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A cruz de Jesus e a nossa

Hoje é o dia que antigamente as Igrejas chamavam de "Páscoa da Cruz". Isso significa que celebramos a vitória dada por Deus às muitas cruzes de nossas vidas, em primeiro lugar, à cruz de Jesus, mas também às nossas na vida pessoal e na vida do povo. Não se trata de ver a paixão de Jesus e o sofrimento das pessoas como sendo vontade de Deus. Infelizmente, até hoje, a linguagem usada pelos cristãos das primeiras gerações que viam a cruz de Jesus como sacrifício (sacrifício pascal) continua até hoje nas Igrejas e acaba falando mal de Deus. Dá à humanidade a imagem de um Deus que precisa que seu filho morra para que ele se reconcilie com a humanidade.
A cruz de Jesus não é vontade de Deus. A cruz em si não é santa. É um instrumento de tortura e de morte terrível. Nenhuma cruz é do agrado de Deus. Jesus morreu na cruz como vítima e Deus esteve na cruz com Jesus como sofredor e como vítima. Deus não quer cruz, nem faz ou provoca cruz. Quem provoca e faz a cruz é o mundo iníquo. Deus nos dá força para tornar a nossa cruz uma cruz pascal, uma cruz vitoriosa. O que Deus fez foi fazer com que a cruz fabricada pelos opressores não seja a última palavra. Deus torna a cruz de Jesus e as nossas cruzes sofrimentos que podem ser testemunhos do seu projeto no mundo, testemunhos do seu reino.
A cruz é o sofrimento vivido em consequência da missão e da coerência profética na defesa do projeto de Deus no mundo. A cruz é o martírio de Jesus, de Romero, de padre Josimo, da irmã Dorothy e de cada um de nós quando aceitamos sofrer as consequências da missão que Deus nos dá...
Hoje são muitos povos crucificados como gosta de repetir Jon Sobrino. Nessa Páscoa, muitos cristãos sofrem pelo fato de serem cristãos e de testemunhar o reino de Deus. Ao fazer memória da cruz de Jesus, lembramos os cristãos que sofrem perseguição por causa da sua fé em países como o Egito, a Síria e tantos outros. Na Nigéria, etc... Mas, não são só os cristãos. No sul da Índia, muçulmanos são perseguidos por causa da sua fé. Em todo o Brasil, fieis que seguem as religiões afrodescendentes são todos os dias discriminados e até atacados por crentes cristãos e em nome de Jesus. Aí não são os cristãos que sofrem na cruz, mas cristãos que fazem crentes de outras tradições sofrerem a cruz.
Celebrar essa Páscoa da cruz é nos solidarizar com todas as vítimas das cruzes do mundo, nos organizar para tirar das cruzes assassinas todas as pessoas e comunidades que sofrem e nos abrirmos ao Espírito de Deus para tornar nossas cruzes mais pascais. As cruzes das quais não conseguimos nos livrar sem deixar de ser coerentes com o que Deus pede de nós, essas devem ser transformadas em cruzes de Páscoa e ressurreição...

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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