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Jesus nas tempestades da vida

Jesus conosco nas tempestades da vida

                   A palavra de Deus neste domingo nos vem não primeiramente da Bíblia nem é tão forte a partir do texto do evangelho que ouvimos hoje. Ela é mais forte a partir da vida e da páscoa do nosso querido e saudoso irmão e mestre Pedro Casaldáliga. Hoje, ele pode dizer como São Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2 Tm 4). 

Neste XIX Domingo comum do ano, lemos o evangelho de Mateus 14, 22- 33. Depois de alimentar o povo no deserto, Jesus vai orar na montanha e manda os discípulos atravessar o lago para o outro lado. 

O pano de fundo desta página é o livro do Êxodo. Lá, depois de celebrar a ceia pascal, o povo hebreu teve de enfrentar o exército do faraó nas águas do mar Vermelho que se abriram para salvar os hebreus e sepultar os opressores. Agora, para um novo Êxodo, Jesus alimenta a multidão e, depois, manda os discípulos atravessar o mar da Galileia. Na Bíblia, o mar é sempre símbolo das forças do mal. Enfrentar o mar é lutar pela vida. 

Quando a gente ouve no evangelho que Jesus mandou (quase forçou) os discípulos e discípulas a entrar no barco para atravessar um mar de noite e em tempo de tempestade, só podemos lembrar de Dom Pedro Casaldáliga e de tantos pastores, irmãos e irmãs que obedeceram a esta ordem de Jesus e aceitaram viver a fé inseridos nas lutas do mundo e no enfrentamento às tempestades sociais e políticas do país. Infelizmente, muitos bispos e padres não aceitam. Preferem ficar aproveitando o prestígio de Jesus que tinha partilhado os pães e o povo parecia encantado. Mas, Jesus despediu o povo e obrigou os discípulos a se meterem nas tempestades da vida e das noites do mundo. 

Até hoje, o lago da Galileia é famoso por suas tempestades fortes e perigosas.  Em uma delas, os discípulos de Jesus correram grande risco. Nela, o evangelho de Mateus viu um sinal forte da intervenção salvadora de Deus, através de Jesus. Jesus vindo de madrugada, andando sobre as águas para salvar os discípulos na barca é uma parábola sobre como Ele se manifesta em meio às tempestades das noites da nossa vida, sejam as tormentas interiores, seja a calamidade social e política brasileira, que na recente Carta ao Povo de Deus, os 152 bispos brasileiros chamaram “a tempestade perfeita”. 

Conforme o evangelho, assim como Deus fez com o povo antigo no deserto, também Jesus naquele lugar deserto onde estava com a multidão tinha proposto a partilha do alimento e da vida como modelo de organização social. Isso o fazia correr perigo e ele teve de sair de lá, por motivo de segurança. A travessia do mar representa o enfrentamento às forças sociais que se opõem à partilha.  

A espiritualidade profética tem de assumir este enfrentamento com os poderes inimigos da partilha. O barco que enfrenta o mar é imagem da comunidade profética, que enfrenta os poderes da dominação e da morte. Mateus conta esta história falando três vezes em “medo”, “angústia” e “pavor”. Isso revela a realidade que a comunidade cristã em sua época estava vivendo. Quando os discípulos gritam de medo, Jesus diz: “Tenham coragem. Sou eu. Não tenham medo”. É a mesma palavra que, no Êxodo, Deus disse ao povo, que estava diante do mar e via o exército do faraó chegando para prendê-los. É a palavra que temos de ouvir hoje. 

A reação de Pedro de pedir a Jesus para abandonar o barco e ir ao encontro dele por cima das águas é simbólica. Agora, no meio desta tempestade da pandemia do Covid 19, quantas pessoas têm essa mesma tentação: no lugar de ficar no barco enfrentando, como todo mundo, a tempestade, há pessoas mais piedosas do que as outras, que querem um milagre para si. Dizem como Pedro: “Manda-me ir para junto de você por cima das águas”. Quando Pedro vai e afunda, Jesus lhe diz que a fé dele era fraca. Ele estava se referindo ao fato de que Pedro teve medo de caminhar sobre as águas ou a fé dele era pequena por ter abandonado o barco e deixado os outros enfrentando o mar, enquanto ele se abrigava junto de Jesus? 

Provavelmente, o projeto de Jesus era os discípulos ficarem juntos para enfrentar a tempestade e não tanto socorrer um deles. A cena de Pedro se sentindo afundar no caminho entre a barca e a figura de Jesus que o chamava também é símbolo de que a insegurança e o afundamento no mar do mundo pode atingir até os ministros que representam a comunidade. Como Pedro, os pastores podem também se sentir afundando, no meio do caminho para o Cristo, quando a tempestade se torna mais ameaçadora.

Na maioria das vezes, fomos educados a pensar em Deus no silêncio, na paz e associar a presença de Deus à claridade e à beleza de uma natureza tranquila. Comumente, não pensamos Deus presente nas tempestades da vida e na escuridão de nossas noites do espírito. Essa palavra do evangelho revela que Jesus traz a presença divina para o coração de nossas angústias, de nossos medos e nossas noites escuras.  

Pedro chama Jesus de “Kyrios”, “Senhor”. Na época,  isso era  subversivo porque só o imperador de Roma se intitulava de Kyrios. Ao dar a Jesus este título, os cristãos primitivos mostravam que não aceitavam o absolutismo de nenhum poder humano. Só Jesus é o Kyrios, senhorde nossa vida.  Hoje, aquele título que tinha uma conotação subversiva e transformadora tem um aspecto problemático porque, na história, foi interpretado na linha do patriarcalismo. Deus foi visto como um patriarca macho (senhor JWHW) e Jesus é senhor. Culturalmente, este modo de ver Deus tem sido um elemento que acaba colaborando com a marginalização da mulher. É importante e urgente desligar o modo de Jesus ser Senhor do que normalmente é o domínio patriarcal no mundo. 

Como fez aos discípulos, Jesus nos manda passar para o outro lado, isso é, enfrentar o desconhecido. Para a comunidade do evangelho, passar para o outro lado era se abrir aos estrangeiros, os não crentes, que moravam na outra margem do lago. 

O que significa isso para nós hoje? Pode significar abrir nossas vidas e nossas formas de crer às religiões originárias que hoje sofrem preconceitos e até perseguições. Pode significar abrir nossa fé a novos horizontes e no diálogo com o mundo de fora. Precisamos receber a coragem de Jesus para enfrentar a tempestade dos faraós de hoje em dia e testemunhar o projeto divino em meio a uma sociedade que vai na direção contrária.  No Que nossas eucaristias possam ser alimento que nos deem força nesta travessia.   

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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