Festa do Batismo do Senhor (Mt 3, 13-17)
Neste domingo, as Igrejas celebram o Batismo do Senhor. Esta celebração, ainda ligada à festa da Epifania, encerra o ciclo litúrgico do Natal. Todos os quatro evangelhos concordam que a missão pública de Jesus se inicia com o seu batismo. De acordo com o calendário ecumênico, neste ano A, lemos sobre este episódio a versão de Mateus (Mt 3, 13- 17).
Conforme esses relatos, o fato de ter sido batizado (mergulhado) por João no rio Jordão é o que dá a Jesus a sua vocação profética. Isso significa que ele não é impostor e sua autoridade de profeta é o que lhe permite falar em nome de Deus. Os três primeiros evangelhos contam que os religiosos do templo se reuniram e interrogaram a Jesus com que autoridade ele dizia as coisas que dizia e fazia os sinais que fazia (Mc 11, 27- 33; Mt 21, 23- 27; Lc 20, 1- 8). Jesus retrucou que só poderia responder a essa pergunta se eles respondessem a uma pergunta dele: - O batismo de João vinha de Deus ou era apenas uma coisa humana?
Eles não quiseram responder porque isso os comprometia e disseram: Não sabemos.
Jesus concluiu: - Se vocês não se posicionam sobre o batismo de João, eu também não posso explicar de onde vem minha autoridade de profeta.
Isso significa: a missão profética de Jesus decorre do batismo de João.
Mateus conta que Jesus veio da Galileia para receber o batismo. Ao dizer que foi de João Batista que Jesus recebeu o batismo, o evangelho revela que o profeta João foi o mestre de Jesus. João ensinou a Jesus o que Deus quer dizer ao mundo e mostrou a importância de Jesus ter coragem de dizê-lo, mesmo se isso contraria o poder político e principalmente o religioso. Comumente, sempre vemos Jesus como mestre. Esse evangelho o mostra como discípulo. A profecia também se aprende e é no convívio com o profeta que se aprende a viver a profecia que lhe é própria. A respeito de Jesus, João Batista reconhece:
- Aquele que veio depois de mim (isso é, era meu discípulo), passou à minha frente.
Para nós, isso revela uma forma própria de olhar a missão. A vinda do projeto de Deus ao mundo (o reinado divino) é anterior à missão de Jesus. Conforme Mateus, não é Jesus quem inaugura o reino. Assim que João é apresentado pelo evangelho, proclama: “Mudem de vida (se convertam), pois o Reino dos céus está próximo” (Mt 3, 2). Isso é uma perspectiva teológica inovadora: João não é simplesmente o “precursor” de Jesus. Não é só um preparador. Para o Evangelho de Mateus, João Batista é o profeta que anuncia a realização do projeto divino no mundo e faz de Jesus um profeta para nós. Jesus anuncia o reinado divino, porque já recebeu de João Batista a missão de testemunhá-lo. É a partir do olhar de João Batista que Jesus descobre o projeto divino acontecendo. Isso nos faz abrir nossos olhos para os profetas e as profetizas que, hoje, testemunham e anunciam o projeto divino de justiça e amor no mundo, profetas das mais diversas culturas e religiões. Assim como João Batista atuou como profeta fora das estruturas do Judaísmo oficial da época e os funcionários da religião não o aceitavam, esse mesmo conflito acontece hoje, no Cristianismo, em outras religiões, ou fora de qualquer referência religiosa.
Que maravilha! O projeto divino sempre esteve presente, misturado com a história do povo. Os profetas o souberam enxergar, apontar, realizar. Então, para nós, um modo bom de celebrar hoje o batismo de Jesus é aprender a descobrir e a testemunhar o projeto divino presente no mundo, independente de religião e da Igreja. O apóstolo Paulo afirmava que, com a vinda de Jesus, os cristãos e cristãs serão arrebatados ao céu. Ao contrário disso, na visão do batismo de Jesus é o céu que desce à terra, é o Espírito que se une ao ser humano e começamos assim um mundo novo.
João Batista faz isso através de um rito simbólico, o batismo e não apenas através de discursos. Batismo é o termo grego para mergulho, inserção. Naquele tempo, o mergulho nas águas do rio Jordão, proposto pelo profeta, era símbolo de purificação e banho regenerador para uma vida nova. Hoje, a noção de pecado é moral. Naquela cultura, o pecado era social e cultural. Era viver uma situação que afastava a pessoa do templo e da pureza ritual. Pecadores eram os trabalhadores pobres que se relacionavam com pagãos, porque dependiam dos estrangeiros ricos para sobreviver. Eram as mulheres que ficavam impuras quando menstruavam e quando davam à luz. Eram as pessoas que abatiam animais para vender... Isso significa que eram pecadores por serem pessoas pobres e marginalizadas. Portanto, o batismo para perdão dos pecados significava, não apenas uma absolvição de culpas ou de pecados morais e sim um rito de libertação de todas as marginalizações que, em nome de Deus, deixavam os pobres fora da fé e da vida comunitária.
Há padres e pastores que ligam a festa do batismo de Jesus ao nosso batismo. Isso pode ser bom, se o sentido é sublinhar que somos discípulos e discípulas de um profeta e o nosso batismo é para fazer de nós profetas como Jesus se tornou profeta pelo batismo de João.
Digo isso porque o sacramento do batismo cristão é muito diferente do batismo que Jesus recebeu no Jordão. O sacramento do batismo não depende do batismo de João. É mergulho na Páscoa do Cristo, na sua morte e ressurreição – é sinal e instrumento de vida nova pascal. No entanto, podemos sim, já ver no batismo que Jesus viveu no Jordão um anúncio da sua morte e ressurreição simbolizado na travessia das águas daquele rio de fronteira e cuja travessia possibilitava ao povo hebreu pisar na terra prometida.
Essa festa do batismo de Jesus nos confirma que devemos nos inserir nos movimentos sociais e grupos de base para participarmos das lutas pelo bem comum e pelos direitos de quem está sendo injustiçado. Como João e Jesus, mergulhar (batismo é mergulho) na vida dos marginalizados para apontar que Deus está do lado deles e, assim, ser testemunhas da ressurreição de Jesus, através do batismo que recebemos
Hoje, no mundo, profetas e profetizas do reino de Deus como foi João Batista são todas as pessoas que ajudam as pessoas e grupos de base a manter a esperança e acreditar na possibilidade do novo que vem. É essa missão que faz o que, simbolicamente, o evangelho conta na cena do batismo de Jesus: os céus se abriram para dizer que, a partir de então, não dá mais para dividir céu e terra, fé e política, espiritualidade e compromisso libertador. Quem vive isso, escuta hoje no seu coração a palavra de Deus que retoma a profecia de Isaías: “Este é o meu filho, a minha filha, em quem ponho toda a minha afeição”.
João Batista clamou no deserto:
"Preparai ao Senhor uma estrada,
Eis que o Reino de Deus está perto,
Escutai, geração transviada!"
Refrão: Mudai de vida, mudai,
Convertei-vos de coração!
Fazei a vontade do Pai,
Amai, servi aos irmãos;
Fazei a vontade do Pai,
Lutai por um mundo de irmãos;
Fazei a vontade do Pai,
O chão é de todos, e o pão!
Escutai, ó Igreja de Deus:
Eis, o tempo da Graça chegou,
É o Senhor da Justiça que passa,
Sua Páscoa entre nós começou!
(Reginaldo Velloso – CF 2009).
