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Novamente no cenáculo de resistência

Hoje, a vocês que me acompanham cada semana na meditação do evangelho, peço permissão para não seguir o lecionário seguido pelas Igrejas. Nessa noite, quero meditar as palavras de Jesus durante a última ceia, (João 15,  18 – 21 e 16, 1 – 4). De acordo com o quarto evangelho, Jesus diz aos discípulos e discípulas com os quais tinha mais intimidade as palavras mais ternas e carinhosas, mas também os adverte: 

Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que vos disse: O servo não é maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também perseguirão a vós. Se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Mas tudo isto vos farão por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou. Tenho-vos dito estas coisas para que vos não escandalizeis. Eles vos expulsarão das sinagogas. Chegará a hora em que qualquer que vos matar pensará que está fazendo um serviço a Deus. Eles agirão assim, porque não conheceram ao Pai nem a mim. Mas, eu vos disse isso para que, quando chegar aquela hora, vos lembreis de que já vo-lo tinha dito. E eu não vos disse isto desde o princípio, porque estava convosco”.

Atualmente, estamos vivendo um momento do Brasil no qual a sensação é de estarmos como Jesus e os primeiros discípulos na véspera da paixão. Acreditamos na ressurreição e na vitória da vida, mas de fato, não podemos deixar de sentir o cheiro da morte. Muitas das estruturas sociais pensadas para defender o povo já não cumprem o seu papel e nem mais mascaram sua posição partidária que favorece sempre a direita. O conjunto da sociedade se apresenta doente e a elite claramente mostra a sua face de arrogância, de desamor e de defesa cruel dos piores interesses. Aí esperávamos que as Igrejas, ao menos as Igrejas, fossem testemunhas do projeto divino no mundo. E o que vemos é apesar do esforço de algumas pessoas que aqui e ali tentam manter uma voz proféticas, as estruturas eclesiásticas também parecem, como me disse hoje, uma amiga, água estagnada e apodrecendo e não uma fonte de águas vivas na qual poderíamos nos dessedentar. Então, estamos nós como minorias abraâmicas, de novo, em torno de Jesus como na ceia a esperar a força do seu Espírito. 

Claro que nos dá uma impaciência ter de repetir a todo momento que se Deus é Deus não pode ser de direita, ou estar em cima do muro, enquanto vê o lobo se aproximar para devorar as ovelhas. Como tantos bispos e padres são ainda incapazes de compreender isso e obtusos à realidade? E o que dizer dessa imensa massa de pessoas simples, manipulada nas mãos de pastores? Como diz Jesus à Igreja de Éfeso no Apocalipse: esses (pastores pentecostais ou católicos carismáticos) parecem apóstolos (enviados de Deus), mas não o são. Na regra para os monges, São Bento escreveu sobre esse tipo de ministros: “negam a Deus pela tonsura”. 

O que essas palavras de Jesus no evangelho reafirmam é que, seja qual for o resultado das eleições de amanhã (esperamos que vença a democracia), seja qual for o resultado, vamos ter de retomar o projeto dos grupos cristãos da resistência – que assuma a vocação da profecia e comece a desenhar outro modo de ser Igreja, sem romper com as estruturas, mas sem nos omitir ou sermos coniventes com a omissão. 

Temos de retomar a radicalidade da opção (não só preferencial, mas prioritária) pelos pobres, temos de reler o evangelho para as estruturas do mundo atual e testemunhar que se não for a partir da justiça, a adoração a Deus é pura hipocrisia que ofende a Deus no lugar de agradá-lo. Temos de voltar ao apelo do Apocalipse: Retome o seu primeiro amor. Conforme a Bíblia, (podem olhar Jeremias 2, 1- 2; Oseias 2, 16- 21 e outros textos) o primeiro amor para a comunidade eclesial é a mística do reino, ou seja, é o que, hoje, podemos chamar de:  espiritualidade político-libertadoraque eu convido vocês a procurar compreender melhor do que se trata e como se pode viver. É um caminho de intimidade com Deus que não se contenta apenas com as mudanças dos corações e sim que, a partir dessa transformação interior (que é sempre fundamental) acolher em nós como dom divino o ser humano novo, mas não para ficar na religião burguesa dos bons costumes privados e sim para vivermos publicamente e mesmo como profecia em nossa Igreja maior uma parábola do mundo novo querido por Deus. Retomar o espírito do Cristianismo Libertador na realidade das Igrejas e do mundo atual. Em uma mística revolucionária nova e transformadora. Que o Espírito nos anime e ilumine nesse caminho. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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