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É preciso recriar o humano em nós e no mundo

4º Domingo da Quaresma – ano A: Jo 9, 1- 41

É preciso recriar o humano

Nesse 4º Domingo da Quaresma, meditamos o texto evangélico que conta como Jesus cura um cego de nascença (Jo 9, 1 – 41). 

              Este evangelho é marcado pela polêmica com os religiosos de Jerusalém. Afirma que, somente, quando Jesus deixa o Templo, vê a pessoa cega do lado de fora.  Do modo como, em Jerusalém, estava organizado e, como até hoje, organiza-se o sistema religioso,  não permite ver o mundo das pessoas empobrecidas. Só quando sai do santuário, Jesus vê  o pobre cego, que o evangelho designa pelo termo genérico, anthroposhumano. É ao sair do plano meramente religioso, que Jesus vê que o ser humano estava cego. 

Nos capítulos anteriores a esse relato, o quarto evangelho conta como Jesus se apresentou no templo de Jerusalém, durante a festa das Tendas. Na época de Jesus, nessa festa, havia uma cerimônia na qual, cada noite, eram acesos os grandes candelabros do templo, como sinal da iluminação do mundo e recriação da vida. É nessa ocasião que Jesus afirma: A luz do mundo não vem dos candelabros do templo.  “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 8, 12). 

   Como a festa atraía muita gente, o cego pobre mendigava do lado de fora do templo. Aquele ser humano cego era socialmente marginalizado pela sociedade, isolado pela família e excomungado pela religião. De fato, os próprios discípulos de Jesus revelam-se ainda prisioneiros da cultura religiosa tradicional. Ao verem o cego, a preocupação deles era saber quem tinha pecado, se o próprio cego, ou seus pais - para que ele nascesse cego. Jesus não aceita essa mentalidade religiosa que culpabiliza a vítima ou seus pais. Não aceita que se afirme que foi ele ou os pais que pecaram. Isso seria mitificar uma injustiça e encobrir as reais causas da injustiça socioeconômica, política e religiosa. 

              É verdade que a saúde física depende muito da saúde psíquica e interior. Há profunda relação entre saúde e salvação. Mas, Jesus rejeita a relação entre doença e culpa, como se a pessoa doente fosse culpada por ser doente. O que ele quer é curar as pessoas e, ao curar aquele cego, desrespeita a lei religiosa. Era o dia de sábado, no qual era proibido trabalhar. 

Para Jesus, o melhor modo de santificar o sábado era curar as pessoas. Por isso, ele toma a iniciativa de ir falar com o cego. Faz lodo com a saliva e passa nos olhos do cego. É o mesmo gesto que, conforme a Bíblia, Deus fez ao criar a humanidade da lama da terra. Ao refazer com aquele cego o gesto divino da criação, Jesus diz que recriar o ser humano é possibilitar nova luz para todos e todas. E ele indica, assim, que nós todos, seus discípulos e discípulas, temos de continuar o ato criador de Deus, como ele continuou, ajudando as pessoas a “verem” as coisas como são e a poderem ser pessoas sempre renovadas. No entanto, para os religiosos do templo, ao fazer lama com a saliva, Jesus faz algo que a lei proíbe. Como todos os fluidos do corpo, a saliva era considerada impura (Ver Lv 15, 8). 

 

Muitas tradições religiosas, como o Candomblé, concordam que o ser humano é feito do humus da mãe Terra. Até hoje, existem rituais xamânicos que usam como remédio a saliva com suas propriedades curativas. Em diversas religiões antigas, a meta da espiritualidade sempre foi adquirir uma nova visão de si mesmo/a, da vida e do mundo. No Budismo, Buda significa o Iluminado e atingir o estado de Buda é a iluminação interior. Na América Latina, os povos originários cultivam como espiritualidade a capacidade de ver coisas que comumente as pessoas não veem. Vários povos indígenas usam bebidas de poder, para obter o que, na tradição do Santo Daime, chama-se “miração”, um estado de consciência alterado que nos faz penetrar mais profundamente no mistério sagrado que nos envolve. 

Jesus abre nossos olhos para fazer-nos ver as coisas de forma nova e, assim, envia-nos ao mundo. Além de curar, ele envia ao mundo. Nessa história, a cura ocorre quando o homem lava-se na piscina chamada Siloé. O evangelho faz um jogo de palavra com o nome da piscina Siloé (enviado) e diz que foi, ao lavar-se nas águas que representam Jesus (o enviado), que o ser humano recebe a vida nova e passa a agir no mundo com nova missão. As comunidades sempre entenderam essas águas de Siloé como sendo as águas do batismo. Por isso, esse evangelho é lido no processo catecumenalcatequético e em preparação da Páscoa. No entanto, no mundo, toda água é  enviada por Deus, como sinal – sacramento do amor divino pela humanidade. 


O evangelho de hoje descreve o conflito que ocorreu  entre a religião oficial e o ser humano que, através das águas, recebeu de Jesus a luz de uma vida nova e da missão. Antes cego, aquele ser humano não tinha nenhuma responsabilidade. À medida que passa a ver,  entra em conflito com a sinagoga e acaba expulso da religião. Há um processo evolutivo na sua fé. Primeiramente, fala de Jesus como “um homem chamado Jesus”. Depois, sustenta que Jesus é profeta e alguém de Deus. Finalmente, o reencontra e Jesus lhe pergunta se ele crê no "Filho do Homem". E aquela pessoa curada diz que sim. Jesus não se apresenta a ele como filho de Deus e sim como filho do homem que, conforme muitos exegetas, é uma expressão que significa simplesmente o humano. É como se Jesus nos perguntasse hoje: Você acredita no ser humano? 

No mundo atual, às vezes, parece mais fácil acreditar em um Deus milagroso do que no ser humano, como ser humano. Mas, é como ser humano que Jesus se revela filho de Deus. Hoje, há muita gente religiosa que, por ser religiosa, desacredita no humano, enquanto humano. Esse evangelho nos diz que quem não aceita o humano e não reconhece no outro ser humano a manifestação divina nele, não é discípulo de Jesus. 

É um processo de iluminação e descoberta. É o mesmo de toda pessoa batizada no reconhecimento progressivo de quem é Jesus. O evangelho conta que os clérigos da religião ritual vivem o processo oposto: interrogam os pais do antigo cego, depois o próprio homem curado e acabam expulsando-o da sinagoga. Provavelmente, é uma alusão ao fato de que, a partir dos anos 80 do primeiro século da era cristã, qualquer pessoa que se afirmasse cristã era expulsa da sinagoga judaica. 

O conflito não é entre fé cristã e Judaísmo e sim entre qualquer forma de religião que não cuida da vida das pessoas e a fé em Jesus que nos faz passar da cegueira para a luz. A religião ritual defende as tradições. A fé profética ajuda as pessoas a viverem o projeto pascal do Cristo. 

Hoje, quantos conflitos éticos e quanta insensibilidade continuamos a ver entre as pessoas que defendem tradições religiosas e as pessoas que optam pela fé que leva à justiça e adere ao projeto divino no mundo. O evangelho de hoje nos questiona sobre de que lado estamos e nos provoca a colocar-nos sempre a favor da vida e da liberdade. Esse é o lado de Jesus. Essa é a sua Páscoa.    

 

A partir do evangelho do cego de nascença                                   

Das cegueiras 

que ferem o homem 

qual a mais triste, Senhor!?...
A que mais temo,
a de que mais fujo
é a dureza do olhar,
a insensibilidade da vista
– é ver, como se não visse
...   

                                (Dom Helder Camara - Recife, 11/12.3.1972 )[1].  



[1] - DOM HELDER CAMARA – 363ª Circular – 11/ 12. 3. 1972. In Circulares Ação Justiça e Paz, 2ª fase. CEPE, Recife, 2023. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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