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A missão de acolher e apoiar

S. Pedro e S. Paulo, apóstolos – Mt 16, 13-19

 

Viver a fé como espaço de acolhida e doação

 

Neste domingo, no Brasil, a Igreja Católica vive a festa dos apóstolos Pedro e Paulo. A segunda leitura da celebração deste dia (Gl 1, 11- 20)  contém o testemunho do apóstolo Paulo sobre como ele vê a sua missão. O evangelho é escolhido por causa da palavra de Jesus na qual ele teria confiado a Pedro função especial na comunidade dos seus discípulos e discípulas: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. 

 A tradição da Igreja Católica vê nessa palavra de Jesus a base para a autoridade do papa que seria sucessor do apóstolo Pedro como bispo de Roma e, assim, teria essa função de governar a Igreja. Independentemente da discussão sobre se essa palavra é realmente do Jesus histórico ou se a comunidade do evangelho a atribuiu a ele, não se pode imaginar que Jesus tenha pensado em tornar Pedro, chefe de uma Igreja que não existia na época de Jesus e nem mesmo 50 anos depois, no tempo da comunidade de Mateus. O termo Igreja Católica foi usado pela primeira vez, nas cartas de Inácio de Antioquia, nos anos 107 a 110[1]. .  

Menos ainda, podemos imaginar que Jesus tenha querido instituir uma hierarquia, ou seja, um poder sagrado, quando, de fato, a vida inteira, ele revelou a laicidade da fé e, até na última ceia, disse claramente aos discípulos e discípulas, que não deveria haver hierarquia na comunidade cristã (Cf. Lc 22, 25- 27) 

O padre José Comblin escreveu: “Do texto de Mateus não se pode concluir que Pedro teria um sucessor. (…) Quando o Evangelho foi escrito, Pedro tinha morrido provavelmente um quarto de século antes e o Evangelho não fala ainda em qualquer sucessão” ” [2].  

Seja como for, podemos descobrir nesse texto do evangelho de hoje uma palavra para nos ajudar a viver a fé e a discernir o papel do pastor, que quer ser como Pedro na Igreja Católica atual (o papa). 


A primeira observação é de que essa palavra do evangelho é situada em um tempo no qual Jesus estava em território estrangeiro (do outro lado do Mar da Galiléia). Ele sentia-se clandestino e em  situação de crise pessoal (poderíamos dizer, em crise de vocação). Por isso, põe em avaliação a sua missão. Faz com os discípulos uma revisão de vida, a respeito do que o povo pensa da sua pessoa e da sua missão. A resposta dos discípulos mostra que o povo não compreende a proposta de Jesus. Ele escuta isso e pergunta aos próprios discípulos e discípulas: “E vocês mesmos o que dizem a respeito do Filho do Homem? Esta maneira de Jesus falar de si mesmo é misteriosa.  Pedro responde em nome de todos: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”(v. 16). Isso significa que ele é o Messias, o enviado de Deus ao mundo.

É nesse contexto que Jesus chama Simão de Pedro ou pedra. Conforme alguns exegetas, na época de Jesus, na Galileia, o povo tinha o costume de escavar as rochas para daí tirar pedras para construir casas. Era um tipo de pedra mais mole, que pode nos recordar nossa pedra-sabão, usada por artistas para esculturas em pedra. Na língua aramaica, esse tipo de pedra chamava-se kepha. As pessoas pobres e sem casa abrigavam-se nessas cavernas de pedra oca e as usavam como casas. Assim sendo, o nome Kepha pode ser traduzido por pedra, ou por gruta escavada na rocha, que servia de abrigo para as pessoas sem-teto. De acordo com essa versão da história, a tradução mais literal da palavra atribuída a Jesus seria:  “Tu és Pedro e sobre ti como gruta que serve de abrigo para as pessoas mais empobrecidas, quero construir a comunidade dos meus discípulos e discípulas”. 

Importante recordar que a expressão “sobre ti” pode ser traduzida também por “em ti” ou “sob ti”, o que se coaduna com o sentido de que se trate de pedra ocada, isto é, gruta, espaço de acolhida de todos e todas, principalmente das pessoas empobrecidas. Assim deve ser toda igreja. 

 

As comunidades cristãs primitivas acentuavam que a pedra da Igreja é o Cristo (Cf. 1 Cor 10, 11 e 1 Pd 2, 6). Vários salmos e orações da Bíblia dizem que Deus é o rochedo da nossa salvação (Cf. Sl 18, 3 e 32; 31, 4; 61, 4; 95, 3; 144, 1). Jesus tinha dito que toda pessoa que escuta e pratica a Palavra (O termo Simão quer dizer o ouvinte e obediente) é como quem constrói a sua casa sobre a rocha (Mt 7, 24). “No edifício da igreja, ninguém pode colocar outro fundamento, a não ser  o Cristo Jesus, pedra angular” (1 Cor 3, 11). 

Mateus é o único evangelista que usa a palavra ‘Igreja’ e no seu contexto significa a comunidade local: a assembleia dos cidadãos e cidadãs do projeto divino no mundo. Pedro é o apoio, a pedra que deve dar segurança ao edifício no sentido da fé. Para a comunidade de Mateus,  Pedro é símbolo do discípulo a quem o Senhor confia o encargo de “confirmar na fé a seus irmãos e irmãs”. Em outra tradição, Jesus lhe diz: “Simão, eu orei por ti para que, sendo tu confirmado, confirmes a teus irmãos”(Lc 22, 31- 32). 

Embora Jesus entrega a todos e todas a missão de testemunhar o Reino, conforme Mateus (e é o único evangelho que diz isso), Jesus entrega a Pedro as chaves do Reino. É um modo de falar próprio da linguagem apocalíptica e baseia-se em Isaías 22. No capítulo 18 deste mesmo evangelho, esta função que aqui Jesus dá a Pedro, ele passa a toda a comunidade (Mt 18, 18). De certo modo, somos todos/as pastores e pastoras, chamados/as a viver a fé, como rocha de segurança e acolhida para todos os nossos irmãos e irmãs. 

 

Independentemente de sucessão histórica, é bonito e profundo que, desde tempos muito antigos, o bispo de Roma exerça o ministério do pastor que confirma seus irmãos na fé e tem como  função servir à unidade das Igrejas. 

Hoje, a maioria das igrejas históricas parecem dispostas a aceitar a necessidade de um ministério de coordenação e de unidade, que pode ser realizado pelo bispo católico de Roma. Há mais de 25 anos, na encíclica Ut unum sint (Para que sejam um), o papa João Paulo II pediu a cristãos e cristãs de todas as Igrejas que o ajudassem a rever a forma e o estilo no qual o ministério do bispo de Roma pode ser realizado (UUS 95- 96). 

Recentemente, o Dicastério para a unidade das Igrejas retomou as respostas enviadas ao Vaticano sobre essa pergunta e publicou um documento que confirma a necessidade de se superar a função do papado, como era nos tempos de Cristandade e a urgência de descobrir outro modo do bispo de Roma exercer o seu ministério próprio. 

Que todos e todas nós possamos orar e trabalhar por uma Igreja verdadeiramente sinodal que se veja a si mesmo como comunhão de irmãos e irmãs e não como monarquia papal e Cristandade, poderosa no mundo. Acolhamos o ministério do bispo de Roma como missão de unidade dentro da comunhão de Igrejas locais, cada uma com o direito de ter o seu estilo e sua própria forma de ser, até para ser verdadeiramente inserida na cultura local.  

Segundo a tradição, Pedro também terminou sua vida martirizado, assim como Jesus de Nazaré e o apóstolo Paulo. Portanto, Pedro, na sua origem, trabalhador pescador artesanal, teve alguns vacilos e tentações durante o exercício da missão, mas aprumou e, acima de tudo, tornou-se fiel ao Evangelho até o martírio. Que São Pedro e São Paulo nos inspirem na perseverança e na fidelidade radical, com doação da nossa vida à construção do reinado divino, que começa aqui e agora! 



[1] - Cf. HILLORST, A., Thermes chrétiens issus du vocabulaire de la démocratie athénienne. Filologia Neotestmentaria. 1/ 1 (1988) pp. 27 – 32. Citado por CASTILLO, José Maria. Memorias. Bilbao: Desclée de Brower, 2022, p. 253.

Sobre o fato do verso Tu és Pedro ter sido acrescentado, ver também LUZ, Ulrich. El Evangelio según San Mateo, vol II, pp. 598 – 601, citado também por CASTILLO, p. 253. 

 

[2] - JOSÉ COMBLIN, As linhas básicas do Evangelho segundo Mateus, in Estudos Bíblicos 26, p. 15. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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