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Conversa, quinta feira, 09 de junho 2016

O mistério das relações. De um lado, cada pessoa é ela mesma e, por mais que queiramos, há uma solidão existencial na qual cada um é mergulhado que a maior comunhão humana não consegue dirimir. Do outro, esses barcos de comunicação e janelas de comunhão são fundamentais. Há muitos anos (penso que 20), sou amigo de Letícia Sabatella, a quem conheci uma vez em um aniversário de Betto (frei Betto). Desde então, nos encontramos pouco, mas sempre que há ocasião e nos encontramos, há uma bela sintonia de amizade. No mês passado, eu estava no norte da Itália e tive a alegria de receber um telefonema dela que passava em Roma. Tinha ido para encontrar o papa e junto com uma juíza amiga denunciar o golpe político que tomou de assalto o governo brasileiro. Conversamos por telefone com a amizade de quem tivesse se encontrado ontem. E eu me comprometi a pedir a Deus que a abençoe e a proteja nesse caminho da profecia.

Hoje, recebi o email de um amigo jovem que se abria comigo sobre um aspecto pessoal de sua vida. Com muita transparência se colocou e eu me senti muito emocionado com a confiança dele e com a responsabilidade que sinto em acompanhar alguém que confia assim em mim. Comumente na Igreja, a gente aprende que o casamento é o sinal - sacramento - símbolo da união entre Deus e a humanidade, entre Cristo e a Igreja. No entanto, concordo com o irmão Roger Schutz (fundador da comunidade de Taizé) que, sem diminuir a importância do sacramento do matrimônio, a manifestação mais bonita e gratuita do rosto de Deus no meio dos homens é a amizade, uma amizade profunda e que se torne aliança de fraternidade entre as pessoas.

Na Idade Média, em algumas Igrejas locais, assim como havia um rito (bênção) para os casais, havia também um rito para selar o compromisso da amizade diante de Deus. Os/as amigos/as prometiam viver a fidelidade um ao outro como amigos em nome de Deus e como testemunho do reino de Deus. Quero viver isso com meus amigos. 

Tive também o contato com Dinho Lima Flor, um diretor de teatro que em São Paulo está vivendo Dom Helder Camara na peça musical "O avesso do claustro". É uma peça que conta episódios da vida de Dom Helder e de sua luta contra a ditadura como uma parábola da profecia que é hoje lutar para resgatar a democracia brasileira, em risco, nas mãos de um governo golpista e testa de ferro de bandidos declarados e convictos. Várias pessoas que já viram a peça no teatro do SESC Pompéia (na Barra Funda) têm saído comovidas. Eu passarei lá no final do mês e tenho um encontro marcado com o diretor e com o grupo. Fiquei feliz porque o Dinho me escreveu que meu livro sobre Dom Helder o ajudou a compor a história. Estou valorizando tudo o que pode ajudar a nova geração a conhecer e se apossar da herança profética que Dom Helder nos deixou. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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