roupa do sagrado e se torna institucional. Basta pensar: se a estrutura religiosa não possibilitasse e legitimasse o poder, como sagrado, ou tais abusos nunca poderiam ocorrer, ou caso ocorressem, seriam raros e extraordinários. 

Essas memórias de um ex-monge, nunca escritas em tom de desabafo e sim de exame de consciência deixam aflorar em cada página um anseio de verdadeira busca espiritual. Em determinados momentos, o monge desnuda-se tanto que chega a recordar, mutatis mutandis, as Confissões de Santo Agostinho. Nele, Tito abre conosco recônditos profundos da sua afetividade. Assim, convida a mim e a você para mergulharmos em nossa verdade e em prosseguir nosso itinerário para que o amanhã seja mais humano e mais integrativo. É como se, em cada página, pudéssemos vislumbrar um espelho que nos recoloca no caminho. Faz-nos recordar uma palavra atribuída ao pastor Martin- Luther King: “Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas, seja como for, continue em frente, de qualquer jeito.”



[1] - Marcelo Barros (81), monge beneditino, teólogo e escritor, é assessor de comunidades eclesiais de base e de movimentos populares como o Movimento dos Trabalhadores sem-Terra (MST). Tem 65 livros publicados dos quais o mais recente é Boas notícias para as estradas do mundo – Ler os evangelhos para além dos templos – Ano A – Ed. CEBI, 2026.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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