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Em que eu creio eu

                      Acabo de receber o livro coletivo, organizado pelos queridos irmãos e mestres Faustino Teixeira e Carlos Rodrigues Brandão. São testemunhos ou depoimentos ou respostas de dezenas de homens e mulheres que respondem a pergunta "Em que você crê?". Uma pergunta difícil de ser formulada e principalmente de ser respondida. A apresentação do livro, assinada pelos organizadores é apaixonante e o primeiro testemunho é do mestre Ruben Alves, a quem o livro é dedicado. Ruben dizia ter medo de ir para o céu porque não iria suportar a saudade da terra, do corpo, do cheiro e dos sons. Como os anjos podem tocar harpa ou flauta se não têm corpo? O que podemos fazer em um mundo sem corpo? Claro que os cristãos respondem que cremos na ressurreição dos corpos, mas quando e como? 

                      Depois de Ruben, outros testemunhos, todos me tocaram muito. Que riqueza a diversidade e a liberdade. Ao expressarem o que creem, as pessoas deixam claro o que não creem. Talvez o traço comum seja como se juntam em cada pessoa a crença e a descrença, a confiança e as dúvidas, a busca e a recusa de repetir fórmulas. Um amigo teólogo que já transvivenciou (Afonso Soares) confessa que se tornou padre e se manteve sempre uma postura de não fé.  Como não nos identificarmos com essa mistura de mística e de ateísmo? 

                         Nem quis reler o que eu mesmo escrevi. O testemunho dos outros todos que li é tão belo e profundo que fiquei com medo de reencontrar-me com o meu e sentir a pobreza de não conseguir dizer tudo o que habita o mais profundo do coração. De todo modo, gostei de participar desse exercício e convido vocês a conhecerem. O livro está saindo pelas editoras Fonte e Terceira Via. 

                               Talvez por defeito profissional ou por conhecer por dentro padres e religiosos/as que repetem sempre a fórmula do antigo Credo, mas nunca se colocam essa questão no plano pessoal mais profundo, leio esse livro desejando esse diálogo mais aberto no qual os que se sentem seguros em sua fé escutem e acolham os que vivem em busca. E termino esse dia orando, orando uma prece muito íntima: ó Deus de amor, me dá sempre a honestidade de duvidar de minhas certezas, a capacidade de ouvir (a fé, diz Paulo, vem pelo ouvido) e a graça de me sentir junto com toda pessoa que busca... Junta os cacos de minhas buscas e me ajuda a refazer a cada dia de novo um jeito de crer que sempre aceite duvidar, perguntar-se, questionar-se e começar de novo, mas principalmente que me torne cada vez mais humano e amoroso. Como Jesus. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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