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A transfiguração de Jesus e as nossas transfigurações de cada dia

2º Domingo da Quaresma – ano A: Mt 17, 1-9


Jesus e as transfigurações nossas e da Vida

Neste 2º domingo da Quaresma, escutamos a narrativa evangélica conhecida como a transfiguração de Jesus. O evangelho de Mateus situa a história como tendo ocorrida “seis dias depois”. Depois de quê? Do anúncio que Jesus fez aos discípulos de que iria a Jerusalém e lá seria preso e assassinado. O texto diz que seis dias depois, Jesus toma os três discípulos mais próximos a ele, Pedro, Tiago e João, que, do grupo dos discípulos, são os mais ligados ao projeto messiânico mais político e dentro da perspectiva judaica. Mais do que todos os outros, eles três são os discípulos que mais poderiam ficar mais frustrados e escandalizados, quando enfrentassem a tristeza de ver Jesus ser condenado à morte pelos romanos e crucificado como um escravo rebelde.

A transfiguração de Jesus é o relato de um êxtase espiritual, um transe místico. Jesus recebeu o Espírito, fenômeno semelhante ao que, com outros nomes e de outras formas, ocorrem nos cultos de matriz africana e em muitas tradições espirituais da humanidade. No entanto, o que é próprio da transfiguração de Jesus é que esse momento mais místico da vida dele ocorre, justamente, quando ele decide assumir o conflito social. Como profeta, ele decide ir a Jerusalém para enfrentar as autoridades políticas, econômicas e religiosas, com plena consciência de que iria ser preso e condenado à morte de cruz. É nesse momento que ele faz a sua experiência de intimidade com o Pai e de diálogo com Moisés e Elias, os seus antepassados na profecia.
O evangelho conta que os discípulos reconhecem Jesus como filho de Deus, mas, por isso mesmo, não aceitam que ele possa sofrer e ser rejeitado pelo mundo. Ligam Deus com poder e glória e não com o amor infinito que passa por fragilidade e sofrimento. Pedem a Jesus que não siga esse caminho. Querem um Messias forte, vitorioso, com poder para mudar as coisas e que nunca poderia ser mais um pobre entre os pobres do mundo. No entanto, Jesus rejeitou essa proposta como tentação do adversário. São os próprios discípulos que dizem o que Satanás teria dito a Jesus: “Se tu és o Filho de Deus...”
No domingo passado, vimos que Jesus considera a religião baseada no milagre e no poder como tentação do diabo. Hoje, muitos grupos e Igrejas cristãs curtem e propagam essa falsa forma de espiritualidade. Gostam de exercer o poder, com o dinheiro e usam o nome de Jesus para seus interesses grupais. Jesus abre aos discípulos a sua experiência de intimidade com o Pai, exatamente, quando assume sua fragilidade e caminha para a doação da sua vida, por amor, culminando em morte na cruz. A cruz de Jesus, assim como também a marginalidade dos movimentos sociais são consequências do fato que o mundo é organizado de forma contrária ao projeto divino da justiça ecossocial e da Paz.

A cena da transfiguração no evangelho é para nos dar força de viver a missão e a inserção nessa realidade. No alto daquele monte que lembra o monte da aliança com o povo hebreu, o Sinai, Jesus refaz com os três amigos, a aliança que Deus Pai quer reviver com a humanidade. A cena é luminosa e alegre, como para dizer que temos direito a sentir alegria com a presença de quem amamos. É como um momento de êxtase e de gozo profundo do corpo e do espírito. É nesse clima que Jesus quer confirmar aos discípulos que a tragédia da história humana, a cruz que ele vai sofrer, pode ser vista a partir de outro ângulo e esse olhar nos é dado pelo próprio Deus. Assim como, antes, Pedro tinha proclamado a sua fé em Jesus, agora, ali no alto do monte, é o Pai que revela: “Este é o meu Filho amado. Escutem-no”.


De certa forma, transfiguração é uma experiência espiritual vivida nas religiões de matriz africana e em algumas tradições indígenas. Pode-se se chamar de “incorporação” ou “receber santo”. Jesus vive o seu momento de transe quando se relaciona com seus ancestrais Moisés e Elias, com os quais conversa como se eles fossem duas pessoas vivas. Para as tradições indígenas e afrodescendentes, a relação com os ancestrais é também essencial para a experiência espiritual.
Há cristãos que não aceitam ler o evangelho a partir das outras experiências espirituais. Deveriam dizer claramente que são contrários ao fato de que “a Palavra de Deus se fez carne e armou sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14). Jesus assumiu tudo o que é humano e quer que nós o assumamos também. Para Jesus, conversar com Moisés e Elias significa trazer para a intimidade daquele momento de amizade a experiência libertadora do Êxodo, a dimensão política da fé, a decisão de assumir sua missão, como o servo de Deus que, no tempo do profeta Isaías, ouviu a voz divina: “Este é o meu servo (Jesus ouve: meu filho) amado. Escutem-no!”.
Conforme o evangelho, o Pai revela sua presença (sua glória) na pessoa de Jesus que, por amor ao próximo, marcha para Jerusalém, para a cruz. Não porque o Pai queira que seu Filho morra. Se fosse assim, seria um Deus sádico e cruel.
A cruz é provocada pelo império do mundo. Deus acompanha o seu Filho e revela que está com ele até a cruz. Como está conosco, quando escolhemos o caminho de doação e de espiritualidade sócio-política libertadora. Jesus nos chama para irmos além das transfigurações excepcionais no alto da montanha e vivermos uma fé profética despojada e sem visões no cotidiano da vida.
De acordo com o evangelho, Pedro diz a Jesus: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, façamos aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias.” (Mt 17,4). Provavelmente, ele lembra o costume das famílias judaicas armarem tendas para morar durante os dias da Festa das Tendas (Sucot). Seja como for, ele quer prolongar a alegria daquele momento. O evangelho conta essa cena em um tempo no qual Jesus tinha deixado a Galileia, portanto, a casa que o evangelho chama de sua, em Cafarnaum e vivia pelas estradas, como ele diz a um discípulo, sem ter nem onde encostar a cabeça (Mt 8, 20). Hoje, no Brasil, calculam-se em seis milhões as pessoas que não têm onde morar. Além disso, 26 milhões vivem em habitações inadequadas e 300 mil pessoas em situação de rua. Essa realidade é consequência de um modo injusto de organizar a sociedade e desafia a nossa fé. Assim como Jesus, nós também somos chamados e chamadas a viver a experiência da intimidade com o Amor Divino nos comprometendo com as iniciativas para transformar a realidade e garantir, como propunha o saudoso Papa Francisco: teto, terra e trabalho para todos e todas.
Poema a partir do evangelho da Transfiguração

Pedir que te transfigures em nós

Te pedimos sempre,
de tal modo
que nossa presença
seja tua presença,
e sejas Tu
quem veja,
quem ouça,
quem fale,
quem ande,
quem viva,
através de nós,
pobres instrumentos,
colocados a teu dispôr
e prolongando tua
Encarnação Redentora...

Hoje, te pedimos mais:
transfigura o Universo!
Todas as coisas
– as grandes e as pequenas,
as belas e as feias,
os chamados nobres
e as tidas como vis – sem exceção,
tem vida e santidade...

Que a vida oculta
e a santidade escondida
venham à tona,
se transfigurem,
como aconteceu contigo,
ante os olhos extasiados
de Pedro, Tiago e João...
Dom Helder Camara -
Recife, 26/27.2.1972 (357ª Circular – 26/ 27. 2. 1972).

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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