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A nossa décima hora

                       O evangelho lido pelas Igrejas nesse domingo (Jo 1, 35- 42),  nos traz o chamado dos primeiros discípulos segundo o evangelho de João que narra essa memória de forma bem diferente do que contam os outros evangelhos. Provavelmente, quando esse evangelho foi escrito, havia nas comunidades, grupos de discípulos de João Batista e outros que seguiam outros mestres (o termo rabi próprio de um tipo de Judaísmo que se chamou de Judaísmo rabínico só apareceu depois da destruição do templo de Jerusalém, portanto pelos anos 70). Isso significa que esse evangelho reflete uma questão do final do século I. Qual ou quais? Em parte sabemos, em parte, não temos certeza. A primeira coisa que aparece certa é que o evangelho deixa claro que João Batista é quem aponta Jesus para os seus discípulos. Portanto, quem escuta o Batista não o segue e sim segue Jesus que João apresenta como "Cordeiro de Deus". Jesus é o Cordeiro Pascal que tem como função libertar o povo dos cativeiros. Portanto, para mim, o primeiro convite desse evangelho, é passar de uma espiritualidade monástica, ascética, representada por João Batista (e até hoje seguida por muitos cristãos no plano religioso) para uma perspectiva libertadora e livre, de um encontro de aliança e de estar juntos e viver com e em Jesus. O evangelho de João diz "Jesus se voltou para eles". Para o evangelho esse "se voltar" de Jesus não foi apenas um movimento físico. O se voltou significa que ele parou o seu caminho e se centrou neles. Dedicou-se a eles. Prestou uma atenção de carinho e cuidado. Ali começa uma relação pessoal própria e de vida. É a mística do encontro.... A gente só verdadeiramente se encontra uns com os outros e mais ainda com Jesus quando se encontra assim, quando conseguimos nos voltar para o outro. Tenho conseguido isso com alguns amigos. E é tão bom, tão prazeiroso. Com quem ou com que pessoas concretas, você tem se voltado para elas? 

                  Atualmente, o pessoal principalmente jovem, usa muito a expressão "ficar" com sentido de transa sexual. Eu estou ficando com tal pessoa. O evangelho de hoje contém um diálogo que poderia ser compreendido quase nesse sentido sedutor, mas sem essa conotação sexual. O ficar com se torna mais envolvente e até mais comprometedor e profundo do que se fosse uma relação sexual. Jesus pergunta aos dois que o seguem: - O que vocês procuram? Eles respondem: - Mestre, onde moras? Então, Jesus lhes diz: Venham e vejam. Eles foram e ficaram com ele naquele dia. Eram quatro da tarde (a décima hora do calendário da época que dividia o dia em doze horas do nascer ao por do sol).  O importante para eles não foi onde ele morava (o evangelho não conta nada sobre isso) e sim o fato de que ficaram com ele e isso para eles foi tão marcante que nunca mais esqueceram. Conforme a tradição, o discípulo anônimo que fez aquela experiência com André é o mesmo discípulo amado que escreveu o texto tantos anos depois (quando já era velhinho) e para ele ainda ficava viva a experiência daquela décima hora.... Eram quatro da tarde, era a décima hora... Já meio tarde mas se tornou para eles a primeira hora de uma vida nova... vida de discípulos.... 

                      Ao meditar nesse texto, me coloco duas questões: Qual a busca mais profunda e estrutural de minha vida e qual a décima hora (aquela do encontro que me marcou) e que eu nunca mais esqueci. Muitas vezes, na vida, vivi situações nas quais buscas mais imediatas me tentaram a esquecer a busca fundamental - a busca estrutural - a espinha dorsal interior e mais profunda do meu ser que constitui a busca que dá sentido à minha vida. Nem sempre a tive muito claro e todo o meu esforço na estrada da espiritualidade foi e é para responder a essa pergunta de Jesus: Afinal, o que você está buscando?  E a pergunta deixa de ser O que para ser Quem você busca? Essa resposta, os discípulos só puderam responder e se puderam, juntos e a partir da vida, da experiência (Onde moras?. Venham e vejam). É na convivência com os outros e na caminhada concreta ( o evangelho diz: foram e ficaram com ele naquele dia). 

                     O evangelho desdobra essa experiência do encontro afetuoso e comprometedor para os outros discípulos. Um leva o irmão a Jesus  Nós somos responsáveis uns pelos outros e Jesus vai revelando a cada um que o conhece profundamente e vai dando a cada um o seu dom próprio. Tu és Simão. De agora em diante serás Cefas, Pedro. 

                      Agradeço a Deus ter possibilitado para mim a graça de encontrar Jesus aonde moram os empobrecidos, principalmente os movimentos sociais, os negros, os índios... Que privilégio, que graça maravilhosa viver como mistério de fé e de espiritualidade a inserção social e política nesse momento de tanta escuridão que pesa sobre nosso país. Que graça divina conseguir perceber no olhar de cada irmão e irmã índio, negro, sem terra, sem-teto e cada pessoa humana marginalizada (seja socialmente, seja sexualmente, seja em qualquer nível que for) esse se voltar de Jesus e esse amor divino que me faz ficar com ele. Quantas décimas horas - eu vivi. Mas, houve uma primeira e marcante. É bom reviver essa memória para atualizá-la. E poder escutar de novo a palavra de Jesus a Pedro: Segue-me. Ou como diz o evangelho de João: e permanecer com ele e nele.                      

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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