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​Conversa, segunda feira, 01 de abril 2013

Hoje quero continuar minha meditação sobre a Páscoa, mas em uma perspectiva bem diferente. Ao passar pelo Rio de Janeiro, quis concluir o domingo da Ressurreição indo com uma amiga a uma peça teatral que se chama "Ari Barroso, do princípio ao fim". Sinto que conheço pouco a história da música popular brasileira e por isso fui a essa peça escrita, dirigida e encenada por Diogo Vilela e um bom elenco de musical que conta até com Tânia Alves. A peça se passa no final da vida de Ari quando ele já no leito de morte, revê e recorda os grandes momentos de sua vida, suas canções imortais e suas relações. Na peça, aparecem as personagens de cantoras como Carmen Miranda, Araci Cortês e Elizete Cardoso, além da esposa de Ari, Ivone... Dos compositores amigos, vemos Lamartine Babo com o qual ele divide uma ou outra música. 

Alguém pode perguntar o que a vida de um boêmio como Ari tem a ver com a Páscoa. Ele mesmo admitia ser de relação humana facilmente conflituosa e profundamente mundano. Entretanto, a vida inteira buscou a beleza e se encantou com a música como uma contemplação de algo mais sublime. E se consagrou a presentear os outros com sua arte. Isso é pascal e testemunha o amor divino presente em tudo o que há de mais humano. Reparto com vocês o artigo que mandei hoje aos jornais e sites para os quais escrevo: 

Para que essa Páscoa seja sem fim

Clínicas de beleza oferecem tratamento de rejuvenescimento. Academias proporcionam malhações e fisioterapias que prometem milagres físicos. Grupos espiritualistas fazem terapias de renascimento. Todos desejam renovar-se a si mesmos e às pessoas que amam. A tradição bíblica oferece às comunidades judaicas e cristãs a mística pascal como instrumento para uma renovação que atinge a pessoa e todo o universo.

Em tempos muito antigos, a Páscoa era uma dança da primavera e que fazia as pessoas participarem da renovação da natureza no hemisfério norte. Mas mesmo no sertão do Nordeste do Brasil, essa é a época das tão esperadas chuvas e é costume cantar na Páscoa um hino que vem de séculos antigos: “Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor, da pedra, água surgiu, era noite e o sol raiou, aleluia!”. Essa esperança é o que as Igrejas cristãs celebram nessa semana pascal e ainda por 50 dias como se teimassem em transformar o cotidiano da luta em uma energia de festa permanente.

Na noite do sábado passado ou madrugada do domingo, na grande Vigília pascal, mais importante celebração da Igreja durante todo o ano, as comunidades escutavam um evangelho que narra a corrida das mulheres, amigas de Jesus ao seu túmulo, “na madrugada, quando o sol ainda não havia nascido” (Cf. Lc 24, 1). Essa é a melhor imagem da Páscoa: uma madrugada ainda escura na qual temos certeza de um amanhecer esplendoroso e brilhante. Aurora de um mundo novo, presente do amor divino ao universo que se realiza em nós e toma a forma de uma organização social mais justa e fraterna. Nesses dias, em Túnis, na Tunísia, homens e mulheres, cidadãos de vários países e ligados às mais diversas tradições religiosas ou a nenhuma encerraram mais um fórum social mundial no qual tomaram como bandeira comum: “um novo mundo é possível!”. Essa palavra é a tradução civil e laical correspondente ao que os cristãos proclamam em sua fé: O Cristo ressuscitou realmente e assim Deus inaugurou uma nova criação da qual nós fazemos parte e somos chamados a ser testemunhas.

Quando olhamos a realidade do mundo, constatamos a urgência de que o escuro da madrugada se transforme em luz do dia. Ansiamos por uma economia mais justa e transparente. Em nosso país, queremos uma organização social e política mais participativa. E precisamos de um novo modo de nos relacionar com a natureza. A aurora do dia tem seus mistérios. Se vai raiar um dia de sol ou a manhã será chuvosa e feia, não depende de nós. A aurora social e humana, sim. Podemos ajudar a que a madrugada ainda escura de nossa realidade se transforme em dia ensolarado da justiça e da fraternidade. Isso é Páscoa. Fazemos isso ao participarmos de todo esforço social por um mundo mais justo, mas também no nosso dia a dia ao tornarmos mais amorosas nossas relações com as pessoas. No Oriente, nesses dias, os cristãos recordam a memória de um santo monge que foi uma espécie de Francisco de Assis russo. Viveu no século XIX e se chamava Serafim de Sarov. Vivia em uma floresta e cada vez que em seu caminho encontrava alguém, se curvava diante do desconhecido e dizia: “Ao ver você, constato que verdadeiramente Jesus ressuscitou e atua em você fazendo de você uma pessoa nova. Graças a Deus!”. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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