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Conversa, quarta-feira, 19 de outubro 2016

Acabei de voltar do sertão da Bahia (Rui Barbosa). Fica no começo da Chapada Diamantina, uns 450 km de Salvador (cinco horas de carro). Uma região linda, a uns 100 km de Lençois, cidade que ficou famosa por ter sido cenário de uma das novelas da Globo. Mas, não fui lá para conhecer as famosas formações rochosas, nem para tomar banhos de cachoeiras em meio às pedras belíssimas e paredões da Chapada. 

Cheguei no centro de encontro da diocese de Rui Barbosa na segunda-feira no final da tarde e já estavam 75 pessoas me esperando. Senti-me como no tempo em que trabalhava quase diariamente com lavradores, posseiros, sem-terra e pessoal da roça. Ali estavam homens e mulheres de assentamentos, de acampamentos de sem-terra, um companheiro que saiu há pouco da prisão e muitos agentes de pastoral. Irmãs, padres, agentes de pastoral, todos juntos. Coordenadores/as de CEBs. Todos estavam ali me esperando para participar de um encontro no qual eles queriam retomar a caminhada de compromisso da Igreja com as causas sociais e revolucionárias do povo.

Só coloquei minha mala no quarto e começamos o encontro. E ficamos até quase dez da noite, conversando. No dia seguinte (terça), passei com eles o dia inteiro. Fiquei impressionado com os depoimentos, as histórias que o povo contava de perseguições dos coronéis, de ameaças e riscos de vida e ao mesmo tempo me fez muito bem ouvir principalmente do pessoal mais de base como ligam a luta pela terra, pela água e pelos direitos dos trabalhadores à fé. Seu Zequinha, um homem de quase 80 anos, quase analfabeto que desde jovem está na luta e ao mesmo tempo um homem de profunda fé e espiritualidade.

Acabei o dia muito cansado, mas muito feliz.

Saí de lá hoje de madrugada, agradecendo a Deus e a esse povo pobre que eu amo tanto, tanto. Que grande privilégio, fazer qualquer coisa para servir a esses empobrecidos. E não há cansaço suficiente que chegue perto da alegria de  sentir no olhar deles o ânimo forte, a confiança em Deus e a amizade que têm por mim. 

Nesse momento em que, no Brasil, atravessamos um tempo tão duro, Deus quis me dar esse presente imenso e maravilhoso de poder ouvir e ver esse testemunho de resistência, coragem e disposição das pessoas de base a retomar a luta. Fiquei tão agradecido que tinha vontade de beijar uma por uma daquelas mãos calejadas e abraçar carinhosamente aquelas pessoas sofridas, mas com o olhar da vitória. E acreditei profundamente que é verdade: vamos mesmo retomar a caminhada e a espiritualidade libertadora em nossas comunidades. "Retomar o primeiro amor", como diz o livro do Apocalipse à Igreja de Éfeso (Ap 2, %). 

É claro que são como dizia Dom Helder, "minorias abraâmicas", mas com muita disposição. Volto com a palavra de Dom Pedro Casaldáliga: "Ninguém vai conseguir matar nossos sonhos". 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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