Blog Aqui vamos conversar, refletir e de certa forma conviver.

A Trindade na Terra e não no céu

    Santíssima Trindade – ano A: Jo 3, 16-18

                                                    A Trindade não está no céu. É preciso descobri-la no mundo.

 

 Neste domingo, a Igreja Católica e algumas das Igrejas históricas celebram a festa da Santíssima Trindade. No século XI, na França, os monges faziam essa festa como devoção e em 1334, o Papa João XXII a instituiu para toda a Igreja latina. Ela foi criada para reafirmar a fé cristã, diante de grupos que negavam a doutrina da Igreja sobre Deus uno e trino. De fato, a crença em Deus como Trindade remonta aos primeiros concílios na Igreja já ligada ao Império Romano e responde a questões que, nos séculos IV e V, dividiam as Igrejas locais e o Império. O modo como os antigos pais da Igreja explicaram a fé alimenta até hoje a espiritualidade cristã. Comumente, as comunidades católicas iniciam as orações em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. 

Atualmente, ao falar de Deus, precisamos sempre ter o cuidado de não parecer que queremos explicar Deus, pois Deus como mistério de infinito amor não é captável em nenhum discurso. Nenhum termo ou expressão consegue descrever Deus. Podemos apenas tatear pois Deus como mistério de infinito amor não é captável em nenhum discurso. Podemos apenas tatear. No mesmo século no qual a Igreja medieval criou essa festa em honra da Santíssima Trindade, o Mestre Eckart, espiritual alemão, afirmava: “Tudo o que você pensa e diz sobre Deus, revela mais sobre você do que sobre Deus. Qualquer tentativa de definir Deus é blasfêmia. Nem todos os mestres de Paris conseguem dizer quem é Deus. Se eu tivesse um Deus que pudesse ser compreendido por mim, nunca o reconheceria como Deus. Por isso, cale-se e não especule sobre ele. Não lhe ponha roupas de atributos e propriedades. Aceite-o sem ser propriedade sua. Respeite-o como ser superior a tudo e, ao mesmo tempo, como um Não Ser superior a tudo”. 

Essa palavra adverte-nos contra qualquer tendência de querer definir ou explicar Deus. No Brasil, as pessoas mais velhas ainda recordam com saudade do 6º Encontro intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) em Trindade (GO) em julho de 1986. Ali, as comunidades diziam: "A Santíssima Trindade é a melhor comunidade". 

Ao insistir que Deus é Comunhão, as Cebs propõem que, nas Igrejas, nas relações entre ministros, ministras e na relação deles e delas com o povo, pratique-se o mesmo modo de relações que a Igreja ensina existir entre as pessoas da Santíssima Trindade: perfeita igualdade e distinção de funções

 

Neste ano A, o texto do evangelho proclamado nas Igrejas é João 3, 16- 18. “Deus amou tanto o mundo que lhe entregou o seu Filho único”. Essa palavra, que, no final do primeiro século da era cristã, o quarto evangelho coloca na boca de Jesus completa o diálogo entre Jesus e Nicodemos, o mestre da lei. Era um diálogo sobre Deus e sobre a necessidade de nascer de novo para se viver em Deus.  No tempo dos evangelhos, afirmar que Deus entregou o seu Filho ao mundo era usar uma linguagem sacrificial, comum à cultura da época. 

Hoje, cremos e devemos testemunhar que Deus é Amor e nos salva gratuitamente. Então, não podemos continuar dizendo que Deus é um pai que entregou o seu próprio filho à morte para, através do sacrifício de Jesus, reconciliar-se com a humanidade. Precisamos encontrar uma linguagem não sacrificial para expressar o amor do Abba, Paizinho de Jesus, que se comunica a nós através de Jesus e do amor com o qual o seu Filho enfrentou a violência do mundo e para vencê-la, entregou-se a si mesmo.  É como se ele decidisse: “Se alguém tem de morrer, que seja eu”. Ao contar como Jesus foi preso no jardim de Getsêmani, o evangelho de João afirma que, aos soldados que procuravam Jesus de Nazaré, ele responde: “Sou eu” e acrescenta: “Se é a mim que vocês buscam, deixem que esses possam ir-se livremente” (Jo 18, 8). 

Ao fazer isso, Jesus revela que Deus está do lado dos que são condenados pelo mundo, estruturado de forma opressora e exploradora. Ele transforma a visão de Deus, que quase todas as religiões tinham e muitos grupos atuais ainda têm. Tudo o que falamos de Deus é sempre parábola. No entanto, Jesus revelou-nos que existem parábolas respeitadoras e fieis ao que Deus revela de si mesmo e outras que se mostram consideradas inadequadas e impróprias. Essa distinção, a Bíblia faz quando fala dos ídolos. O ídolo é a imagem errada ou inadequada de Deus, muitas vezes, tentativa de sequestrar e domesticar Deus. 

 

No mundo atual, capitalistas colocam em sedes de banco e até em cédulas de dólar a palavra: Nós confiamos em Deus. Qual Deus? Nas ruas, encontramos carros, nos quais donos, muito religiosos, colocam no vidro do carro a frase: “Esse foi Jesus que me deu”. Não dá aos irmãos e irmãs sem-teto nem um carro de mão, mas dá um carro de luxo a um rico do qual ele gosta. Esse não é o Jesus dos evangelhos, que nos ensinou que um Deus que legitima a ambição e abençoa o egoísmo não pode ser o Deus que ama os pequeninos e se revela aos povos crucificados de hoje como paizinho que os ama com amor de mãe e lhes dá força para resistir e lutar contra a opressão.

Cremos que, através de Jesus, seu Filho amado, o Pai nos dá o seu Espírito, presente e atuante em todo o universo, em todos os povos oprimidos e nas mais diversas tradições culturais e religiosas. É preciso que sejamos profetas e profetizas dessa humanização de Deus. Não permitamos que imperadores do mundo, ou políticos oportunistas usem o nome de Deus, para legitimar políticas públicas de desamor e a violência contra os povos e a nartureza. 

  A celebração da Trindade convida-nos, não a definir Deus, não a repetir dogmas, e sim a nos sentir chamados a viver em Deus, como Deus é: comunhão. De fato, neste domingo, em algumas dioceses, celebra-se “o dia das Comunidades Eclesiais de Base”. Vivemos a comunhão com o mistério divino (da Trindade) à medida que tornamos a Igreja uma rede de comunidades locais, reunidas de forma igualitária, no nome de Jesus, como ensaio do projeto do Pai e profecia do Espirito Santo. 

 

  Em Salvador da Bahia, um trabalho de amor e solidariedade com as pessoas empobrecidas que vivem literalmente nas ruas reúne muitas dessas pessoas sofridas e alguns irmãos e irmãs solidárias, em uma Igreja antiga do velho centro da cidade. Antes, essa Igreja, dedicada à Santíssima Trindade, estava abandonada. Atualmente serve de abrigo para a “Comunidade da Terna Trindade”, animada por irmãos e irmãs consagrados, que fazem comunidade de vida com sofredores/as de rua e  voluntários que moram com eles para testemunhar que Deus é Amor e revela-se em todo amor humano. 

O Espírito Santo anima-nos a reconhecê-lo em todo projeto de defesa da Vida e a viver a comunhão divina em todo ato e caminho de amor. “Deus é Amor. Quem vive o amor vive em Deus e Deus vive nele ou nela” (1 Jo 4, 16).  Por isso, intuímos que a Trindade Divina não está no céu. É preciso descobri-la no mundo. Vivamos, de forma trinitária, a prática do amor que liberta a todos irmãos e irmãs em humanidade e a Mãe Terra e toda a natureza. 

 

 

No Comments Yet...

Leave a reply

Your email address will not be published.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

Informações